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Grupos pequenos de sauins-de-coleira sobrevivem em quintais

Apesar de ser alvo da crueldade humana, macaquinho também conta com a solidariedade de alguns moradores 31/03/2013 às 13:38
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Por estarem em situação vulnerável, em locais onde geralmente há escassez de alimento,sauins aceitam ajuda de humanos
Elaíze Farias Manaus

Pequenos fragmentos florestais localizados em quintais e terrenos baldios nos bairros de Manaus também acolhem sauins-de-coleira. Basta ter comida e abrigo. Alguns sauins têm sorte caso encontrem vizinhos humanos que lhes defendem e dão comida extra.

O quintal do funcionário público Francisco Carlos de Souza é casa de dois sauins-de-coleira (não se sabe se é um casal). O terreno da família de Souza emenda para uma área com uma pequena mata cujos fundos estão à margem da Avenida das Torres, no trecho do bairro Cidade Nova, Zona Norte. Acredita-se que os dois sauins-de-sauins sejam os últimos de um grupo maior que viveu na área e que deve ter morrido ou procurado outro território.

Embora silvestres, os bichos se acostumaram com a presença de Souza. Se a fome aperta, eles se aproximam e comem banana ou outra fruta oferecida pelo funcionário público. “Eles estão aqui há vários anos. Mas há um ano comecei a ficar mais próximo, a chamá-los e dar comida. Eles pegam da minha mão”, diz Souza.

A reportagem testemunhou um destes momentos. Os bichos realmente se aproximam de Souza. Provavelmente pela presença de gente estranha, eles demoraram muito tempo para pegar a banana oferecida durante uma das idas da reportagem à casa de Souza. “Quando eles mostram a língua é porque estão reclamando de alguma coisa”, relatou o funcionário público.

Redução da mata

Apesar de protegidos pela família de Souza, os dois sauins-de-coleira são ameaçados por outros moradores, que já tentaram matá-los. Outro receio é que o fragmento florestal seja reduzido. Ano passado, a visita de funcionários do Corpo de Bombeiros na área ao lado da casa dele deu o sinal de alerta. “Os bichos circulam por lá porque tem muito mato e fruta. Se desmatarem, a comida e a casa deles vão diminuir”, diz Souza.

Ao ser procurada para falar sobre a ida do Corpo de Bombeiros ao local, a assessoria de imprensa da corporação disse que se tratou de uma visita para a limpeza do terreno para futura topografia. O local será um posto do Corpo de Bombeiros, como parte de um planejamento para toda a cidade. A execução da obra, contudo, ainda depende de decisão do governo do Amazonas.

“Assim que tudo for definido e as metas traçadas para o início das obras, o CBMAM ingressará em todos os procedimentos legais junto aos órgãos de proteção ambiental, com o intuito de não prejudicar a continuidade da fauna e flora nestes logradouros”, disse a nota enviada pela assessoria.

Visitas diárias

Nos fundos de seu quintal no bairro Francisca Mendes, na Zona Norte, o operador de máquinas Jorge Pessoa instalou um jirauzinho para receber o grupo de sauins-de-coleira (sete ou oito) que aparece por lá quase todos os dias. O fragmento aparenta ser bem diversificado de fruta, mas os animais gostam de pegar as bananas que Pessoa coloca no local. “Todos os dias eles aparecem. Mas não tem hora certa. Aparece até final da tarde e depois eles vão dormir”, conta.

Vizinho de Jorge Pessoa, o segurança Haroldo Marinho também tem o privilégio de acompanhar a rotina do grupo dos sauins diariamente e lamenta que nos últimos anos a população do bicho tenha reduzido.

“Apareceram uns invasores aqui perto que derrubaram várias árvores. Umas crianças ficaram jogando pedra, queriam pegar o bicho na marra. Uma época eu também pendurei umas cordas para eles atravessarem a rua, mas as pessoas tiram, cortam”, afirma Marinho, que gosta de tirar fotos dos bichos.

Frutos cultivados

Ingá, bacaba, maracujá-do-mato, açaí e buriti são alguns frutos do terreno de 100x100 metros quadrados do jornalista Jó Farah, cultivados só para os grupos de sauins-de-coleira que residem na área, localizada a um quilômetro da Cachoeira do Tarumã, bairro Tarumã, Zona Oeste de Manaus. A região tem floresta de várzea, alagados e igarapés. Uma cacimbinha foi construída para servir de fonte para os sauins na época do “verão”.

