Sexta-feira, 03 de Abril de 2020
IMPASSE DIPLOMÁTICO

Lixo vindo do Peru invade rio do Amazonas e altera rotina de ribeirinhos

Resíduos são oriundos da ilha peruana de Islândia, no Distrito de Yavari, que, sem aterro sanitário próprio, descarta todo o lixo coletado nas águas que dividem os dois países



27/02/2020 às 07:15

Uma garrafa de plástico jogada no rio incomoda o meio ambiente. Uma lixeira inteira boiando no rio é um incômodo de proporções internacionais. Assim tem sido o cenário, há décadas, na região do Alto Solimões, na fronteira entre Brasil e Peru, onde há um lixão fluvial que vem prejudicando o meio ambiente e pondo em risco a saúde da população de Benjamin Constant, a 1.116 quilômetros de Manaus. Os resíduos são oriundos da ilha peruana de Islândia, no Distrito de Yavari, que, sem aterro sanitário próprio, descarta todo o lixo coletado nas águas que dividem os dois países.

Enquanto os governos brasileiro e peruano não encontram uma solução prática para a lixeira viciada, os resíduos sólidos de Islândia, que vão de detritos domiciliares a hospitalares, seguem sendo descartados em um igapó situado à margem esquerda do Javarizinho, braço do rio Javari (na margem direita fica o município de Benjamin Constant). Para piorar, no período da cheia, quando o rio sobe, a correnteza leva todo este lixo (bem como o chorume produzido por ele) para o porto da cidade brasileira, contaminando a água usada pela população. Ironicamente, a lixeira está situada dentro de uma área de proteção ambiental peruana chamada “Area de Conservación Regional Comunal Tamshiyacu Tahuayo”.



O descarte irregular na ilha vem sendo discutido desde 2011, quando chegou a ser proposto um convênio para que os resíduos peruanos fossem levados para o município amazonense. O projeto, porém, nunca saiu do papel porque a legislação brasileira impede a importação de dejetos sólidos. E, por se tratar de território fronteiriço, as prefeituras de Benjamin Constant e de Islândia seguem de mãos atadas até hoje ante o problema.

Diante deste impasse, a reportagem de A Crítica consultou o Itamaraty, que informou que os governos dos dois países discutirão maneiras de solucionar este problema na próxima reunião da Comissão Vice-Ministerial de Integração Fronteiriça Brasil-Peru, a ser realizada no dia 31 de março, em Lima, capital do Peru.

De acordo com o ex-vereador de Benjamin Constant Totó Cabral, que desde 2014 vem chamando a atenção das autoridades ambientais sobre o problema, nunca houve uma parceria entre os governos de Brasil e Peru para pôr um fim ao descarte irregular de lixo na beira do rio.

“É preciso que o interesse maior seja da parte do governo peruano, pois já houve uma discussão na qual a lei não permite o armazenamento do lixo [produzido em Islândia] em território brasileiro. E, para que a ilha armazene esses resíduos sólidos, é necessário transportá-los [de barco] para a terra firme com distância de aproximadamente 20 quilômetros”, explicou Cabral.

“A maior consequência disso tudo é a saúde da população de Benjamin Constant, que tem que arcar com todas as doenças que podem surgir nesse braço de rio onde se encontra a lixeira. Até porque as pessoas bebem desta água, lavam a roupa nela ou a usam pra fazer comida”, lamentou.

 Benjamin Constant. Foto: Clóvis Miranda

De memória, Cabral estima que a lixeira viciada existe há pelo menos 45 anos em um local escondido e de difícil acesso. “O que a população quer é viver bem e com saúde. Porque os nossos vizinhos peruanos também são prejudicados com esse problema, pois o possível surto de alguma doença, como a dengue, pode afetar as duas localidades”, alertou, acrescentando que o seu sonho é que as crianças, dos dois lados da fronteira, voltem a mergulhar no Javarizinho sem correr risco de contrair doenças.

Ipaam fará fiscalização em março

Ao ser questionado sobre o descarte irregular de resíduos sólidos no rio Javari, na fronteira entre Brasil e Peru, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) informou que há uma ação de fiscalização agendada para março, em Benjamin Constant, que incluirá o lixão fluvial e demais municípios do Alto Solimões.

O órgão informou ainda que irá avaliar as alternativas de tratamento e destino final dos resíduos internacionais e irá repassar o relatório técnico ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), órgão federal responsável.

O lixão fluvial está localizado às margens do Javarizinho, braço do rio Javari, afluente do rio Solimões, formando a ilha de Islândia, que faz parte do Distrito de Yavari, e possui uma população de aproximadamente duas mil pessoas.

 Frente da cidade peruana de Islândia, no rio Javari. Foto: Clóvis Miranda

A ilha tem como característica as habitações em forma de palafitas, pois fica completamente inundada no período da cheia. Por conta dessa particularidade, a cidade peruana abraçou a alcunha de “Veneza do trapézio amazônico”.


Impacto ambiental

É possível que o lixo produzido nas regiões fronteiriças avance rio adentro na região. Ano passado, durante estudo do Instituto Mamirauá, pesquisadores chegaram a encontrar uma garrafa de refrigerante de origem peruana, fabricada em 2016, na região de floresta da região do Médio Solimões, na Amazônia Central.

Durante o estudo, iniciado em agosto de 2019, foram coletadas uma média de 600 gramas de resíduos sólidos por hectare de floresta de várzea – o equivalente a 60% da produção diária de lixo por pessoa no Brasil. Os itens mais encontrados foram escovas de dente, embalagens de produtos cosméticos, pedaços de brinquedos, copos, utensílios domésticos, entre outros itens de decomposição demorada na natureza.

Uma das hipóteses mais fortes sobre como este lixo chegou a uma área central da floresta amazônica foi o descarte inadequado feito em cidades próximas, como Tefé, distante 523 quilômetros de Manaus. 

No entanto, o pesquisador do Grupo de Pesquisa em Ecologia Florestal do Instituto Mamirauá, Elias Neto, que orientou o estudo, confirmou ser hipoteticamente possível que esses detritos produzidos e despejados na beira do rio em Islândia estejam se espalhando por outras localidades do Amazonas, levadas pela correnteza do rio Solimões.

 Foto: Elias Neto / Instituto Mamirauá

“A confirmação dessa hipótese só seria possível através de um estudo das características do rio onde está localizada essa ilha onde o lixo tem sido depositado”, disse, lembrando que, durante a pesquisa, chegaram a encontrar uma embalagem de silicone produzida nos Estados Unidos.

Neto reforça que, embora ainda não seja possível mensurar o tamanho do impacto ambiental provocado por esse lixo de origem internacional nos rios amazônicos, é possível pelo menos antecipar alguns riscos possíveis que ele pode causar na natureza.

“A deterioração dos detritos, ao longo do tempo, podem transformá-los em microplásticos, que dificultam o trabalho de percepção e de coleta desses materiais, e ainda aumentar a chance desses resíduos serem ingeridos por animais (peixe, quelônios, jacarés, entre outros), levando-os à morte. Sem contar que o lixo também pode atuar como barreira física para a regeneração de novas plantas na floresta”, explanou.

Além disso, reforçou Neto, como os animais são essenciais para a manutenção do ecossistema, caso eles sejam gravemente afetados por estes resíduos trazidos pela correnteza dos rios, o impacto sobre a floresta como um todo será inevitavelmente amplo e sem precedentes.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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