Segunda-feira, 27 de Janeiro de 2020
AMAZÔNIA EM FOTOS

Instituto adquire obras fotográficas feitas na Amazônia datadas do século 19

Obra fruto de expedição realizada pelo alemão Albert Frisch na Amazônia em 1867 é uma das pioneiras da fauna, flora e indígenas locais. Valor pago em leilão pelo Instituto Moreira Salles foi de U$ 81,2 mil



CAPA_3E022EDD-E5A0-4810-96D5-A36849EBE643.jpg Foto: Albert Frisch
06/01/2020 às 15:28

Recentemente o Instituto Moreira Salles (IMS) adquiriu um conjunto de obras do fotógrafo alemão Albert Frisch (1840-1918), realizadas durante o século XIX, na Amazônia. A série é considerada um dos primeiros registros fotográficos da fauna, flora e dos índios locais, durante expedição realizada por Frisch em 1867.

A série foi comprada durante leilão realizado em Nova York, o qual o Instituto pagou o valor de US$ 81.250,00 pelas imagens. Segundo a casa de leilão, esse foi o maior valor alcançado pelas obras de Frisch, um novo recorde mundial de preço.



“O Instituto tem na fotografia sua área de principal atuação, e hoje também tem um acervo sobre a cultura brasileira muito relevante. Esse conjunto de imagens é de extrema importância para nós, pois é a primeira documentação fotográfica feita na Amazônia, editada e distribuída internacionalmente”, comentou o coordenador de fotografia do IMS, Sérgio Burgi.

Ainda sem previsão de exposição, Sérgio otimiza já mostrar ao público por meios digitais as obras de Frisch a partir dos primeiros meses entre janeiro e fevereiro deste ano. “Queremos fazer uma difusão eletrônica desse material, para que as pessoas possam acessar pela internet”, contou.

Quando questionado se a exposição poderia passar por Manaus, ele diz acreditar que seja possível. “Demandaria uma parceria com um museu que tivesse as condições necessárias de preservação das obras, mas existe a possibilidade de pensarmos em outros projetos também eletrônicos para fazer a circulação mais intensa das obras no Amazonas”, comentou.

Expedição

Segundo informações de um catálogo publicado pela Casa Leuzinger, em 1869, “Resultat d’une expédition phographique sur le Solimões ou Alto Amazonas et Rio Negro”, descoberto recentemente nos arquivos da Biblioteca Nacional, Frisch percorreu, durante cinco meses, 400 léguas pelo rio Amazonas e seus afluentes de barco, acompanhado por dois remadores, de Tabatinga a Manaus

“Ele seguiu para o Amazonas com dois engenheiros alemães, que estavam realizando estudos ligados a construção de estradas de ferro. Então, descolou do grupo e foi até as fronteiras da região. O trecho que percorreu é realizado exatamente no ano que abriram a navegação a vapor no Amazonas, ligando a áreas de ponto de atracamento. Frisch não foi muito mata adentro, mas fez necessário registro sobre os índios, a floresta e até um panorama fotográfico de Manaus”, ressaltou o coordenador.

O fotógrafo documentou plantas e animais. O maior número de imagens, no entanto, registra os povos indígenas de tribos da região. Junto às fotografias, incluiu informações como relações de parentesco e status social dos líderes indígenas registrados.

Para o professor Aguinaldo Figueiredo, as fotos ajudaram a explicar a história. “É fundamental para a consolidação da história e memória recente da região, que tem apenas pouco mais de 30% de seu acervo natural conhecido. São documentos raros que irão municiar pesquisadores e historiadores de conhecimentos e que vão ajudar a construir nossa história, inclusive, desfazendo mitos e falsas verdades”, disse o especialista em História do Amazonas.

Fotógrafo fazia a documentação em área aberta e ribeirinha

Segundo o pesquisador Pedro Karp Vasquez, Frisch fotografava seus modelos, em alguns casos, diante de um fundo neutro e produzia separadamente algumas vistas para compor o segundo plano. Para realizar as cópias fotográficas, combinava os dois negativos.

“Frisch faz a documentação numa área mais aberta e ribeirinha. É possível ver várias imagens de montagens no sentido de construir uma encenação daquilo que seria uma situação mata adentro. Mas tudo isso faz parte do conjunto histórico desse documento tornando-os extremamente relevantes. Isso faz parte, também, das novas atividades de repensar a fotografia brasileira e valorizá-la. É um conjunto gerado aqui e tem um papel importante na representação fotográfica do País”, disse Sérgio Burgi.

Segundo o coordenador, a fotografia é uma forma de representação visual que tem como característica a natureza da imagem técnica, então, é considerada uma forma diferenciada de registro, que traz informações de materialidade do período que foi gerada, permitindo diversos tipos de estudos que se tornam fortes de informações para pesquisas extremamente relevantes.

“Tudo que remete ao passado é importante para a reflexão do viver histórico, social, material e humanístico. Nossa cidade é uma cidade histórica construída pelo prisma do improviso, com tentativas de ordenamento urbanístico no seu melhor econômico, perdendo esse link em outro momento em que não se pensou nisso. Apesar dos esforços se tornou numa cidade com graves problemas por, justamente, gestores e habitantes em geral desconhecem sua história e cometem os erros ruins do passado”, analisou o professor Aguinaldo Figueiredo.

Da Baviera para o Rio de Janeiro

Christoph Albert Frisch nasceu em 1840, em Augsburgo, na Baviera. Aprendiz de litografia em Paris, deixou a Europa no começo da década de 1860, estabelecendo-se em Buenos Aires como comerciante. Após o empreendimento fracassar, começou a atuar como fotógrafo em 1863.

No ano seguinte, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou no setor de fotografia da Casa Leuzinger.

Até o final do século XX, o alemão Albert Frisch era um personagem misterioso na história da fotografia.

O estudo dos documentos reunidos pela família Leuzinger, doados ao IMS em 2000, e a posterior localização de Klaus Frisch, neto do fotógrafo, pelo pesquisador Frank Stephan Kohl, permitiram reconstituir a trajetória de Frisch.

Repórter de A Crítica

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