Terça-feira, 25 de Junho de 2019
PESQUISA E INOVAÇÃO

Gel de gengibre contra o 'pé diabético' chega às farmácias do AM ainda em 2019

Hidrogel à base da planta foi desenvolvido no Inpa e, nos testes, curou pelo menos 95% das úlceras; pesquisadores aguardam apenas o aval da Anvisa para o produto começar a ser comercializado



geng1_1451D340-86F7-4DDF-A162-6A2ECE3635B2.JPG Foto: Antonio Lima
10/06/2019 às 18:21

O “pé diabético” é um risco iminente para quem convive com o diabetes. Uma ferida simples pode ser o ponto de partida para o surgimento de uma úlcera capaz de provocar a mutilação de parte do membro inferior - às vezes dele todo. A fim de auxiliar na cicatrização dessas úlceras, até o final deste ano estará disponível no mercado um gel preparado com o óleo essencial da planta gengibre amargo (cujo nome científico é Zingiber zerumbet). O medicamento é fruto de uma pesquisa coordenada pelo farmacêutico e bioquímico amazonense Carlos Cleomir, 64, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

O “pé diabético” é uma complicação ainda comum no Brasil. Segundo levantamento do Ministério da Saúde (MS), cerca de 70% das cirurgias de mutilação ou amputação realizadas no País são provocadas pelo diabetes. De acordo com dados divulgados pela Pesquisa Nacional de Saúde, do MS, há aproximadamente 16 milhões de usuários do Sistema Único de Saúde (Sus) com diagnóstico de diabetes. Em torno de 97 mil destes pacientes estão em Manaus, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde. Desse grupo, pelo menos 5% apresentam feridas nos membros inferiores. Homens fumantes e portadores de insuficiência renal e cardíaca são os mais vulneráveis.

O problema acontece por conta do diabetes descontrolado: a sobrecarga de açúcar no sangue impede uma boa circulação e mata um monte de células, deixando, assim, o sistema imune deficiente - o que dificulta a regeneração de áreas lesadas e deixa, consequentemente, a porta aberta para os micróbios atacarem.

Potencial cicatrizante

O pesquisador Carlos Cleomir, que tem doutorado em biotecnologia e recursos naturais, relatou que o êxito do hidrogel nesses casos está no fato de que o extrato do gengibre amargo tem um potencial cicatrizante, anti-inflamatório, citotóxico para células necrosas, antimicrobiano, analgésico e vasodilatador. Ou seja, contém substâncias que dilatam os vasos sanguíneos, facilitando a passagem de sangue, que possibilitam o aceleramento da cura de ferimentos desse tipo.

“Esse trabalho é uma nova alternativa no tratamento de doenças crônicas, especificamente úlceras causadas pelo diabetes, que são difíceis de cicatrizar e que podem levar à amputação”, explicou ele.

Os primeiros testes do hidrogel de gengibre amargo com humanos foram feitos em 2015, durante 90 dias, em pacientes diabéticos com indicação de amputação da Unidade Básica de Saúde José Amazonas Palhano, no bairro São José 2, Zona Leste de Manaus. “Inicialmente, começamos o estudo clínico com 45 pacientes e finalizamos com 27 [os que saíram não se encaixaram no caso clínico].

O gel curou pelo menos 95% das úlceras nos pés em um tratamento terapêutico que durou 53 dias”, contou, destacando que esse teste fez parte da dissertação de mestrado em biologia urbana do enfermeiro Maurício Ladeia, orientado por ele.

Outra boa notícia é que o hidrogel pode ajudar, também, na cicatrização de úlceras causadas por outras doenças, como o câncer. Porém, o produto ainda não está disponível no mercado. Por enquanto. A expectativa é que, até o fim desse ano, o hidrogel já esteja presente na prateleira das farmácias como uma alternativa a mais para o tratamento do “pé diabético”.

Produção em larga escala ao mercado

A introdução do gel à base de gengibre amargo no mercado, bem como a sua produção em larga escala, será feito por uma empresa parceira do Inpa. O produto também já teve patente requerida e só aguarda a liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para começar a ser comercializado.

“A ideia é que até o fim desse ano estaremos regularizados”, disse o pesquisador Carlos Cleomir, que há pelo menos 20 anos coordena um grupo de pesquisa chamado “Unidade demonstrativa do cultivo e biospropecção de espécie amazônica para a cadeia produtiva de biofármacos, biocosméticos e alimentos”, que estuda as propriedades de plantas como o gengibre amargo e o açafrão.

Parcerias

O gel à base de gengibre amargo utilizado na cicatrização das úlceras foi fruto de um trabalho interdisciplinar desenvolvido pelo Inpa em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

‘Depósito’ conta com 73 patentes

Hoje vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTI), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) foi fundado em 1952 e implantado de fato em 1954. Foi criado com o objetivo de realizar estudos científicos do meio físico e das condições de vida da região amazônica para promover o bem estar humano e o desenvolvimento socioeconômico regional.

O instituto conta com 73 depósitos de patentes, dos quais 17 são patentes concedidas por direito de propriedade industrial (patentes). O maior número de tecnologias protegidas são as que se encontram dentro das categorias “alimentos, bebidas e saúde”.

Entre os produtos que foram gerados por pesquisas desenvolvidas dentro do referido instituto está o purificador de água (“Água Box”), do pesquisador Roland Vetter. Ele é comercializado com a marca “Ecolágua”, um equipamento de desinfecção solar de água.

Além disso, há biotecnologias desenvolidas no instituto como sabonetes e creme antioxidante à base de óleos de dois frutos regionais bastante populares: a pupunha e o buriti. Há também produtos de uso profissional na área de odontologia, entre outras inovações.

Mais de 100 pesquisas em andamento

Atualmente há 109 projetos de pesquisas em andamento no instituto. De acordo com a diretora do Inpa, a bióloga Antonia Franco, o instituto representa o que se tem para descobrir e conhecer na Amazônia. “A Amazônia representa uma das maiores reservas florestais de um mundo em grandes transformações, e tem uma cultura com características próprias que precisam ser melhor conhecidas e preservadas”, disse a diretora.

Segundo ela, a grande missão do Inpa é que esse conhecimento acumulado ao longo dos anos seja transferido não só para as instâncias científicas, mas, principalmente, “para uma sociedade ávida por cidadania, prosperidade e qualidade de vida, em harmonia com o ambiente, consequentemente levando ao desenvolvimento da região”.

Questionada sobre o bloqueio de verbas (que o Governo Federal chama de “contingenciamento”) de institutos de pesquisa, a direção do Inpa informou, em nota, que o contingenciamento de 25% da Lei Orçamentária Anual (LOA) programado para todas as Unidades de Pesquisa (UPs) do Ministério da Ciência foi “descontingenciado” em 8 de maio e que, “devido à realidade orçamentária atual, o Inpa está revisando contratos visando cumprir metas previstas no TCG [Termos de Compromisso de Gestão]”.

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Repórter do caderno de Cidades - Jornal A Crítica

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