Publicidade
Amazônia
Amazônia

Em Manaus, faltam políticas públicas de habitação e sobram danos à natureza

Somente nos últimos dois anos, uma área equivalente a 84 campos de futebol foi desmatada em apenas oito das 101 invasões registradas na capital amazonense 05/06/2015 às 15:31
Show 1
Ao longo dos últimos dois anos, a Semmas identificou mais de 100 focos de invasão em toda a capital e menos da metade deles foram retirados pelo poder público
Oswaldo Neto Manaus (AM)

Na história de Manaus, fatos dão conta de que a capital se expandiu a partir de um pequeno ponto e buscou o desenvolvimento devastando. As ocupações ilegais, que há muitos anos dão origem a diversos bairros da cidade, hoje ameaçam o pouco verde restante, anunciando danos ambientais catastróficos para as futuras gerações. Para se ter uma ideia, nos últimos dois anos, uma área equivalente a 84 campos de futebol foi desmatada em apenas oito das 101 invasões registradas na capital.

Em meio a esse cenário estão histórias daqueles que só desejam um pedaço de terra, mas também a falta de fiscalização de órgãos públicos e a carência de políticas habitacionais. Por fim, uma questão precisa ser respondida o quanto antes: aonde vamos parar?

A primeira realidade é a dos “invasores”. O termo, inclusive, é condenado por muitos que vivem nessas áreas devastadas. Para entender o contexto, a reportagem visitou uma invasão recente, intitulada “Cidade das Luzes” e localizada no bairro Tarumã, Zona Oeste. De terra batida, sem asfalto e com a maioria das casas construídas com tábuas e ripas, a área é um (péssimo) exemplo de como surge um bairro em Manaus.

Lá, os moradores estranham qualquer visita incomum. “Não precisa soltar os foguetes agora, eles só vieram conversar”, avisa um dos presidentes da comunidade, identificado somente como “Paulinho”, ao observar a presença da equipe de reportagem.

Foto: Lucas Amorelli

Juntamente com outros ocupantes, Paulinho fiscaliza o cadastramento de moradores que terão um terreno demarcado na área. Respeitado, Paulinho é reconhecido por ter ajudado muitos deles a saírem da miséria. Durante entrevista, ele conta sobre o rápido desenvolvimento da comunidade que ele ajudou a criar. “Temos cinco mil pessoas com casas aqui, com gente de toda parte da cidade. Nós amparamos essas pessoas, pois elas não tinham pra onde ir”, afirma.

‘Desbravadores’

Paulinho não sabe informar o tamanho da área que já foi ocupada na Cidade das Luzes. No perímetro, ele aponta algumas áreas verdes que, segundo ele, futuramente darão lugar a uma delegacia, escola e ao posto de saúde da comunidade. Leva certo tempo para o assunto “desmatamento” ser mencionado na conversa.

Ao ser questionado sobre o avanço da devastação no local, ele afirma que o perímetro já é o suficiente para a quantidade de moradores que vivem ali. Após a pergunta e o pedido para fotografar a área, Paulinho decidiu soltar os foguetes e promover uma reunião entre a equipe de reportagem e os moradores. “Não vamos aumentar mais não. As árvores que estão aí vão ficar de pé. Também estamos proibindo os moradores de fazer queimadas. Não queremos destruir mais nada, isso aqui é o bastante”.

Devastação difícil de ser mensurada

Ninguém sabe ao certo o tamanho da área desmatada em toda cidade, em decorrência de invasões. Órgão responsável por fiscalizar a prática em âmbito municipal, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) alega que é impossível medir o tamanho do estrago.

“Muitas delas se deram em áreas particulares (onde não temos atribuição legal para atuar), inclusive Áreas de Proteção Permanente (APPs), situadas em terrenos particulares. As ocupações em áreas públicas no perímetro urbano são pontuais e, quando extintas, têm a vegetação naturalmente regenerada, o que dificulta também a mensuração”, explica um trecho da nota enviada pela assessoria de imprensa da secretaria.

A CRÍTICA reuniu dados das invasões noticiadas ao longo dos últimos dois anos na capital. O resultado é apenas uma estimativa, mas suficiente para assustar: a área devastada na cidade corresponde a, pelo menos, 84 campos de futebol. Ao todo, foram devastados 841.000 metros quadrados (m²) em apenas oito invasões das 101 invasões registradas pela Semmas: Águas Claras 2 (11 mil m²), Distrito Industrial 2 (160 mil m²), Ramal do Leão (150 mil m²), Santa Etelvina (200 mil m²), Ramal do Brasileirinho (160 mil m²), loteamento Ponte da Bolívia (150 mil m²) e uma área na Zona Norte da capital (10 mil m²).

'Não vejo um futuro otimista', avalia sociologo

Para o sociólogo David Spencer, os problemas causados pelas ocupações na cidade são resultado de um cenário criado há décadas, quando famílias compravam enormes quantidades de terras na capital. Ele destaca áreas como o Distrito Industrial e o próprio Tarumã, área que vem sofrendo com o surgimento de invasões. Com o passar do tempo, Spencer explica que o poder público se omitiu na regularização fundiária desses locais, ponto que entrou em conflito com a expansão demográfica.

“Não vejo um futuro otimista para esse problema. Enquanto o poder público não cria políticas públicas para regularizar essas terras, não terá como amenizar esse impacto ambiental. O governo avançou muito com os programas Minha Casa Minha Vida e o Prosamim, mas eles foram pensados numa lógica atual, e não para o futuro. A demanda hoje é muito maior”, afirmou.

Publicidade
Publicidade