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Amazônia
Livro dos peixes

Livro sobre peixes comerciais de Manaus reúne conhecimento científico e popular

Além de dados científicos sobre os grupos de peixes mais vendidos nas feiras de Manaus, livro também convida o leitor a uma reflexão sobre o que pode ser feito para garantir a existência de espécies 03/09/2013 às 13:18
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Livro traz informações relevantes para cientistas e curiosos no assunto
Cassandra Castro Manaus

Matrinxã, pirarucu, tambaqui, aruanã, pacu.... belos e apetitosos, eles são apenas alguns dos peixes que compõem a vasta  lista de opções existentes no cardápio do amazonense que tradicionalmente aprecia um bom peixinho.  Mas, além de deliciosos, os peixes amazônicos também atraem os olhares de cientistas, estudantes e também de leigos que desejam conhecer um pouco mais sobre o habitat, hábitos alimentares e características das espécies de peixe da região.

Há seis anos, o biólogo Geraldo Mendes dos Santos  apresentou um projeto de pesquisa junto ao  Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no qual pretendia abordar a temática da produtividade e ciência com foco nas espécies de peixes mais vendidas em Manaus. “Esta era uma ideia antiga porque eu sentia falta destas informações para a sociedade e para a própria pesquisa científica”, conta o biólogo.

Projeto aprovado, o pesquisador foi a campo e durante um ano fez o levantamento do pescado vendido nas feiras de Manaus, tomando como locais de visitação duas feiras grandes, a da Panair e a da Manaus Moderna, duas feiras de bairro e outras duas de rua ou itinerantes.

Nas suas andanças, Geraldo dos Santos descobriu que em Manaus são mais de 53 grupos de peixes comercializados  e que perfazem um total de 100 espécies. Mesmo representando um recorde da realidade da época em que foi realizada, a pesquisa conseguiu traçar perfis destas espécies com informações como a época da reprodução delas, tipos de alimentação dos peixes e hábitos.

Pelo ineditismo, a pesquisa acabou transformando-se em um livro intitulado “Peixes Comerciais de Manaus” que Geraldo assina com mais dois colegas de pesquisa, Efrem Ferreira e Jansen Zuanon.  A primeira  edição da obra foi publicada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis( Ibama) e ficou esgotada.  A segunda, publicada pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) também esgotou e agora o livro já chega à sua terceira versão.

Geraldo conta que além do levantamento feito dos peixes, houve o cuidado de fotografar cada espécie para que os peixes fossem ilustrados no livro com a maior riqueza de detalhes possível.  A obra também  resume as principais características biológicas das espécies, enfatizando também no contexto da época, a importância de cada uma dentro da economia local. O livro também inclui a literatura existente relacionada ao assunto e também consegue conciliar o conhecimento científico ao adquirido pelo pescador e pelos vendedores de pescado.

Além do conteúdo científico, o livro também revela alguns fatos bem curiosos em relação aos peixes amazônicos.  Geraldo conta que na época em que fez o levantamento nas feiras, o tambaqui comercializado ainda era o vindo diretamente da natureza porque ainda não havia a prática da criação do tambaqui em viveiros. O pesquisador comenta que atualmente, esta realidade é quase oposta: quase 100% do tambaqui encontrado nas feiras é oriundo da piscicultura e os da natureza são cada vez mais raros, quando encontrados  geralmente já têm destino certo: restaurantes ou hoteis.

Outra constatação feita pelo biólogo foi de que o Tambaqui era a segunda espécie mais comercializada  na época perdendo apenas para o Jaraqui.

Geraldo também conta que o Pirarucu já era uma espécie ameaçada, com baixa produção mas, mesmo assim, era possível encontrá-lo em todas as feiras. “ Claro que com preço distinto, acima dos praticados para outros peixes e com restrições e formas diversas de apresentação, como na modalidade de pirarucu seco”.

O pesquisador também verificou que as espécies secundárias como branquinha, aracu, pacu e outras eram mais vendidas nas feiras menores já as mais nobres eram encontradas com mais facilidade nas feiras mais estruturadas.

Um ponto interessante também revelado pela pesquisa é a de que “ a produção da feira retrata muito a condição da natureza”, nas palavras do próprio pesquisador.  “ Já dava para sentir quais espécies estavam tendo menos oferta por conta da dificuldade em serem achadas próximas a Manaus”. A ocorrência cada vez mais rara de certas espécies, como o próprio Tambaqui também é reflexo  das intervenções feitas na natureza como a poluição, barulho, lixo e desmatamento das matas próximas às margens dos rios. “ As matas são fontes naturais de alimentação destes peixes, tambaqui, sardinha, pacu, eles comem dos frutos que caem das árvores próximas aos rios . Se tiram as plantas, cortam as fontes de alimentação do pescado”, explica o biólogo.

Para o autor, o valor da obra está em apontar informações que podem ser usadas na elaboração de ações por parte de gestores ligados ao setor pesqueiro e também fornecer informações para estudiosos do assunto.  “  O objetivo é divulgar, difundir este conhecimento para que as pessoas valorizem mais esta riqueza presente na nossa natureza, conheçam o que estão comendo e entendam a interação do peixe com o meio ambiente”, finaliza.

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