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Amazônia
FLORESTA

Especialistas garantem que pecuária pode ser aliada contra desmatamento

Apuí, Boca do Acre e Manicoré, todos no Sul do Estado, são os municípios com o maior número de cabeças de gado, com 54% do rebanho de corte do Amazonas 25/03/2018 às 08:37
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Os municípios com maior número de cabeças de gato são aqueles com maior área desmatada (Foto: Manoel Freitas/ACrítica)
Silane Souza Belém (PA)

É possível criar gado e aumentar a produtividade da fazenda sem derrubar a floresta? Pesquisadores do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e da Associação O Eco garantem que sim. Basta aproveitar melhor as áreas que já foram abertas com boas práticas agrícolas e tecnologias. Tal medida, enfatizam eles, é importante e fundamental para a Amazônia, onde dois terços do que foi desmatado virou pasto e há três vezes mais bois e vacas do que gente.

O engenheiro florestal Paulo Barreto, pesquisador do Imazon, enfatiza que não há motivos para desmatar novas áreas para a pecuária na Amazônia, haja vista que há 10 milhões de hectares de pastos subutilizados e aumentar a produtividade dessas áreas é um dos caminhos para zerar o desmatamento. “Tem alguns produtores que estão fazendo isso, mas é preciso ampliar esse número. O problema é que muitos preferem desmatar a investir em capacitação e tecnologia”, desabafa.

Barreto ressalta que se parasse o desmatamento e não houvesse nenhum ganho de produtividade nas fazendas, o impacto no Produto Interno Bruto (PIB) seria de 0,013%. Mas essa perda nem é necessária porque é possível aumentar a produção nas áreas já desmatadas. “Tem várias técnicas para evitar a degradação, como renovar pasto, fertilizar, evitar compactação; ou fazer a recuperação de áreas degradadas, com investimento e capacitação de pessoas para fazer manejo do solo e gado”.

O engenheiro florestal salienta que tem estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) que mostram como melhorar a produtividade sem desmatar e o governo concede crédito público, sendo cerca de R$ 5 bilhões, todos os anos, na Amazônia. “Esse dinheiro teria que ser condicionado a de fato investir só em quem está usando essas melhores técnicas. Já teve caso comprovado que parte desse recurso foi usada indiretamente para estimular o desmatamento”, frisa.

Para ele, o problema é complexo, mas uma vez que dar para identificar os frigoríficos responsáveis pelo abate de gado na Amazônia e os bancos que financiam a atividade na região é possível cobrar desses atores a responsabilidade de encaminharem soluções em relação ao desmatamento causado pelo setor. “Na Amazônia, só 110 empresas frigoríficas são responsáveis por 93% do abate do gado. Não é tão difícil reunir essas 110 empresas e cobrar delas um comportamento melhor”.

Paulo Barreto. Foto: divulgação/Imazon

Realidade documentada

O editor do site de jornalismo ambiental O Eco, Eduardo Pegurier, conta que a organização brasileira, nos últimos dois anos, vem acompanhando de perto o setor pecuarista na região Amazônica, registrando as várias facetas do problema. Agora o foco será na parte de soluções. “Quem está fazendo certo? Que soluções podem intensificar a produtividade? Como fiscalizar melhor? Como zera o desmatamento na Amazônia relacionado à pecuária? São as perguntas deste ano”, afirma.

Os resultados obtidos na primeira fase do projeto poderão ser conferidos em um filme que será lançado em breve pelo O Eco. A realidade da pecuária na Amazônia também será retratada em um livro. Um hotsite vai ser criado para divulgar as reportagens. “Vamos divulgar o conhecimento que acumulamos de diversas formas: site, livro, filme. Muita gente no Brasil não tem noção da importância da pecuária dentro da Amazônia. Hoje, a região tem três vezes mais vacas do que gente. Poucas pessoas sabem disso”, comenta Pegurier.

