Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
Amazônia

Em defesa do povo indígena e da preservação do Vale do Javari

Indígenas prestes a concluírem seus cursos universitários pretendem dedicar os conhecimentos adquiridos em prol de seus entes



1.jpg Beto e Eliésio Marubo (no centro o pai deles) darão continuidade ao movimento indígena que eles começaram desde a adolescência na Aldeia Maronal, situada no Vale do Javari, no Sul do Amazonas
17/10/2015 às 09:51

Os indígenas, seguidores das pajelanças, não estão atrelados apenas aos ensinamentos dos mistérios da floresta e da cura. A mentalidade guerreira e erudita os conduziu a trilhar outros caminhos. Atualmente, uma pequena parcela de indígenas tem papel preponderante no universo intercultural por meio da educação superior específica e diferenciada para os povos indígenas.

Com as recentes conquistas nos estudos, agora os indígenas embarcam em  uma nova odisseia:  cuidar dos seus entes. Da acanhada legião de indígenas,  que buscaram há quatro anos ingressar em cursos universitários,  três são de uma única família da etnia Marubo.  À época (2010), A CRÍTICA entrevistou os indígenas dias antes de prestarem  o vestibular. Mal eles sabiam que teriam êxitos em suas respectivas provas. 

Hoje, quase formados, os irmãos Cláudio e Artemiza, ambos estudantes do curso de enfermagem, e Eliésio, formado em direito e recentemente aprovado no exame da  Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), destacam que vão substituir os “doutores” que dificilmente chegam à região remota.

Enfadados do abandono histórico do Estado, os indígenas do Vale do Javari (Sudoeste do Amazonas), os irmãos Marubo têm um mesmo objetivo: defender os sete povos (Kanamari, Korubo, Kulina, Marubo, Matis, Mayoruna (ou Matsés) e Tsohom-dyapá) da reserva de 8,5 milhões de hectares, segunda maior terra indígena do País.

Os quase cinco mil índios que vivem hoje em contato permanente com o Estado no Vale do Javari enfrentam graves problemas de saúde. A mortalidade infantil é extremamente elevada. Epidemias de malária são constantes, além da alta incidência de malárias e de hepatites A, B C e Delta. Recentemente foram registrados casos de Aids.

Eliésio reforça que há casos críticos de hepatite e malária na região, onde existem pouco mais de 3 mil indígenas, espalhados em 50 aldeias. Também há um número desconhecido de tribos isoladas na região, onde o impacto das doenças é ignorado. “Outra dificuldade é o acesso às comunidades, uma vez que o meio de transporte são basicamente os barcos, e nem sempre os rios da região são de fácil navegabilidade”, explica.

Os irmãos Marubo acreditam que, diante do conhecimento adquirido nos centros universitários, eles poderão contribuir de alguma forma e até mesmo levar uma nova mentalidade educacional e cultural às aldeias indígenas. 

Desafio e feito histórico no clã indígena

Eliésio faz parte do clã mais importante dos Marubo. O pai dele é o “cacique maior” do povo. O fato de Eliésio ter sido aprovado na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), enquanto aluno da Universidade do Estado do Amazonas (UEA),  tem um poder simbólico e marca um feito histórico: ele se tornou o primeiro líder de uma das mais importantes terras indígenas brasileiras a romper a barreira do preconceito acadêmico.

“Isso é prova da função efetiva da ação universitária no meio social, mas embora tenhamos alento para ajudar nossos povos, encontramos alguns estorvos, como o desgaste e falta de visão governamental na produção da política pública voltada para as populações indígenas”, disse.

Eliésio conta que foi preciso muito força de vontade para concluir o curso. “Lidamos com inúmeros desafios que vão desde o preconceito à falta de recursos, mas venceu o espírito guerreiro”.

Se o acesso está mais facilitado, a permanência de indígenas desafia as instituições. Segundo dados do Instituto de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa, das 125 instituições  públicas no País,  63 contam com ações afirmativas voltadas aos índios.

A realidade nas universidades

De acordo com o Ministério da Educação (MEC), em 2011, um ano após o ingresso dos irmãos Marubo na nos cursos universitários,  eram 3.540 indígenas entre os 1.773.315 matriculados no ensino superior público, ou seja, um indígena a cada 500 alunos.

Atualmente, a realidade é bem diferente: há um indígena para cada 107 alunos. Desde 2010 está em andamento a criação da Universidade Indígena do Rio Negro (UIRN), que ainda se encontra numa fase propositiva. A ideia da criação da UIRN tem tido apoio nos últimos anos.

Receba Novidades

* campo obrigatório

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.