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Em face das queimadas, bióloga do Cigs faz alerta ambiental em favor das onças pintadas

Constantes queimadas na região amazônica vêm causando preocupação e podem atingir até mesmo animais exóticos símbolos como as onças pintadas, com o risco até desses animais deixarem a floresta com sentido à capital 24/10/2015 às 08:55
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As onças pintadas Guardião e Amazônia, que são mantidas em cativeiro, no Zoológico do Cigs
Paulo André Nunes Manaus (AM)

“Lá se vai onça pintada fugindo dessa queimada / E não vai mais voltar!”. Os versos da belíssima toada “Lamento de Raça”, do Boi Garantido, ilustram com perfeição o alerta que a bióloga e 2º tenente Sinandra Carvalho dos Santos, 38, faz em relação a um dos animais mais belos da fauna amazônica. Formada em Ciências Biológicas e atualmente fazendo mestrado na área da Conservação da Natureza no curso de Pós-Graduação em Ciências Florestais e Ambientais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ela atua no Zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs) há 2 anos e meio e analisa que a situação das queimadas na região só tende a prejudicar o espécime das cores amarela e preta.

“As onças são animais topo da cadeia alimentar, sendo boas indicadoras de qualidade ambiental. Se um ambiente está propício, se está bom, ali haverá uma onça. Ela é reguladora de cadeia e tem que estar em um ambiente para regular certas populações de modo a não ter tantos animais de um só espécie. E quando você começa a ter essas queimadas em volta de Manaus, afeta diretamente as matas, as florestas e as onças”, explica a especialista, que vai mais além em seu alerta, destacando que a capital amazonense passa a ser um dos destinos desses animais acuados.

“No momento que você tira esse habitat, eu te pergunto: para onde elas vão? Por isso que às vezes acabam se encontrando onças muito próximo de Manaus porque elas estão perdendo o seu habitat natural e estão procurando outros lugares. Estão se perdendo animais com as queimadas. Eles estão morrendo porque não conseguem fugir. E se perde, também, a presa da onça, que vai procurar outro lugar para comer”, conta a bióloga.

As queimadas causam um desequilíbrio muito grande na natureza, que afeta as onças, que são os maiores felinos das Américas. E ela consegue ter essa percepção de perda de habitat. Por ser um animal de grande porte, o felino ocupa uma área de vida que chega a 140 quilômetros quadrados em média, segundo alguns autores.

PELA CONSCIENTIZAÇÃO

A mudança desse patamar preocupante passa pela conscientização do ser humano, diz a 2º tenente Sinandra Santos. E a mudança não é benéfica apenas às onças, mas ao ser humano como um todo quando ao tocante da saúde.

Bióloga militar Sinandra Santos (Foto: Evandro Seixas)

“Em primeiro lugar precisa haver conscientização das pessoas e um trabalho de educação ambiental para que se mude essa ideia de queimadas, que não é boa. Ela causa problemas de saúde e respiratórios para a população, como com as crianças, e para o meio ambiente e até mesmo acidentes de trânsito: já passei por uma estrada onde estava tendo uma queimada na lateral e que eu vi que estava indo muita fumaça para dentro da estrada. E as pessoas estão deixando de praticar esporte em lugares que tem muita fumaça. Manaus é conhecida por pessoas que praticam atividades ao ar livre na área urbana, entre corridas  e ciclismo. Como correr em um ambiente assim? Não é aconselhável. Ou seja, diminui o esporte, a questão da saúde, temos os acidentes de trânsito, perda de habitat, alteração de várias espécies da nossa fauna e flora, afeta nosso solo. E fora o calor: já é quente e fica pior ainda a sensação térmica. Há mais prejuízo do que benefício”.

CATIVEIRO X HABITAT

As onças em cativeiro, como as do Zoológico do CIGS, explica a especialista, não devem sentir tanto a alteração climática, pois estão acostumadas ao ambiente. No entanto, explica ela, as que encontram-se livres na floresta com certeza estão sentindo os sintomas. “Essas devem estar se sentindo acuadas, procurando outros ambientes para poder estar em equilíbrio”, acrescenta.

