Domingo, 25 de Outubro de 2020
PLANTAS NATIVAS

Flora nativa ainda não catalogada sofre com desmatamento na Amazônia

Destruição do habitat natural faz com que espécies de plantas nativas da floresta sejam extintas antes mesmo de serem ‘descobertas’ pelos pesquisadores



108832902-file-201a5xm2j_C5124134-C112-49BF-9FCE-CA9C8522D261.jpg Foto: Divulgação
01/10/2020 às 11:30

A cada cinco espécies de plantas no planeta, duas estão ameaçadas de extinção, estima relatório divulgado na última terça-feira (29) pelo Jardim Botânico Real do Reino Unido. O estudo que conta com a participação de pesquisadores de 42 países, incluindo do Brasil, revela um problema silencioso que o país enfrenta: a grande quantidade de espécies de plantas não catalogadas na Amazônia torna impossível determinar a quantidade de extinções que já possam ter acontecido na floresta.

De acordo com a pesquisadora Rafaela Forrza, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, entre as mais de 36 mil espécies de plantas catalogadas no Brasil, 3.934 estão ameaçadas de extinção. Ou seja, o documento afirma que 39,4% das plantas estão sob risco, percentual que é quase o dobro estimado em 2016, quando estava em 21%.



No projeto da pesquisadora, chamado REFLORA, informa ainda que a bacia da Amazônia brasileira possui 13.849 espécies de plantas conhecidas, dentre elas: angiospermas, gimnospermas e samambaias, mas não musgos ou algas.

Entretanto, o curador do herbário do Instituto de Pesquisa da Amazônia (Inpa), Mike Hopkins, ressalta que estas são apenas as espécies conhecidas, a Amazônia possui muito mais espécies do que já foi catalogado.

“Temos que lembrar que estas são as espécies conhecidas, que têm sido coletadas e estudadas por botânicos taxonômicos. Sendo que a densidade de coletas botânicas na Amazônia é muito baixa (aproximadamente 1 a 2 por 10 km quadrados), e que a vasta maioria destas coletas são concentradas num raio de 100 km das cidades de Manaus e Belém, restam muitas partes da Amazônia que continuam desconhecidas botanicamente, que provavelmente abrigam espécies ainda não conhecidas a ciência, e que nunca foram coletadas. Quantas? É muito difícil contar o que é desconhecido, mas pessoalmente acredito que há a possibilidade de ainda ter mais espécies desconhecidas do que conhecidas”, ressaltou Hopkins.


Para Mike Hopkins, quantidade de espécies não catalogadas é maior do que as já conhecidas. Foto: Cimone Barros - INPA/MCTI

Para se ter uma ideia da magnitude de espécies existentes, o pesquisador José Luís Camargo, doutor em Ecologia, informa que a estimativa é que exista mais de 15 mil espécies de árvores na bacia amazônica.

“Só para espécies de árvores a gente estima que exista 15 mil espécies para a Amazônia, quando eu falo é a bacia toda, com os países que fazem parte, não só o Brasil. Aqui na região de Manaus, temos dois grandes levantamentos florestais. Um fica na Reserva Duque e outra fica na Área de Relevante de Interesse (ARIE), localizada entre os municípios de Manaus e Rio Preto da Eva. Na Reserva Duque foram catalogadas mais de 2 mil plantas, já na ARIE, mais de 1.300 espécies de árvores. Isso não está contando as espécies de várzeas. E de lá pra cá esse número de espécies de árvores continua crescendo”, detalhou o pesquisador.

Camargo ainda pontua que por conta dessa amplitude de espécies catalogadas, é quase impossível afirmar quantas espécies foram perdidas. Porém, é notável o crescimento do desmatamento.

“O desmatamento dos anos 70 para cá, está cada vez se intensificando. Em agosto deste ano, o Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] divulgou que nos últimos dois meses o desmatamento subiu 36% em comparação ao ano anterior. Estamos matando nossa galinha de ouro. Quando eu falo a gente, estou falando de nós brasileiros. As grandes causas de perda na Amazônia é o desmatamento e a conversão da terra em uso não florestal, como construção de barragens, de estrada. Se você olha mapas antigos da Amazônia e os mapas atuais, observa-se uma grande redução”, comentou Camargo.

Para Mike Hopkins, além do desmatamento e queimadas em grande, a destruição de habitat pode ser causada também por mudanças sutis causadas por fatores externos, como o clima e atividade humana.

“O fator, basicamente único, é a destruição de habitat.  Qualquer outro fator é insignificante em comparação.  Isso pode ocorrer diretamente por desmatamentos e queimadas em grande escala ou escala local, mas também por mudanças sutis nos ambientes causadas por fatores externos, principalmente mudanças em clima causadas pelo desmatamento histórico e a queima das plantas que cresceram milhões de anos atrás (carvão e petróleo), que pode afetar a ecologia das plantas, assim como seu sucesso reprodutivo, habilidade de germinar, se estabelecer, etc.  As espécies mais afetadas seriam as que tem distribuições pequenas (a maioria) e as que ocorrem em áreas mais perto de atividades humanas”, detalhou Hopkins.


Ação do desmatamento para atividades econômicas de extração afetam o habitat da fauna e flora nativa. Foto: Reprodução/Internet

Plantas medicinais

Dentre as mais de 13 mil espécies existentes na Amazônia, 20% destas plantas tem uso medicinal. Porém, segundo Hopkins, ainda há muito para se descobrir, cujo processo não é imediato.

“Estimam que mais que 20% das plantas tem referência com uso em medicina, principalmente tradicional.  No entanto, na maior parte falta estudos sobre a sua eficácia.  Sempre existe a possibilidade que será encontrada um extrato de uma planta que faria uma grande diferença em medicina tipo ocidental, mas é difícil à impossível estimar a quantia de fitoquímicas relevantes ‘esperando’ a ser encontradas, e o processo de provar a utilidade de um composto é devagar, trabalhoso, caro, e repleto de problemas burocráticos”, contou o pesquisador.

Preservação

Hopkins ainda conta que a melhor medida a ser tomada para que sejam preservadas as espécies existentes e a descoberta futura de novas é a preservação.

“Existe somente uma medida necessária, deixar a floresta em pé. Isso tem um valor inestimável em vários sentidos diferentes. Tirar a floresta para agronegócio numa grande escala para monocultura é um gasto de recursos inacreditável considerando tudo que sabemos hoje em dia sobre seu potencial e importância para Brasil especialmente, e o mundo em geral.  Existe a possibilidade de usar a floresta sustentavelmente em pequena escala, como as pessoas indígenas fizeram por milhares de anos, mas seu uso para criar gado, ou grãos, nunca vai ser sustentável”, detalhou Hopkins.

Já para Camargo, outra medida necessária é o fomento à pesquisa científica. Segundo o professor, quanto mais se investe em recursos científicos, mais conhecimento sobre a Amazônia e quais possíveis usos sustentáveis podemos fazer dela.

“Temos que ampliar os recursos para se fazer pesquisa, recursos para treinar pessoas para fazer pesquisa. As respostas não são fáceis, precisamos conhecer como usar todas as espécies de plantas medicinais e não-medicinais. Não justifica você queimar o que pode te dar recursos de uma maneira mais sustentável. O brasileiro quer lucro imediato. Através de resultados de pesquisa vai trazendo respostas. Falta ainda catalogar essas espécies, precisamos de financiamento de pesquisa pra fazer esse trabalho. É preciso saber como usar essa floresta”, pontuou Camargo.


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