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Em busca de oportunidades, famílias se tornam ‘guardadores de barcos’ na orla do rio Negro

Famílias que vieram do interior e até de outro estado buscar melhor qualidade de vida em Manaus, tiram sustento como ‘guardadores de barcos’ na orla do rio Negro 24/05/2015 às 19:09
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Sem uma moradia descente, Maria José Santos, 54, vive com o marido e filhos numa pequena embarcação. Com o auxílio de dois cachorros ela vigia outras embarcações e com o dinheiro arrecadado sustenta a família
Isabelle Valois Manaus (AM)

Boa parte dos moradores do interior do Amazonas idealizam que viver na capital pode ser a melhor forma de conseguir a realização de um sonho:  melhorar de vida. Deixam tudo e acreditam que na capital a situação será mais fácil, assim como o emprego, estudos e moradias. Mas a realidade é diferente.

Por causa da necessidade, alguns até conseguem ficar por algum tempo nos barcos, outros até conseguem um emprego em péssimas condições de trabalho, mas outros ficam realmente sem ter nem condições de retornar para o interior. Nesse caso, procuram de alguma forma conseguir sobreviver e aguardam uma ajuda humanitária do poder público.

Casos como esse aconteceu com a autônoma, Maria José Santos Rodrigues, 54. Natural de Porto Velho (RO), veio para Manaus com 14 anos, e na bagagem trouxe a saudade de casa e o sonho de mudar de vida, mas se deparou com uma realidade totalmente diferente do que sonhava. Ela, sem ter nenhum documento, tentou a sorte e com o pouco dinheiro que a sua família tinha, não pensou duas vezes e veio para cá. 

“Pensava que logo que eu chegasse em Manaus conseguiria um emprego e seria fácil iniciar meus estudos, mas a verdade  que ocorreu foi totalmente diferente”, relembrou. Sem orientação a autônoma precisou retornar ao porto da Manaus Moderna para conseguir um local para dormir.

Guardadora de barcos

Sem destino, Maria José se virou do jeito que pode, e foi entre as embarcações, que ela conheceu o seu esposo. A autônoma engravidou da primeira filha, que hoje tem 14 anos.

“Quando estava grávida de dois  meses, algumas pessoas da prefeitura chegaram a me procurar e informaram que meu nome entraria na lista para conseguir uma casa. Como não tinha nenhum documento, eles conseguiram contato com meus parentes em Porto Velho e colaboraram para a retirada aqui em Manaus”, contou.

Depois que foi entregue a documentação, Maria José não obteve mais nenhum retorno da sonhada casa. “Como engravidei, queria pelo menos ter um local melhor para cuidar da minha filha”, disse.

Como seu marido trabalhava de vigia dos barcos, Maria o acompanhava e até hoje vivem e sustentam os quatro filhos com este trabalho.

Trabalho na orla que gera renda de R$ 300 por mês

Por mês a família da autônoma Maria José dos Santos, 54,  consegue arrecadar aproximadamente R$ 300. Sem condições de conseguir uma moradia melhor, eles diariamente se adaptam com os banzeiros e os lixos que ficam ao redor da orla. “Para conseguir tomar banho, pegamos a canoa e vamos para o local mais distante da orla, onde a água é menos poluída”, explicou.

Para ajudar na guarda dos barcos, a família conseguiu dois cachorros que além de tudo são os companheiros diário da família. “Quando ouvimos os cachorros latindo, sabemos que tem alguém estranho chegando”, contou. De acordo com Maria José, do dinheiro que a família arrecada como vigia de embarcações, é investido em comida e na água que precisam comprar para beber.

Para dormir a família adapta o colchão no chão do barco e baixa as lonas.

Com o famoso “esticadinho” ao lado do barco, Maria prepara a comida e lava as roupas. Conforme a autônoma, a única preocupação é quando os dois filhos mais novos caem em água.

“Como eles não sabem nadar, tenho que ficar de olho. Quando um deles cai em água alguém tem que pular ligeiro no rio, e fico com meu coração aflito”, explicou.

Serviço que ultrapassa  geração na família

Outra família que também vigia barcos no porto da Manaus Moderna é a da Maria Helena Coutinho, 63. Natural de Nova Olinda do Norte (distante 135 quilômetros da capital), Helena veio para Manaus em 1994 na companhia dos pais que tinham uma casa flutuante Manaus Moderna e trabalhavam como vigia de embarcações.

“Essa ideia de viver nos barcos tem passado de geração em minha família. Nós temos casa em Nova Olinda, mas é deste trabalho que sustentamos a família”, explicou. No flutuante da família, moram sete pessoas e para sustentar toda a família, a filha de Helena cata material reciclável nos rios e vende nas sucatas.“

O problema de morar na orla é o lixo que fica acumulado, infelizmente esse lixo vem de todo o canto da cidade e ficam um bom tempo na orla, acabamos nos acostumando e vivendo nesta situação”, disse.

A família de Helena também adotou dois cachorros que colaboram no trabalho de vigia da família. Conforme Helena, é comum ver cachorros e gatos convivendo entre as famílias que vivem no barco.

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