O bairro Tarumã, que desde 2010 foi dividido (a outra área se chama Tarumã-Açu), é apontado por especialistas como o habitat do sauim-de-coleira mais ameaçado de desmatamento devido ao boom imobiliário, especialmente o entorno da Avenida do Turismo.

“Aqui só tem projetos de condomínios, virou área de expansão da cidade. As autoridades dão licença ambiental sem avaliar, sem prever algum tipo de proteção para estas áreas verdes e para os animais”, comenta.

Grupos menores

Em 1997, quando foi morar no local, Farah contava em cada bando mais de 30 sauins. Hoje, ele vê no máximo 12 indivíduos por grupo. O terreno continua intacto, mas ilhado em uma área cujo avanço dos tratores para derrubar árvores é acelerado.

“Está reduzindo porque não tem mais tanta floresta. Desde que vim para cá, essa área perdeu 50% de mata. Como o sauim é muito frágil, não consegue sobreviver. Manaus tem oportunidade de mostrar ao turista um símbolo da cidade aqui, bem pertinho, e não aproveita”, comenta Jó Farah que, apesar das iniciativas para proteger e conservar o bicho, demonstra ser pessimista quanto ao futuro do animal. “Acho que ele pode ser extinto. Eu conto vários grupos, mas não significa que ele vá sobreviver. Eu faço a minha parte, que é oferecer comida e água”, diz.

Um perigo recente identificado na área, segundo Jó Farah, é a presença de um rival do sauim-de-coleira e que não se trata do sauim-de-mãos-douradas, mas sim outro primata: o parauacu, de tamanho superior ao sauim. “Têm surgido muitos parauacus. Eles estão disputando área e comida e expulsando os sauins. Tanta desgraça, tanta mata sendo derrubada e agora essa competição entre eles”, alerta.

Marcelo Gordo, professor da Ufam e pesquisador do Projeto Sauim-de-Coleira, defende a interação entre a população e o primatinha, desde que o animal continue na vida livre. Para ele, uma “parte importante” da proteção do sauim é a mudança de comportamento da população como uma forma de pressionar a administração pública.

 “Não tem  nenhuma fragmento na cidade, mesmo na Ufam, que tenha a possibilidade de, por si só, sustentar as populações de sauim-de-coleira. A previsão é que esses bichos sejam extintos em menos de 100 anos, ou 50 anos, se nada for feito para impedir. Posso estar errado, lógico. Eu diria que para a conservação da espécie, os fragmentos de Manaus não são suficientes”, comentou.

Cinco Perguntas para Rosana Subirá, pesquisadora e servidora do ICMBio

1. Desde quando existem estudos sobre o sauim-de-coleira?

Quando fiz meu mestrado, em 1997, a professora Silvia Egler, da Ufam, já trabalhava sobre o tema. Havia um trabalho antigo, do professor Márcio Ayres. Antes dele, ninguém tinha feito nada sobre o sauim-de-coleira. A gente sabia pouco sobre a ecologia e o comportamento dele. Foi o Márcio que identificou que o sauim ia até o rio Urubu.

2. Naquela época já se falava do risco de extinção?

Sim, mas não era muito claro sobre as causas. Então,  começamos a investigar e descobrimos que a distribuição era muito restrita para um primata amazônico. A gente foi confirmando o que o Márcio Ayres falava como hipótese.

3. Por que ele ficou restrito a Manaus?

Normalmente as espécies vão delimitando território e vai ficando assim estável durante milhares de anos. Gradativamente pode se deslocar para outro lugar. O sauim-de-coleira escolheu viver aqui e ficou preso entre o rio Amazonas e o Negro. A situação dele é muito delicada, pois tem dois problemas: Manaus sendo desmatada e um concorrente apertando cada vez mais, o sauim-de-mãos-douradas.

4. Manaus continua crescendo. Como é possível salvar os animais?

A gente pode diminuir os impactos. É preciso conciliar e mostrar para o morador que dá para conviver e para o empreendedor que mantiver uma espécie em pequenas áreas de mata não vai acarretar prejuízo a ele. A legislação ambiental é boa. Tem que fazer inventário de fauna, tem que deixar 5% (percentual) de área.

5. As exigências legais são cumpridas?

Nos últimos tempos deixaram de ser cumpridas. Cada dia um empreendimento novo, um desmate a mais, perdemos mais uma área aqui e ali. Está liberando tudo. A licença está saindo sem as exigências.


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