Quinta-feira, 04 de Março de 2021
PANDEMIA

Irresponsabilidade e negligência causaram morte de indígenas por Covid-19, aponta relatório

Segundo a Apib, agentes federais e garimpeiros foram os principais vetores de transmissão do novo coronavírus junto aos povos indígenas



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13/12/2020 às 11:38

O relatório e manifesto ‘Nossa Luta é Pela Vida’, divulgado na última quinta-feira(10) pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), indica que agentes federais e garimpeiros foram os principais vetores de transmissão do novo coronavírus junto aos indígenas brasileiros. 

Com 110 páginas, o documento indica ainda que, até a publicação, foram contabilizados 888 óbitos, 41.250 casos de infecções ocorridos entre 161 povos indígenas infectados, resultado de ações de negligência e omissão da união com políticas públicas para a proteção desses povos, em oito meses de pandemia no país.



No relatório, apresentado como uma forma de sensibilizar a sociedade para os casos de Covid-19 entre os indígenas, além de indicar que o processo de contaminação das etnias teve origem a partir da transmissão de não-índios, como no caso do médico da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que, de forma descuidada, retornou do período de férias direto para o seu posto de trabalho no município de Santo Antônio do Içá (AM) e passou a doença para indígenas a quem deveria atender, demonstrando a falta de zelo com aqueles povos, uma vez que não houve a preocupação em cumprir as determinações como a quarentena indicada pela Organização Mundial de Saúde( OMS). 

O resultado foi que a contaminação pelo vírus se espalhou pelo Alto Rio Solimões. 

De acordo com o relatório, os Kokama correspondem a segunda etnia indígena brasileira em número de mortes por Covid-19. 

Até hoje foram contabilizados 58 óbitos entre os indígenas localizados no Amazonas. O primeiro povo indígena em número de mortes, segundo o relatório são os Xavantes, de Mato Grosso.

“O povo Xavante é o mais impactado pela Covid-19 em número de mortes entre todos os povos indígenas. Até o dia 24 de setembro, a ação ‘SOS Xavante’ contabilizava 68 mortes, uma taxa de mortalidade 400% maior comparada aos índices da população geral do país. Em meio a essa crise sanitária, os territórios Xavante, rodeados por grandes latifúndios do agronegócio de Mato Grosso, possuem a maior quantidade de focos de incêndio em Tis”, indica o relatório. 

Campanhas políticas

A mortalidade nos Xavante pela infeção pelo coronavírus foi agravada, ainda neste ano, pelas campanhas políticas, com a entrada de um candidato na área indígena, sem manter os devidos cuidados.

“No início do mês de maio, um pré-candidato a vereador, pelo município de Barra do Garças, em Mato Grosso, entrou na Terra Indígena São Marcos, do povo Xavante, para fazer articulações eleitorais sem respeitar as medidas sanitárias [...]. Na época em que a atividade de pré-campanha foi feita, o Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena registrava a morte de seis Xavante pelo novo coronavírus. Atualmente, esse número aumentou em mais de 1.000%”, indica o relato.

Vale do Rio Javari

No Vale do Rio Javari, onde se concentra o maior número de indígenas em isolamento, os números da Covid-19 são considerados assustadores. 

Já em junho deste ano, na aldeia São Luís, localidade do povo Kanamari (Tüküna), na Terra Indígena Vale do Javari, no Médio Rio Javari, Amazonas, fronteira com o Peru, houve um aumento de casos em 20 dias entre os 270 indígenas da comunidade. Onde eram registrados apenas três casos, nos cinco primeiros dias do mês, foram contabilizadas 26 infecções, no dia 28 de junho. 

“Teve casos de testes negativos que não foram confirmados com o contra-teste. Quer dizer não se sabe realmente se o parente teve ou não Covid, com certeza”, segundo indica a Associação do Povo Kanamari do Vale do Javari (Akavaja), Higson Kanamari. 

O agravante é que nas proximidades da aldeia também estão estabelecidas outras comunidades como os Kanamari estão localizadas nos rios Itacoaí, Curuçá e Jutaí.

O relatório também aponta que os soldados do Exército também contribuíram para a transmissão do vírus, nos territórios mais isolados. O caso citado foi na Terra Indígena Mamoadate, no Alto Rio Purus, no Acre, onde soldados de exército teriam levado o vírus para o território. No Rio Solimões, o relatório aponta que médicos da Sesai teriam contribuído com a contaminação. 

“Com esse relatório mostramos que não houve um plano emergencial. Não houve uma política pública de combate ao Coronavírus destinada aos indígenas. A ações acabaram por aumentar a taxa de contaminação”, disse o coordenador da Apib, Dinamam Tuxa.


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