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Estiagem expõe dano ambiental de quase 30 anos no município de Presidente Figueiredo

Madeira exposta com a estiagem que afeta o lago de Balbina poderia ter uma destinação sustentável, mas esbarra na burocracia e hoje causa problemas que vão da emissão de metano a acidentes de navegação 06/03/2016 às 20:01
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Mais de cem acidentes com rabetas e pequenas canoas acontecem no palhiteiro
Gerson Severo Dantas ---

CONFIRA O VÍDEO

A estiagem no Município de Presidente Figueiredo (a 107 quilômetros de Manaus) praticamente reduziu a zero o lago da usina hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã, e expôs um dano ambiental que há muito deveria ter sido mitigado e resolvido: as árvores mortas pelas águas do lago há quase 30 anos.

Na região, a visão soturna e em pé dos troncos é conhecida por palhiteiro ou caucaia e, apesar da aparência inofensiva, eles causam danos gravíssimos. O primeiro deles é a produção e emissão de gás metano - 25 vezes pior que o dióxido de carbono para a formação do efeito estufa -; depois são responsáveis por mais de uma centena de acidentes de navegação anualmente e, por fim, deterioram os equipamentos da usina que entram em contato com a água do rio, como é o caso das turbinas.

O lago é formado por três tributários: os rios Uatumã e Pitinguinha e um braço do Branco, que nasce em Roraima e desagua no rio Negro numa região acima do município de Novo Airão. O tamanho estimado dele é de 2,3 mil quilômetros quadrados (236 mil hectares de floresta). Essa área inundada se espalha por aproximadamente 155 quilômetros do rio Uatumã e chega a influenciar cursos de água até dentro da Terra Indígena Waimiri-Atroari, na fronteira do Amazonas com Roraima.

Os construtores da usina de Balbina “mataram” essa área de floresta equivalente a 236 mil campos de futebol para gerar, com a capacidade máxima em funcionamento, 260 MW, valor correspondente a próximo de 20% do consumo de Manaus. No entanto, em média, ela gera 109 MW (10%), e hoje bem menos porque de suas cinco turbinas apenas uma está em funcionamento. “Um impacto grande, para um benefício pequeno”, resumiu certa vez o cientista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Phillip Fearnside.

Com tantos e tamanhos problemas causados à floresta, a Eletrobras foi responsabilizada nos anos da construção a dar uma destinação correta para o madeirame morto, mas até hoje ele está lá como um cadáver exposto pela mudança climática que deixou a Terra das Cachoeiras sem água.

Projeto esbarra na titularidade da terra

Um projeto de aproveitamento das árvores mortas tramita por escaninhos de órgãos ambientais do município e do Estado, mas sem solução.

A ideia é tirar as árvores, colocá-las em secadores para posterior produção de carvão em cooperativas agroextrativistas. De acordo com um técnico da Secretaria Municipal, que não quis se identificar, se 50 cooperativas fossem formadas, seria possível, com baixo custo, produzir 100 metros cúbicos de carvão legalizado a cada dia, suficiente para abastecer 50% do mercado de Manaus. De acordo com ele, somente uma rede de churrascaria de Manaus consome diariamente 20 metros cúbicos, o que dá a dimensão do potencial do negócio. Outra vantagem é legalização do negócio, hoje praticamente todo feito na ilegalidade.

O problema, ainda segundo este técnico, é fazer com que todos os órgãos públicos envolvidos na questão cheguem a um consenso. Os órgãos em questão são: Marinha do Brasil, Eletrobras, Secretaria do Patrimonio da União, Fundação Nacional do Índio, Ministérios Públicos do Estado e Federal, Tribunais de Contas, Instituto do Patrimônio Histórico e Artísticos Nacional.

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