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Amazônia
DISCUSSÃO

IGHA organiza mesa-redonda sobre experiências da temática indígena

O evento foi alusivo às comemorações do Dia Nacional do Índio, celebrado no último dia 19, e contou com participação de estudiosos do assunto 29/04/2017 às 13:30
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Evento foi realizado na manhã deste sábado (Foto: Paulo André Nunes)
Paulo André Nunes Manaus (AM)

O tradicional Instituto geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) realizou nesta manhã a mesa-redonda "Trajetória de Pesquisas, Relatos de Experiências e Movimentos Indígenas" em sua sede localizada  na rua Bernardo Ramos, 117, Centro Antigo da capital amazonense. O evento é alusivo às comemorações do Dia Nacional do Índio que foi celebrado no último dia 19.

"O IGHA é o guardião da história do nosso Estado, e essa sessão especial é uma atividade aberta à pesquisa e para doutorados e associados. A problemática indígena atinge o mundo inteiro", disse a presidente do Instituto, Marilene Corrêa.

CURIOSIDADE

Primeiro dos participantes da mesa-redonda a explanar, o antropólogo Sully de Souza Sampaio, da Fundação Oswaldo Cruz relembrou um experiência curiosa ocorrida com ele em suas pesquisas.

"Uma das coisas mais curiosas que ja me aconteceu, entre outras, foi observar, por exemplo, que a inserção de equipamentos como aparelhos de TV acabou prejudicando, em parte, as pesquisas que realizávamos à noite pois os indígenas só queriam saber se ver  novelas e 'Big Brother'", citou o antropólogo.

CONFLITOS

A mestre em Sociologia Carla Denise Moura Fernandes explanou o tema "Relatos de experiências com alunos indígenas em São Paulo de Olivença, Humaitá, Ipixuna e Japurá" como professora do Programa de Formação de Professores e de cursos de Interiorização vinculados à Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Em São Paulo de Olivença, no Alto Solimões, ministrando a disciplina de Introdução à Sociologia, ela se deparou, em sala de aula, com dois alunos kokamas que não sabiam falar a Língua Portuguesa. "Pedi que os próprios indígenas trouxeseem se alguém  que  falasse português e conseguimos chegar a uma comunicação.

A socióloga alertou para os conflitos ocorridos entre a população indígena Tenharim e não-indígenas em Humaitá (a 675 quilômetros de Manaus). Em 2015, ela percebeu esse clima ao ministrar a disciplina "Sociedade e Indígenas em Educação" e verificar o isolamento de uma indígena que era hostilizada em sala de aula. "Humaitá está prestes a 'explodir' com essa situação entre índios e não índios", alerta ela.

"As políticas indigenistas estão incitando o ódio na população", analisa ela, sobre um contexto geral.

CRÍTICAS

No momento mais contundente da mesa-redonda, o líder indígena e representante da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Amarildo Machado Tukano falou sobre o Movimento Social Indígena e criticou a omissão dos poderes para com os índios.

 

"Temos avançado bastante, mas os índios não têm espaço para ter poder de decisão política. Os governos não nos dão esse poder. Além disso há um abismo entre o que determina a lei e as realidades indígenas. Há fragmentação, descoordenação e enfraquecimento das instituições. Há R$ 100 milhões destinados para a saúde indígena no Amazonas mas os nossos indíos continuam morrendo. O Governo Federal está cada vez mais omisso no seu papel de garantia dos direitos indígenas", afirmou ele.

"Temos maior protagonismo indígena, participação e ocupação de espaços, maior cidadania, ampliação no acesso às políticas do Estado, mas ainda é pouco", ressaltou ele, quefez parte das lideranças indígenas quando jovem, sobre os avanços indígenas.

Segundo ele os desafios na conjuntura atual da política indigenista são: regularizar muitas terras indígenas; conflitos territoriais; problemas de segurança territorial (fiscalização, monitoramento, controle), manejo e sustentabilidade de recursos naturais e; desconhecimento e desrespeitoso do sentido tradicional do território (cosmo, orgânico, holístico, sagrado e agencialidade).

RITUAL

Joelma Monteiro de Carvalho professora e especialista em Linguística da UEA e da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), apresentou o trabalho de estudo, que foi mostrado inclusive em Roma, na Itália, sobre o famoso "Ritual da Tucandeira", cerimônia que é feito pela etnia Sateré Mawé e que representa a transição da vida infantil para a adulta. Nele, o jovem indígena coloca a mão por 20 vezes em uma luva feita de trançado de arumã e que traz, em seu interior, várias formigas tucandeiras. A dor e imensa, e suportá-la é exemplo que o índio está preparado para enfrentar os desafios da vida adulta.

O QUE É O IGHA?

Fundado em 25 de março de 1917, o Instituto Histórico e Geográfico do Amazonas (IGHA) é conhecido como “A Casa de Bernardo Ramos”, seu fundador e primeiro presidente. Além de promover seminários e palestras, o IGHA possui um museu próprio, com valiosas peças históricas e também uma coleção única de peças indígenas. Sua biblioteca e, principalmente, sua hemeroteca são pontos obrigatórios para estudantes e pesquisadores que desenvolvem trabalhos acadêmicos sobre a Amazônia.

O IGHA está aberto para visitação de segunda a sexta, das 8h às 12h. O visitante tem acesso às poltronas originais do Teatro Amazonas, confeccionadas em madeira e palinha-da-Índia,  levadas para exposição ainda durante os anos 70.                       

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