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Amazônia
Mudanças climáticas

Estudo traça mapa de vulnerabilidade das mudanças climáticas no AM

Pesquisa feita pela Fiocruz e MMA aponta as regiões do Amazonas que devem sofrer impactos mais severos por conta do aquecimento global 16/09/2016 às 14:06
Show seca
A perda de produção e os impactos na vida dos ribeirinhos estão entre os reflexos apontados pelo estudo da Fiocruz (Márcio Silva - Arquivo/AC)
Silane Souza Manaus (AM)

Os municípios mais expostos à mudança do clima no Amazonas, nos próximos 25 anos, serão Careiro da Várzea, Parintins, Urucurituba, Boa Vista do Ramos, Nhamundá, Canutama, Lábrea e Boca do Acre, além da Região Metropolitana de Manaus (RMM), em virtude de desmatamentos, variações bruscas de temperatura e poluição. 

Em relação à sensibilidade, que indica a intensidade com a qual os municípios são suscetíveis aos impactos do clima, parte da região Centro-Sul, com destaque para a cidade de Tapauá e o Vale do Javari, representado por Atalaia do Norte, serão os mais vulneráveis.

Municípios da região Nordeste do Estado, como Manaus e Presidente Figueiredo, são considerados os mais adaptados para lidar com as mudanças climáticas devido à existência de infraestrutura de saúde, como leitos hospitalares, plano de contingência de desastres e presença da Defesa Civil. A região do Vale do Rio Negro, representada por Santa Isabel do Rio Negro, é a cidade menos adaptada. 

Estas e outras informações fazem parte de uma pesquisa inédita para a região Norte do País, que identificou a vulnerabilidade à mudança do clima nos 62 municípios amazonenses e foi divulgada ontem, durante o seminário “Indicadores de Vulnerabilidade à Mudança do Clima”. O estudo é coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e é uma das atividades realizadas no âmbito do projeto Vulnerabilidade à Mudança do Clima, feito em parceria com o Ministério do Meio Ambiente. 

Monitoramento

De acordo com o coordenador do projeto, Ulisses Confalonieri, a iniciativa permitirá à gestão estadual avaliar, por meio de mapas e gráficos, qual parte do território está mais e menos vulnerável às alterações do clima e os mais aptos a se recuperarem de possíveis impactos climáticos. “Além do Amazonas, mais cinco Estados estão sendo avaliados: Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Paraná e Pernambuco”, destacou. 

Ele salientou que também foi desenvolvida uma ferramenta, um software, para mensurar a vulnerabilidade humana às mudanças climáticas, conforme cada município. “Os dados podem ser atualizados a cada um ou dois anos e as informações podem orientar as políticas públicas para aquelas regiões do Estado que estão mais vulneráveis. Desta forma, é possível fazer com que a população não seja tão prejudicada com as mudanças”, observou.

Metodologia

Para a pesquisa foram consideradas informações de cada município referentes à preservação ambiental, a dados sobre a população, como saúde e condições socioeconômicas e a ocorrência de fenômenos extremos e doenças relacionadas ao clima. Por meio do cruzamento e análise desses dados, é possível calcular o Índice Municipal de Vulnerabilidade (IMV). 

O cálculo da vulnerabilidade dos municípios é associado a três elementos - exposição, sensibilidade e capacidade de adaptação da população, considerando dois cenários de clima futuro: um com redução nas emissões de gases do efeito estufa e menor aquecimento global, e outro que considera o aumento contínuo dessas emissões com maior impacto no clima.

Perda de flora, fauna e produção

As projeções do estudo indicam consequências diretas na região amazônica. Os impactos futuros do clima apontam uma possível diminuição da biodiversidade, em virtude das alterações no ciclo reprodutivo de plantas e animais. Outro efeito seria o processo de savanização da floresta amazônica, devido ao aumento da temperatura. 