Cenário preocupante

O analista ambiental Renê de Oliveira, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), disse que o avanço do desmatamento no Amazonas, especialmente no Sul do Estado, preocupa. “São grandes áreas de florestas públicas da União, não destinadas, que estão tendo uma especulação imobiliária enorme. Isso é preocupante porque, nesse primeiro momento, o mais fácil a se fazer é justamente converter essa área florestada em pasto”, ressalta.

Oliveira afirma que tal cenário é visto claramente em cinco municípios do Sul do Amazonas, que são justamente os que mais chamam a atenção atualmente pelo aumento do desmatamento. São eles: Apuí, Novo Aripuanã, Manicoré, Lábrea e Boca do Acre. O grande foco é pecuária. “O desmatamento nessas regiões é para fins de conversão da área para pasto e, no segundo momento, ter animal dentro”.

O analista ambiental do Ibama salientou que é importante que os frigoríficos do Estado tenham consciência de que se os animais são oriundos de áreas não autorizadas ou desmatadas ilegalmente não deveriam ser comercializados. “Se o mercado conseguir regular isso há uma grande possibilidade dessa reversão (reduzir o desmatamento) e que essas pessoas busquem a legalidade”. 

Ele defende que o setor pecuarista der sustentabilidade para as áreas abertas. “Não precisa desmatar novas áreas. Hoje tem tecnologia, têm condições, incentivos financeiros para isso e que deveria ser visto. Se tivesse de fato um olhar diferente para uma pecuária mais sustentável você conseguiria impedir o avanço do desmatamento para fins de criação de gado bovino”, garante.

Em novembro do ano passado, o Atlas de Conflitos na Amazônia, lançado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), indicou que a região Sul do Amazonas é uma das principais fronteiras do desmatamento na Amazônia e uma zona em plena fase de expansão agropecuária. Conforme o documento, nos últimos 20 anos, o Sul do Amazonas viu um enorme crescimento em seu rebanho.

Em 1990, eram 100 mil cabeças de gado, em 2012, este número era de 700 mil. Apuí, Boca do Acre e Manicoré, todos no Sul do Estado, são os municípios com o maior número de cabeças de gado, com 54% do rebanho de corte do Amazonas. Eles também são aqueles com maior área desmatada, onde a pecuária deve crescer mais rapidamente nos próximos anos, conforme o Atlas. 

Mercado pode ajudar

“A lei mais eficaz contra o desmatamento é a do mercado”. Quem garante é o procurador da República Ricardo Negrini. Ele cita como exemplo a medida adotada pelo Ministério Público Federal no Pará (MPF/PA), em 2009, que obrigou os frigoríficos a não comprarem mais gado proveniente de áreas com desmatamento ilegal, trabalho escravo ou de invasões de terras públicas ou de comunidades tradicionais.

De acordo com Negrini, naquele ano, juntamente com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o MPF/PA entrou na Justiça contra quem cria gado em áreas de desmatamento e quem compra diretamente produtos desses criadores. Foram propostas 21 ações pedindo o pagamento de R$ 2,1 bilhões em indenizações pelos danos ambientais à sociedade brasileira.

Além disso, o MPF/PA recomendou a 69 grandes empresas revendedoras de derivados do boi e a fabricantes que utilizam essa matéria-prima a evitarem comercializar produtos cuja origem é a criação ilegal de gado em áreas desmatadas. “Vários varejistas deixaram de comprar produto de fazenda com irregularidades socioambientais e os frigoríficos tiveram que se adequar”, frisa Negrini.

Ricardo Negrini. Foto: divulgação/Imazon

Atualmente, conforme o procurador da República, mais de 70% do abate feito no Estado do Pará está submetido ao controle. Porém, o resultado das auditorias, divulgado no dia 9 deste mês, mostrou que alguns frigoríficos ainda não assinaram o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e mesmo entre aqueles que aderiram ao TAC houve compra de carne advinda do desmatamento da Amazônia.

