Publicidade
Amazônia
Desafios em meio à crise

Pesquisadores afirmam que com ou sem crise, criatividade vai continuar na Amazônia

Pesquisadores ressaltam que com crise ou sem crise a criatividade vai continuar funcionando 19/06/2016 às 05:50
Show capturar
Workshop realizado essa semana, na Ufam, debateu sobre desafios da pesquisa, ensino e extensão para a sociedade amazônica (Evandro Seixas)
Silane Souza Manaus (AM)

O Amazonas tem grandes oportunidades no campo da produção científica assim como também muitos empecilhos para a realização dos estudos. Mas se fazer pesquisa já não era algo fácil, agora ficou mais complicado. A atual crise econômica do país tem provocado reduções significativas nos recursos destinados às instituições de pesquisa do Estado e deixado os pesquisadores preocupados com os rumos da ciência e tecnologia na região.

O pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) – Amazônia Ocidental –, Lindomar Silva, relata que desde 2014 a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) não lançou mais novos editais. Os próprios editais do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) estão cada vez mais escassos e difíceis de sair, conforme ele.

“Há uma preocupação muito grande nossa porque muitas pesquisas, processos de organização e de popularização da ciência vinham a partir do apoio da Fapeam. Fazer pesquisa na Amazônia não é fácil e se não tiver o aporte do Estado fica pior ainda. Isso cria um enorme impacto para quem produz que acaba não tendo um fator essencial que é o recurso. Imagina a dimensão do Amazonas, os custos amazônicos ninguém consegue mensurar ainda”, destaca Silva.

Para o pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, Alfredo Homma, um dos grandes desafios do Estado é desenvolver tecnologia local. A falta de desenvolvimento nessa área faz com que a região tenha sérios problemas de abastecimento. “Manaus mesmo sendo uma grande metrópole importa a maioria das hortaliças do Sul e Sudeste. Aqui é mais barato comprar uma maçã do que uma fruta regional. O frango atravessa o Brasil para chegar à cidade e se você for comprar um peixe é muito caro”, avalia.

Homma salienta que o Amazonas tem tremendas possibilidades que não são aproveitadas. Ele citou o exemplo da médica chinesa Tu Youyou, que conquistou o Nobel de Medicina em 2015. “Ela passou a vida toda trabalhando para encontrar uma planta que tinha princípios antimaláricos (que combate a malária). Se colocar no Amazonas temos dezenas de plantas medicinais. Não é com essa imagem folclórica, turística e de vendedor de transmedicinais que vamos avançar na região”, aponta.

Os pensadores destacam que buscam estratégias para o avanço da produção científica, principalmente no âmbito da agricultura familiar assim também como estimular o intercâmbio e o debate entre a comunidade acadêmico-científica e atores sociais de forma a contribuir para a produção de conhecimentos sobre a região. “Nós conhecemos muito pouco da região e nossa produção interna ainda é pequena. Temos uma carência não só na questão da produção, mas também na divulgação desses trabalhos”, revela Lindomar Silva.

Discussão 

Entre os últimos dias 16 e 17, a Embrapa Amazônia Ocidental realizou, no Centro de Ciências do Ambiente da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o "Workshop Produção Científica: Desafios da Pesquisa, Ensino e Extensão para a Sociedade Amazônica". O evento reuniu a comunidade acadêmico-científica e atores sociais para debater sobre o tema. Na ocasião foi lançada a 5ª edição da revista Terceira Margem Amazônia, que traz trabalhos oriundos de estudos, pesquisas e experiências sociais relacionados ao Amazonas.

Criatividade para das continuidade às pesquisa

Para o professor do Núcleo de Ciências Agrárias e Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Pará (UFPA), Gutemberg Guerra, a ciência tem uma dinâmica própria com crise ou sem crise a criatividade vai continuar funcionando. “O insumo básico da ciência é a criatividade, contra essa não tem crise. Então, acredito que se vamos ter um período de menos investimento isso não deve assustar cientistas que continuam a despeito de qualquer crise fazendo investimento no sentido de resolver problemas que estão postos”, afirma.

Guerra destaca que os pesquisadores do Amazônia fazem sim pesquisa na região, a questão da intensidade dos estudos e do recurso que se dar para a produção científica talvez seja o problema. “Mas nós podemos estudar muito do que está na região pelo que já levaram para fora de conhecimento. Muitos dos nossos conhecimentos estão nos grandes museus e instituições do mundo. Da botânica podemos ir para o kew garden, na Inglaterra, Botanical Garden, em Nova Iorque e Jardin des Plantes, na França”, pontua.

Para ele, o maior gesto político que a sociedade pode fazer daqui para frente é formar mais e melhor os estudantes para continuar nessa expectativa de aumentar o conhecimento e contribuir na construção do conhecimento internacional.

Blog

Luiz Marcelo Brum Rossi - chefe-geral da Embrapa Amazônia Ocidental (Manaus-AM)

Na Embrapa, empresa pública vincula ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, os cortes e o  contingenciamento dos recursos tem chegado a mais de 80% nas despesas de investimento (necessárias para aquisição de equipamentos e execução de obras), e de 50% nas despesas de custeio, que servem para manter o funcionamento da instituição além de possibilitar a execução das ações de transferência de tecnologia e de pesquisa, desenvolvimento e inovação na área agropecuária e florestal da região. Além disso, o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) tem sido reduzido fortemente, principalmente com o corte de 50% nas bolsas do Programa de Apoio à Iniciação Científica do Amazonas (Paic/Fapeam) e o adiamento do lançamento de novos editais para o apoio das ações de pesquisa científica no Estado. Em face dessa menor disponibilidade orçamentária, a Embrapa tem buscado racionalizar o uso dos recursos, reduzindo gastos com combustíveis, insumos, energia, diárias e passagens bem como renegociando contratos com fornecedores e empresas terceirizadas.

Publicidade
Publicidade