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Frota de mais de 660 mil veículos é a maior ‘vilã’ dos pulmões dos manauenses, aponta Inpa

Infectologista alerta que 30% da população de Manaus é propensa a desenvolver problemas respiratórios em decorrência da poluição atmosférica 05/06/2015 às 12:07
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Frota de mais de 660 mil veículos é a maior ‘vilã’ dos pulmões dos manauenses, aponta Inpa
isabelle valois Manaus (AM)

Há 15 anos o vendedor Raimundo Miguel de Oliveira, 67, respira o ar mais poluído de Manaus. Ele trabalha no terminal de ônibus da avenida Constantino Nery (T1), no Centro, Zona Sul, local de maior emissão de dióxido de nitrogênio na atmosfera da capital, segundo revelou um estudo feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

O dióxido de nitrogênio é o gás poluente mais comum, emitido, na maior parte, por veículos. Em Manaus, a “culpada” por tamanha poluição é uma frota de 668 mil veículos que, a cada mês, recebe 3 mil novos “poluidores em potencial”. Esse “poder” fica ainda maior nos horários de congestionamento, pois o ato de acelerar e parar o veículo repetidamente aumenta os níveis de emissão. Situação que, nos terminais de ônibus, se repete a todo momento.

Talvez por isso as últimas gripes de Raimundo foram as mais severas. Seguidas de crises, um forte desconforto e o diagnóstico inevitável: bronquite asmática. “Nunca tive problemas respiratório, mas o médico disse que isso deve ser sequela por trabalhar diariamente respirando a poluição dos ônibus”.

O infectologista Antônio Magela explicou 30% da população de Manaus é propensa a desenvolver problemas respiratórios em decorrência da poluição atmosférica. “Essas pessoas são sensíveis a desenvolver bronquite crônica, asma, rinite, sinusite e outras doenças respiratória”, alertou.

De acordo com ele, além de doenças respiratórias, o contato diário com o ar poluído pode provocar câncer e até doenças cardiovasculares. “A poluição tem aumentado cada vez que novos veículos são colocados nas ruas. Mas, por causa da falta de planejamento urbano, os congestionamentos se agravaram, o que colabora para a poluição e o aumento nos casos de doenças ligadas a ela. Lembrando que os veículos não liberam só dióxido de nitrogênio, mas outros gases poluentes prejudiciais à saúde e que ainda colaboram com o efeito estufa.

Vilões

A preocupação do vendedor Raimundo e do infectologista Antônio Magela tem fundamento. De acordo com a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), os maiores “vilões” da poluição atmosférica no Estado são os veículos e as queimadas.

Na capital, o problema é a frota, que já alcança 668 mil veículos e não para de crescer: todo mês 3 mil novos veículos são emplacados somente em Manaus, de acordo com dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-AM).

Queimadas

Se na capital o problema é a fumaça gerada pelos veículos, no interior do Amazonas o que preocupa é a fumaça das queimadas, principal fonte de poluição atmosférica, de acordo com a Sema. E é no período de julho a setembro, quando aumentam os números de queimadas, que a poluição fica maior.

Com base em imagens de satélites, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou, em 2013, 5.118 focos de queimada no Amazonas. No ano passado esse número subiu para 9.288, um aumento de 81%. Este ano, entre os meses de janeiro e maio, o Inpe registrou 221 focos de queimada em todo o Amazonas, a maioria nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Manicoré e Santa Izabel do Rio Negro.

Terminal 1 é o mais poluído

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) em 2008 constata que as concentrações de dióxido de nitrogênio são maiores no período menos chuvoso (agosto-setembro) e nos horários de grande fluxo de veículos (das 7h às 9h e das 17h às 20h).

A liberação do dióxido de nitrogênio ocorre em uma escala mais elevada no período de congestionamento, principalmente no ato de acelerar e frear qualquer veículo automotivo.