As mudanças do clima também podem provocar transformações em fenômenos naturais recorrentes na floresta amazônica, como  cheia e vazante. Por causa das alterações no volume de chuvas e elevação da temperatura, podem ocorrer eventos extremos, como secas e inundações. Estes fenômenos climáticos poderiam impactar a irrigação, a pesca e a produção agrícola, afetando diretamente a segurança alimentar das populações.

Objetivo é a troca de experiências

O seminário visa promover o diálogo e a aprendizagem sobre temáticas socioambientais no Estado e disseminar a metodologia do projeto e a sua importância para a gestão municipal e estadual. O evento foi voltado para órgãos públicos, universidades, Defesa Civil, 
entre outros.

Personagem 

Para a responsável pelo estudo sobre o Amazonas, Júlia Menezes, se há presença da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros, o município vai ter maior capacidade de lidar com os impactos causados pela mudança do clima, como inundação, terras caídas e seca severa. “A presença desses órgãos facilita a esses municípios que a população possa lidar melhor e se recuperar em relação aos desastres naturais. A mudança climática é uma realidade, está acontecendo e as perspectivas são de piora desse quadro. A questão não é reverter à mudança climática, é lidar com seus impactos”, disse.

Blog 

Luís Henrique Piva - secretário-executivo da Sema

“Esse estudo é bastante relevante porque pode nos orientar na criação de novas políticas públicas ambientais de produção rural, combate ao desmatamento e queimadas, entre outros. A Secretaria Estadual de Meio Ambiente faz trabalho em relação à mudança do clima há muito tempo. Nós sabíamos que o aumento de temperatura e a redução de chuva poderiam acontecer e, de certa forma, o planeta como um todo vai viver isso. O que foi importante agora é que o cenário foi regionalizado. A gente sabe exatamente o que ocorrerá nos municípios e podemos tomar nossas decisões e estratégias”.

Menos chuva, mais calor

A pesquisa feita sobre os municípios amazonenses indica que a região Nordeste do Estado poderá ser a mais afetada em relação ao número de dias secos consecutivos no ano, índice chamado de CDD. Na cidade de Nhamundá, por exemplo, o aumento no número de dias seguidos sem chuva poderá chegar a 36%. O Vale do Javari e o Sul do Amazonas, representados respectivamente por Atalaia do Norte e Boca do Acre, poderão apresentar uma elevação acima dos 20% para os períodos de estiagem.

 Em relação à temperatura máxima, Manaus e a Região Metropolitana da capital poderão apresentar uma elevação acima dos 4°C para os próximos 25 anos. A previsão para o Sul do Estado é um aumento de 5°C, com destaque para os municípios de Lábrea e Boca do Acre. 

Aumento de temperatura em todo o AM

Todos os municípios amazonenses poderão ter aumento na temperatura nos próximos 25 anos. É o que aponta a pesquisa realizada no âmbito do projeto Vulnerabilidade à Mudança do Clima. Conforme as projeções, toda a região Nordeste do Estado (incluindo a Região Metropolitana de Manaus) e da calha do rio Purus (Lábrea, Pauini e Boca do Acre) serão as que poderão apresentar as maiores variações na temperatura futura, com incremento de até 5°C. 

A região Sudeste do Amazonas também apresenta uma vulnerabilidade alta com possíveis elevações de até 4,5°C. Já a região Central do Estado e do Alto Rio Negro foram as que apresentaram menores alterações, com aumento de até 3,5°C. 

O regime de chuva na região também deve sofrer alterações. A região Sudeste do Estado poderá ser a mais prejudicada, com redução de até 25,3% na precipitação anual, representada pelo município de Parintins. A porção Sul também poderá apresentar reduções significativas na precipitação, em Apuí (redução de 15,1%) e Canutama (14,3%). 

Já a região Norte é a única que poderá apresentar aumento de chuva nos próximos 25 anos, como é o caso de Santa Isabel do Rio Negro (com aumento de 4,9% no volume de precipitação).
 

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