Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2019
RETRATO

Impunidade alimenta devastação de floresta na Amazônia, alerta cientista

A grilagem foi responsável por 35% das áreas desmatadas na floresta amazônica entre agosto de 2018 e julho deste ano, segundo o Instituto de Pesquisas da Amazônia (Ipam)



carl_souza_0735FEE8-D152-45F5-A09B-F9E748F0EFEA.jpg Foto: Carl Souza / AFP
23/11/2019 às 20:56

A grilagem foi responsável por 35% das áreas desmatadas na floresta amazônica entre agosto de 2018 e julho deste ano, segundo o Instituto de Pesquisas da Amazônia (Ipam), que analisou os dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes),divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe) na semana passada.

Para o geógrafo e ambientalista, Carlos Durigan, o estudo do Ipam reafirma a ilegalidade por trás das ações de desmatamento e queimadas na Amazônia, com destaque a prática conhecida na região com a apropriação indevida de terras. 



“Há um aumento expressivo nos últimos anos e muitas destas ocupações irregulares se dão em terras públicas já destinadas, caso das Unidades de Conservação e Terras Indígenas e mesmo sobre áreas ainda não destinadas, mas que em muitos casos já é utilizada por populações amazônidas indígenas e não-indígenas, acirrando conflitos e promovendo violência contra estes grupos sociais. Então além da questão preocupante do aumento do desmatamento e perda de biodiversidade nas áreas ocupadas, há ainda a séria questão dos conflitos sociais que tem culminado em perseguições, expulsões e até mortes em toda a região”, disse o ambientalista.

Para chegar a esse número, o Ipam dividiu os resultados do Prodes por categoria fundiária, descobrindo que 35% do valor total de desmatamento aconteceu em áreas não-designadas e sem informação, o que indicaria grilagem. O número, no entanto, pode ser ainda pior, caso seja acrescentado o desmatamento em áreas protegidas, chegando a 44% do total, segundo a instituição.

Incentivo

Na avaliação do pesquisador e doutorando do programa de Ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Lucas Ferrante, a análise do Ipam demonstra a política de desmatamento do governo federal que incentiva à ocupação das florestas, derrubada da vegetal e o favorecimento ao agronegócio.

“O desmatamento no Brasil aumentou e é real. É resultado do desmantelamento das políticas ambientais como o Ibama e ICMBio que vem aumentando esses níveis desenfreados de desmatamento. O próprio incentivo dado pelo presidente da República com um sinal positivo para os desmatadores e respaldo a esses criminosos. Isso gera um clima de impunidade para que se cometa crimes ambientais”, declarou.

Ferrante avalia que as taxas de desmatamento no país vão aumentar e atribui como reflexo da flexibilização da legislação ambiental.

Outra categoria fundiária que se destacou no processo de desmatamento são os assentamentos, que correspondem a 27% do total. Em seguida, vêm as propriedades privadas, que responsáveis por 23%. Entre as categorias que menos desmataram estão as Área de Proteção Ambiental (APA) e as Unidades de Conservação, ambas com 5%, e as terras indígenas, com apenas 4%.

Marca histórica

Os dados divulgados pelo Inpe mostraram que o desmatamento na Amazônia cresceu 29,5% no período de 1º de agosto de 2018 a 31 de julho deste ano, passando de 7.536 quilômetros quadrados (km²) para 9.762 km² de floresta derrubada. Esse é o terceiro maior crescimento da história, perdendo apenas para 1995 (95%) e 1998 (31%).

O Amazonas registrou 1.421 km² de floresta derrubada entre agosto de 2018 e julho deste ano. O aumento foi de 36% em relação ao período anterior, agosto de 2017 a julho de 2018, quando atingiu 1.045 km² de desmatamento. Segundo o Inpe, quatro estados da Amazônia Legal foram responsáveis por 84,13% do desmatamento na região.
 
 

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