Como bióloga, Sinandra Santos atua diretamente na questão do bem estar animal, alimentação e comportamento. “Quanto à alimentação, sempre entregamos a carne a ela de maneiras diferentes, chamamos isso de enrriquecimento alimental, uma dessas formas: carne estando suspensa por um fio, dentro de uma caixa de papelão ou em uma bola de cipó para que ela possa pegar a carne dentro. São ‘brincadeiras’ que fazemos com as onças visando quebrar o estresse do animal em cativeiro. Cada uma delas come de 2 a 3 quilos de alimento, em dias intercalados. “É uma dieta balanceada para despertar nelas aquele desejo de caça, de sentir um pouco de fome, porque na natureza ele teria que caçar. Mas não quer dizer que vai ter comida todo dia. Os machos ganham um pouco mais de comida porque são maiores que as fêmeas”, esclarece.

As onças têm um contato mais direto com os tratadores, que são militares capacitados quem alimentam elas, portanto esse vínculo elas têm mais direto com o tratador, o Zoológico do Cigs possui uma equipe técnica composta por  6 oficiais: 5 veterinários e 1 bióloga mais 2 sargentos: sendo um técnico ambiental e 1 de Infantaria além da equipe de tratadores compostas por soldados, que realizam a manutenção e os cuidados de cerca de uma média de 190 animais da fauna amazônica.   Há equipes que trabalham com os mamíferos, aves e com os répteis e eles vão alternando suas funções visando para que todos possam  conhecer um pouco de cada grupo de animal.

ADMIRADORA

Foi o amor de Sinandra pelos animais, e o sonho de ser militar, que trouxeram a gaúcha a Manaus após ser aprovada em um processo seletivo ao cargo de oficial temporária bióloga. Já são quase 3 anos de dedicação aos animais em uma permanência na cidade que deve durar mais 5 anos.  

“Em Manaus tem cursos muito bons, e por estarmos na Amazônia, a área de meio ambiente proporciona uma vivência nova todos os dias. É rico pra isso. Como  bióloga e do Sul do País, eu sempre quis vir para a Amazônia. Às vezes você vê a Amazônia em um programa de TV que dura 15 minutos. Então quando você vivencia isso, vê a amplitude que tudo isso tem. Já me sinto em casa pois o povo manauara é muito receptivo principalmente com as pessoas que vêm de fora para contribuir com a cidade”, elogia a profissional.

A onça é o animal preferido dos visitantes do zoológico do Cigs, segundo a tenente Sinandra: “Deu onça na ‘cabeça’. Depois em segundo lugar vêm os macacos, em terceiro o gavião real, sucuri e quando aparece (emerge) o jacaré de 5 metros que temos aqui”. Duas das seis onças pintadas mantidas em cativeiro no Cigs são especiais: a fêmea Cunhã e o macho Simba, que por apresentarem um comportamento mais dócil e terem chegado ainda filhotes ao Zoo, são tratados como mascotes e apresentando-se em formaturas e desfiles militares como o Sete de Setembro,  Dia da Independência do Brasil.

FUNÇÕES

No Zoológico do Cigs são desempenhadas 3 principais funções em relação às onças pintadas e demais animais: conservação e preservação de animais; educação ambiental para os visitantes e; pesquisa científica. “São esses os três grandes focos. É um trabalho feito com os animais que, por um motivo ou outro, não podem retornar para a natureza. Realizamos trabalhos de educação ambiental com as comunidades, escolas, turistas, etc., buscando dar aos animais um enriquecimento ambiental, alimentar, para que eles tenham uma boa qualidade de vida. Imagine: eles estão hoje fora do seu ambiente natural por um motivo ou outro e hoje vivem em cativeiro. Buscamos proporcionar a eles o melhor possível de alimentação, ambiente, que ele se sinta na floresta, na mata, em um ambiente que seria natural para ele”, frisa a 2º tenente.

ANIMAL SÍMBOLO

Ela ressalta a importância do animal em alusão ao aniversário de 346 de Manaus. “A onça é um dos animais símbolos da Amazônia e de algumas tribos indígenas por ser um animal forte. O Exército a usa como símbolo. Portanto, por estamos comemorando o aniversário de Manaus, vamos preservá-la. A Amazônia é tão rica e acredito que devemos preservar esse símbolo de beleza”, conscientiza a bióloga militar.

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