Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019
Amazônia

Índio da etnia kokama viaja três horas e meia em uma canoa para tirar o Registro Civil

Aos 68 anos, o índio kokama Alberto Moçambite realizou o sonho de uma vida inteira durante a Operação Ágata 7: ser reconhecido como cidadão brasileiro de “papel passado”



1.gif Antes de receber o Registro Civil, Alberto Coelho Moçambite, da etnia kokama, andava com um pedaço de papel que continha todos os dados pessoais dele
04/06/2013 às 10:40

Aos 68 anos de idade, o índio da etnia kokama Alberto Coelho Moçambite travou uma luta pessoal em busca de um sonho: ser reconhecido como cidadão brasileiro de “papel passado”. Ele está entre os 5% de brasileiros que, apesar de terem o direito ao registro civil, nunca tiveram acesso ao documento e continuam anônimos aos olhos do País. O porcentual é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que, em 2010, evidenciou que a certidão de nascimento continua inacessível para muitas pessoas no Brasil.

Alberto anda com uma folha de papel amarelado, envelhecido pelo tempo, no bolso. Guarda a folha com cuidado porque nela estão seus dados pessoais. Ele apresenta o papel com orgulho para quem queira ver. Mostra o nome dos pais, dia, hora e local de nascimento. Apesar do zelo para guardar as informações, sabe que aquela folha de papel não tem validade como documento oficial. Quando soube que o Exército e a Aeronáutica, durante a operação Ágata 7, levariam serviços médicos, odontológicos e a sonhada emissão de documentos, na Ação Cívico Social (Aciso), viu que aquela era a chance que esperava há quase 70 anos.



Ele enfrentou três horas e meia de viagem, em uma canoa, com motor rabeta, para chegar a Tabatinga. A viagem pelo Solimões foi difícil, repleta de dificuldades pelos banzeiros, que se mostravam mais fortes que a pequena embarcação. A exemplo do que eternizou Carlos Drummond de Andrade, antes de Moçambite conseguir o registro de nascimento, ele ainda tinha uma pedra no meio do caminho. A “pedra”, como ele mesmo chamou, foi a chuva que, em vários momentos, por pouco não virou a pequena canoa em que ele estava.

Alberto chegou à cidade por volta 7h, mas para a surpresa dele, todas as fichas para o serviço de documentação civil, no Aciso, realizado no Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam), estavam esgotadas. Ele tinha combustível apenas para mais uma viagem, que seria o retorno para a aldeia, o que foi mais um incentivo a ficar na cidade, determinado a não desistir. Parte das pessoas que estavam com ele, índios das etnias ticuna e kokama, ficaram abrigados em uma igreja, em Tabatinga. Alberto ficou na casa de um amigo. Decidido, retornou ao Cetam por volta das 3h, da madrugada seguinte. Conseguiu uma ficha e o sonho ficou mais perto da realização.

Inacessível

Alberto Moçambite nasceu em Urumutum Takana, às 8h do dia 3 de outubro de 1944. Ele perdeu os pais aos dez anos de idade. Como vivia em uma comunidade isolada, acessível somente por via fluvial, o registro civil se tornava inacessível para ele. Depois de 68 anos, no dia 29 de maio de 2013, o índio kokana Alberto Coelho Moçambite, filho de Ricardo Kasques Moçambite e Lorença Coelho Ahué, recebeu em mãos o documento que o reconhece como cidadão do Brasil. “Eu sonhava muito com isso. Não queria mais nada, só que meu nome fosse lembrado, que soubessem que eu nasci no Brasil, que sou filho do Brasil. Minha certidão não vai mudar a vida das pessoas, vai mudar meu coração. É minha realização antes de morrer. Todo mundo tem sonhos, e este é o meu”, disse Moçambite emocionado.

Persistência contra as adversidades

Moçambite perdeu os pais quando tinha 10 anos mas, a exemplo de seus genitores, seguiu o trabalho na agricultura. Trabalhou em roças na produção de alimentos no Peru, Colômbia e Brasil. Ele perdeu todos os dedos da mão direita num acidente de trabalho. Mesmo sem cuidados médicos adequados, superou a perda dos dedos e continuou a plantar, mas agora apenas para consumo próprio na aldeia que morava.

Ele é um daqueles personagens humildes e simpáticos que contam histórias cheias de risos e emoção. Apesar de um anônimo para o mundo, é reconhecido como autêntico cidadão pela comunidade indígena do extremo Norte do País e bem quisto por todos que têm a oportunidade de conhecê-lo.

Questionado se o exemplo de perseverança para tirar o registro de nascimento servirá para inspirar outras pessoas a não desistirem, Moçambite, munido da sabedoria de vida, disse que “sonho não é só para sonhar, mas para ser realizado”.

Ele é a comprovação que, em grande parte dos casos, o isolamento e a geografia difícil de algumas regiões fazem com que ainda existam brasileiros que sequer são reconhecidos como cidadãos.

Dificuldades são maiores nas aldeias

A adolescente da etnia ticuna Daniela Lourenço Almeida, 13, também tirou pela primeira vez a certidão de nascimento. Ela foi levada pelos avós e pelo agente de saúde Marcos Bitencourt para o Aciso do Exército e Aeronáutica, em Tabatinga.

Marcos também é da etnia ticuna. Segundo ele, a adolescente nunca teve como tirar o documento pelas mesmas dificuldades de acesso e geografia enfrentados por Alberto Moçambite. O grupo também enfrentou mais de três horas de viagem para chegar a Tabatinga pelo rio Solimões e só foi atendido no dia seguinte, pela grande demanda no Aciso.

Para Marcos, o esforço é válido e eles não tinham como desistir porque já estavam na cidade e seria mais fácil esperar até o dia seguinte do que retornar para a aldeia. Ele contou que existem outras pessoas em várias faixas etárias que também não possuem registro de nascimento.

Na aldeia, também há outras dificuldades. Marcos, por exemplo, é o único agente de saúde num universo de 120 índios. Ele foi capacitado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) para exercer a atividade na aldeia. Contudo, ele conta que o número é aceitável, uma vez que os serviços da medicina científica que tenta disponibilizar têm um suporte maior no conhecimento tradicional dos líderes da aldeia.


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