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Amazônia
TRADIÇÃO

Com consultas a R$ 10, Manaus ganha primeiro Centro Médico de Medicina Indígena

Funcionamento ocorre de segunda a sexta-feira, das 9h às 15h, na rua Bernardo Ramos, 97, Centro 06/06/2017 às 20:05 - Atualizado em 07/06/2017 às 12:54
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Consultas podem ser feitas para problemas de saúde física e espiritual e utilizando produtos naturais no tratamento (Foto: Márcio Silva)
Paulo André Nunes Manaus (AM)

A medicina dos povos indígenas conta, desde esta terça-feira, dia 6, com um local para tratamento não apenas dos “primeiros donos da terra”, como são chamados os índios, mas para toda a população. É que está funcionando de segunda a sexta-feira, das 9h às 15h na rua Bernardo Ramos, 97, Centro, o Bahserikowi’i - 1º Centro de Medicina Indígena da Amazônia. Desde ontem o agendamento da primeira consulta com os Kumuã já poderá ser realizada, no valor de R$ 10, sendo que valor do tratamento será definido conforme a complexidade da doença.

“Vamos tratar aqui doenças da mama, urinárias, da pele, musculares, dores de barriga, do útero e também proteção da casa, família, pessoa, emprego, contra invejas e outros males”, informou o doutorando em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), João Paulo Barreto, indígena da etnia tukano, que é idealizador e coordenador do espaço.

Os atendimentos e tratamentos serão feitos pelos Kumuãs (ou Kumus), que trata-se dos especialistas indígenas do Alto Rio Negro que dominam o conhecimento do Bahsese (benzimento) a partir dos princípios metaquímicos da natureza (plantas e animais). Eles também são especialistas no Watidarese (proteção) contra agressões interpessoais. Um desses Kumus é Manoel Lima, da etnia Tuyuka, de 85 anos de idade.

“Uma das nossas funções é benzer e proteger as pessoas, de coisas como invejas, dores e barrigas, doenças, de pele, tonturas, no útero”, conta ele.

No local também vai funcionar o projeto “Amazônia Originários”, que envolve atividades como venda de artesanato e arte indígena. O espaço também terá os projetos de Programa de Cursos de Línguas Indígenas e Cosmologias Indígenas e Saúde. No decorrer, haverá cursos, oficinas e palestras me parceria com o Núcleo de Estudo da Amazônia Indígena (NEAI/Ufam).

“Estamos abraçando e valorizando muito esse projeto que pra nós é um desafio muito grande. Manaus está de parabéns por essa iniciativa de primeira mão”, falou João Neves, coordenador e secretário da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) - a entidade cedeu o casarão onde funciona o Bahserikowi’i. O Centro de Medicina Indígena da Amazônia também conta com a parceria da Núcleo de Estudo da Amazônia Indígena e da agência Amazônia Real.

Drama  com menina que ia ter perna amputada foi embrião para criar Centro

Um drama ocorrido em 2009,  na família de João Barreto, foi o embrião para a criação do Centro, quando sua sobrinha, Luciane Trurril Barreto, 12, teve a perna direita picada por uma jararaca na comunidade São Domingos, em São Gabriel da Cachoeira.

Após ser transferida para Manaus, a família de Luciane foi informada, no Hospital João Lúcio, que ela teria que amputar a perna. Seus familiares impediram alegando que não era necessário, bastando fazer o tratamento acompanhado da medicina indígena, o que foi negado pela direção. De lá, ela recebeu atendimento dos Kumuã. O caso foi parar no MPF, que recomendou que o João Lúcio aceitasse o tratamento conjunto, que não foi aceito pelo hospital. Dias depois, ela foi transferida para o HUGV , onde a direção descartou a amputação e autorizou que ela recebesse tratamento indígena junto com a medicina ocidental. Ela teve alta em um mês.

Blog: João Neves, coordenador e secretário da Coiab

"A importância desse espaço é muito grande para o povo indígena da Amazônia. Sou coordenador de uma organização com nove Estados da Amazônia Brasileira, e vejo que estão nos proporcionando uma atividade que podemos levar a outros locais. Não é fácil abrir um espaço desse em uma capital, haja visto que nossas terras são nos municípios, nossas aldeias fora daqui. Neste espaço mostraremos a valorização da cultura, da sustentabilidade, aos não-indígenas, aos órgãos do Governo. Esperamos, que haja um entendimento, um respeito para com os povos indígenas porque aqui também está se passando, se mostrando, a defesa de direitos de vir e um pouco do conhecimento para a comunidade do bairro, acadêmica". 

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