O que demonstra a necessidade de criação de mecanismos para evitar a compra do gado que nasce em áreas ilegais, mas que é revendido por produtores rurais legalizados – a chamada “lavagem” ou “esquentamento” do gado.

No Amazonas, de acordo com o MPF/AM, os TACs foram assinados entre 2013 e 2016, mas a atuação no sentido de regularizar a cadeia produtiva agropecuária no Estado começou em 2009, a partir da instauração de inquérito civil público. Conforme o órgão, todos os seis frigoríficos da região aderiram à proposta. Ainda não houve auditoria, mas o MPF/AM informou que acompanha o cumprimento dos acordos por meio de inquéritos civis instaurados com essa finalidade para cada termo.

Modelo para a Amazônia

O produtor rural Mauro Lúcio Costa, vice-presidente da Associação dos Criadores do Pará (Acripará), diz que é possível praticar a pecuária na Amazônia sem agredir o meio ambiente. E ele tem propriedade para falar do tema. Em 2011, liderou o projeto “Pecuária Verde”, uma das iniciativas que tiraram Paragominas da lista de municípios da Amazônia que mais desmatam.

O projeto começou a ser implantado dois anos após o embargo do Ministério Público no Pará (MPF/PA) a comercialização de animais oriundos de fazenda com irregularidades ambientais e sociais. O objetivo das ações era fazer as adequações ambientais das propriedades, aumentar a produtividade dos rebanhos e, ao mesmo tempo, recuperar as matas nativas.

Com apoio de instituições públicas e privadas e especialistas em gado e em floresta os produtores que fizeram parte da iniciativa conseguiram resultados excelentes, de acordo com Mauro. “Nós conseguimos não só intensificar a produção, mas fazer restauração das áreas de reserva legal e de APP (área de preservação permanente) das fazendas”, conta.

 

Mauro Lúcio (centro). Foto: divulgação/Imazon

As APPs foram recuperadas com vegetação nativa, já as reservas legais receberam plantios de árvores com essência madeireira, medicinal e frutífera, conforme a vontade de cada produtor, podendo os mesmos depois fazer extrativismo. “Na minha área plantei árvore com essência para madeira e a cada dois anos faço coleta para saber quanto estamos melhorando em biodiversidade”, revela Mauro.

A produtividade do rebanho foi outro ponto bastante comemorado, conforme o produtor rural, graças ao melhoramento do manejo dos pastos. O impacto positivo também foi observado na vida dos colaboradores das fazendas, uma vez que, na opinião de Mauro, uma das coisas que a tecnologia mais exige em vez de dinheiro é conhecimento.

“As pessoas precisam ser treinadas e capacitadas. E o maior bem que você pode dar a um ser humano é conhecimento. Quanto mais o seu conhecimento aumenta, mais melhora sua qualidade de vida”, destaca Mauro Lúcio enfatizando que o desmatamento não traz desenvolvimento. “O que traz desenvolvimento é você melhorar, tecnificar essas áreas (desmatadas) ou atividades que já existem lá”.

Evento discutiu o tema

As fontes que estudam, fiscalizam e praticam a pecuária na Amazônia brasileira entrevistadas por A CRÍTICA nesta reportagem participaram do encontro “Jornalistas em Diálogo – Pecuária na Amazônia: por que boi e floresta ainda são notícia?”. O evento foi promovido pelo Imazon e O Eco, na última quarta-feira, em Belém (PA).

O encontro tinha por objetivo fortalecer a cobertura jornalística sobre o tema, incentivando a divulgação de dados, o diálogo e a troca de informações entre repórteres que atuam no Norte do País, além de divulgar os principais estudos produzidos na região sobre a cadeia produtiva da pecuária e seus impactos no desmatamento.

Evento reuniu jornalistas de várias regiões do Norte. Foto: divulgação/Imazon

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