Segunda-feira, 18 de Outubro de 2021
DESMATAMENTO

Estudo inédito mostra que o Amazonas se tornou um dos epicentros da exploração madeireira da Amazônia

Manejo florestal pode ser solução para garantir a produção responsável, indica 5o Boletim Timberflow, desenvolvido pelo Imaflora



ibama_487887F5-ED3F-4509-A133-6AE7159D6A32.jpg Foto: Reprodução
10/10/2021 às 08:40

Estudo inédito indica que o manejo florestal comunitário ou de concessões ambientais é o caminho para estabilizar a fronteira ativa de exploração madeireira no sul do Amazonas. A quinta edição do Boletim Timberflow, uma iniciativa do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) para análise de bancos de dados públicos e geração de inteligência sobre a produção e movimentação de madeira nativa no Brasil, identificou aumento expressivo na produção madeireira do Amazonas nos últimos anos. O sul do estado foi o principal responsável por esse crescimento e apresentou uma elevação de 350% na exploração de madeira entre os anos de 2013 e 2019. 

De acordo com o estudo, caso medidas não sejam tomadas para apoiar a expansão da indústria madeireira do sul do estado em bases sustentáveis, a tendência é que as florestas da região tenham o mesmo destino de outras que já foram exploradas com o avanço do arco do fogo e desmatamento rumo ao coração da Amazônia. 



Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), juntas, as cidades de Lábrea, Manicoré, Novo Aripuanã, Humaitá, Canutama, Apuí, Boca do Acre e Tapauá lideram o aumento da expansão da atividade madeireira, que passou de aproximadamente 200 mil metros cúbicos em 2013 para cerca de 700 mil metros cúbicos em 2019. Apenas nos oito municípios foi gerada 70% da produção de madeira em tora no Amazonas no biênio 2019-2020. Sozinhos, os municípios de Lábrea e Manicoré compõem 40% da produção no período.

O processo de alastramento da ocupação do setor florestal no sul do estado é  semelhante ao que ocorreu no restante da Amazônia. As edições anteriores de relatórios do Timberflow têm chamado a atenção para o avanço da atividade madeireira em regiões da floresta amazônica. 

O caso do sul do Amazonas, mais especificamente, foi favorecido pelo acesso aberto por estradas oficiais, se destacando a proposta de pavimentação da rodovia BR-319. A proximidade da região a pólos de processamento no norte de Rondônia e noroeste do Mato Grosso também beneficia esse processo, já que as cidades amazônidas se tornam um destino mais fácil e próximo aos que buscam por novas fontes de matéria-prima. 

Manejo florestal sustentável

O Amazonas é um gigante florestal. Pode empregar de maneira responsável uma parcela de seus mais de 150 milhões de hectares de florestas para a geração de economias rurais duradouras no interior do estado e melhorar a qualidade de vida de suas populações tradicionais e rurais. 

No entanto, a extração realizada sem a adoção de boas práticas de manejo tem limitado o potencial da floresta e inviabilizado o mercado dos empreendimentos de madeira responsável. Uma solução de larga escala para o aumento do suprimento responsável de madeira do estado passa por um melhor ordenamento territorial, destinando florestas de produção que pudessem ser manejadas por comunidades e empresas através do sistema de concessões florestais. 

“O Amazonas tem grande potencial para o desenvolvimento do manejo comunitário e familiar (MFCF). Há mais de 14 milhões de hectares de reservas extrativistas e reservas de desenvolvimento sustentável. Através da condução do MFCF em grandes unidades de produção localizadas nas florestas públicas, seria possível gerar uma solução em larga escala para o desenvolvimento de um setor florestal responsável”, aponta Marco Lentini, coordenador sênior do Imaflora, que esteve à frente do estudo do Timberflow. 

Unidades de reserva

Como exemplos, há a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, localizada nos municípios de São Sebastião Uatumã e Itapiranga, cujo Plano de Manejo Florestal de Menor Impacto possui 2.041,40 hectares licenciados e está em exploração e transporte para atender a três contratos de fornecimento de madeira. 

A Associação Agroextrativista das Comunidades da RDS do rio Uatumã (AACRDSU) é a detentora do Plano de Manejo, que tem o Idesam como assessor e responsável técnico, além de ter recebido apoio financeiro do Fundo Amazônia/BNDES. 

Já em Lábrea, na Reserva Extrativista do Rio Ituxi, a Associação dos produtores Agroextrativistas da Assembleia de Deus do Rio Ituxi (Apadrit) é detentora de Plano de Manejo Florestal de Menor Impacto, com 1.403,43 hectares licenciados, e possui contrato com empresa de material de construção em Manaus. 

O Plano foi iniciado pelo Instituto Floresta Tropical (IFT) e hoje é assessorado pelo Idesam. Assim como o plano da do Uatumã, também contou com apoio financeiro do Fundo Amazônia/BNDES.

A implementação de uma agenda positiva para o Amazonas também pode beneficiar as concessões do sul do estado através da atração de investidores florestais. O maior nível de controle da ilegalidade florestal, e a consequente diminuição de riscos relacionadas à exploração madeireira, promoveria um melhor clima de negócios, o que poderia catalisar um setor florestal robusto e responsável no estado. 

Combate ao desmatamento

Questionado pela A CRÍTICA, sobre quais alternativas além do manejo florestal comunitário, poderiam contribuir para que a exploração ilegal e o desmatamento não se alastre na Amazônia, Marco Lentini destacou que a criação de estratégias que já foram implementadas pelas políticas públicas poderiam retornar.

"O desmatamento da Amazônia é um tema complexo, com um grande número de interesses econômicos e de atores envolvidos. Uma solução eficaz e de longo prazo depende da implementação efetiva de políticas estruturantes, sendo que podemos citar pontos importantes de estratégias anteriormente implementadas (como o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal - PPCDAm) que incluíram o ordenamento territorial, monitoramento de atividades ilegais, comando e controle, projetos de infraestrutura com salvaguardas sociais e ambientais e o fomento em larga escala a atividades econômicas sustentáveis", destacou.

O coordenador ressalta deve ser feito um aumento de políticas que visam dar prioridade ao controle do desmatamento da Amazônia.

"Neste momento, estas políticas e as próprias prioridades com relação ao controle do desmatamento da Amazônia estão bastante enfraquecidas. Com relação especificamente ao tema florestal, nos parece importante, como abordado no estudo, ações que possam promover o aumento do suprimento comprovadamente responsável de madeira, como as concessões e o manejo comunitário em terras públicas, oferecendo alternativas de oferta e de mercado para a madeira produzida de modo ilegal", acrescentou. 

A plataforma Timberflow foi desenvolvida dentro do projeto "Legalidade e transparência florestal na Amazônia brasileira" do Imaflora, com apoio da Good Energies Foundation. 

Para ler o estudo na íntegra, acesse: https://www.imaflora.org/public/media/biblioteca/boletim_timberflow_5_finalpdf.pdf

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Repórter de A Crítica
Amazonense, nascido e criado em Manaus. Graduado em Jornalismo e mestrando em Antropologia Social, ambos pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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