Foto: Lucas Silva

O dióxido de nitrogênio, por meio de uma reação química dentro do aparelho respiratório, pode-se transformar em uma substância chamada nitrozamina. Essa substância é altamente nociva à saúde, sendo cancerígena em altas concentrações. “Quando as pessoas são expostas diariamente a essa substância, a tendência é desenvolver algum tipo de doença respiratória, principalmente, asma e bronquite, podendo ter o quadro agravado. As crianças e os idosos são mais susceptíveis”, reforçou.

Na pesquisa, confirmaram que a área do terminal de integração da Constantino Nery (T1) é uma área que mais apresenta o dióxido de nitrogênio. “Os dados demonstram a influência dos terminais de integração na emissão do dióxido de nitrogênio, pois são locais com grande fluxo de veículos, com semáforos e veículos pesados em aceleração e desaceleração. Em relação à questão ambiental e a saúde da população, o fim dos terminais de integração seria uma boa ideia”, alertou na pesquisa.

Doenças adquiridas

Há cinco anos trabalhando como vendedor ambulante no terminal 1, na Constantino Nery, Antônio dos Santos Silva, 45, contou que desde que iniciou as atividades no local ficou mais fragilizado para a gripe e, sempre que pega um resfriado, precisa procurar um posto de saúde para fazer inalação. “Os médicos afirmam que é bronquite, mas nunca tive esses problemas respiratórios”, reforçou.

Antônio chegou a reclamar da falta de manutenção dos coletivos. “São os principais poluentes do nosso ar, é notável que esses veículos não passam por manutenção, e acabam colaborando ainda mais com a poluição”, disse.

O vendedor possui uma motocicleta, mas garantiu que para evitar a poluição ele sempre a mantém revisada. “Se tivéssemos outros meios mais saudáveis que evitassem a poluição e fossem mais seguras, creio que nossa realidade seria diferente, mas por enquanto não há solução. Reclamamos, mas precisamos conviver com a poluição, pois é dessa forma que conseguimos nos locomover”, explicou.

A autônoma Aglenildes Silva de Souza, 49, que mora nas proximidades do terminal, nunca teve problema respiratórios, mas acredita que as inflamações frequentes na garganta são ocasionadas pela poluição, que também compromete a saúde de uma vendedora, amiga dela, que trabalha no terminal. “Ela tem asma desde criança, mas depois que começou a trabalhar no terminal as crises aumentaram. Boa parte do dinheiro que ela arrecada com o trabalho é destinado para os remédios”, relatou.

Pontos

#Até o início deste mês, as secretarias de Meio Ambiente do Estado (Sema) e do Município (Semmas) não haviam iniciado o monitoramento da poluição do ar;

#Na abertura da Semana do Meio Ambiente, a Sema assinou um acordo interinstitucional com o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), a Delegacia Especializada em Meio Ambiente (Dema), Polícia Militar do Amazonas e o Batalhão de Policiamento Ambiental, para instalação de um comitê de combate e controle ambiental;

#A Semmas informou que para contribuir no controle da poluição atmosférica veicular licenciou um total de 6.378 veículos movidos a diesel, de janeiro a dezembro de 2014, com a emissão de Certificados de Registro Cadastral (CRC) para empresas que mantêm frotas na cidade.

Saiba mais: Laboratório natural

Pesquisadores do Brasil e do Estados Unidos criaram o projeto de Green Ocean Amazon (GOAmazon) e transformaram a região de Manaus em um laboratório modelo. Diversas pesquisas são realizadas desde o ano passado e devem continuar até o final deste ano, em quatro diferentes locais, em um raio de 150 quilômetros da capital amazonense, com o objetivo de compreender como se dá a interação entre as partículas de poluição e os compostos naturalmente emitidos pela floresta tropical e as nuvens.

Em números: 2,4milhões

É o número de pessoas morrem anualmente por doenças associadas à poluição do ar. Os dados foram repassados pelo Organização Mundial de Saúde (OMS). Além das doenças respiratórias, a poluição do ar contribui para o aumento de doenças cancerígenas e cardiovasculares, o mais comum é o câncer no pulmão até de pessoas que nunca fumaram.

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