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Amazônia
Etnomusicalidade

Musicalidade amazônica ficou em evidência no 28º Congresso Nacional da Anppom

Evento da Associação Nacional de Pesquisa e Pós Graduação em Música reuniu pesquisadores de vários estados e estrangeiros em Manaus 03/09/2018 às 07:41
Karol Rocha Manaus (AM)

Em uma breve passagem pela RDS do Tupé, mais de 100 pós-graduandos em música de vários estados brasileiros, além de palestrantes estrangeiros, puderam conferir um pouco da musicalidade amazônica expressa por cantos tradicionais e instrumentos de sopro do povo Dessano.

As apresentações, parte do encerramento do 28ª Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós Graduação em Música (Anppom), na última sexta-feira, entusiasmaram o público visitante do Centro Cultural Dessanas, no rio Negro. “Foi enriquecedor para mim”, disse o baiano Vicente Reis, que pela primeira vez visitou a região Norte.

“Fiquei encantado com a cidade, esses dias têm sido de boas experiências. Em relação à pesquisa, estamos em um momento de se pensar outras práticas e epistemologias não hegemônicas, a etnomusicologia está muito ligada a isso, é prazeroso ver o desenvolvimento”, ressaltou Vicente, que é mestrando na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde estuda a produção de sentido a partir dos sons em vídeo games de horror.

“A Amazônia possui mil tons de música a oferecer ao mundo, e não apenas os 100 cinzentos dos europeus”, resumiu o diretor do Museu da Amazônia (Musa), Enio Candotti, um dos palestrantes do evento, nascido na Itália.

“A Amazônia oferece ao mundo cem diferentes notas fundamentais, cada etnia tem sua nota fundamental. A música não gira ao redor do dó ré mi fá, mas sim ao redor da definição de uma nota que é básica para cada comunidade, para cada etnia, local e cultura. Além disso, a Amazônia nos oferece um exemplo único de adaptação dos ritmos ao ambiente floresta”, disse ele.

Quem define os ritmos usados pelas comunidades indígenas são as cigarras, os pássaros, ou seja, a própria natureza, exemplificou Candotti. “O canto de pássaro dá o tom ou o ritmo da música produzida por uma determinada etnia, a vibração de uma árvore ou ruído de uma folha, o fluir das águas e nisso, na musicalidade a Amazônia também é riquíssima”, explicou o diretor, que abordou a etnomusicalidade, que é o estudo das formas e atividades musicológicas de todas as culturas, na mesa “Força Cuidadora da Floresta e a Ciência Interdisciplinar”, durante o encerramento do congresso.

Ao longo de uma semana, o evento reuniu, em Manaus, doutores, mestrandos e pós-graduandos da área músical vindos de todas as regiões do Brasil e pesquisadores da Áustria e Suíça, que ficaram encantados com a apresentação no Tupé e musicalidade interpretada pelos indígenas utilizando seus instrumentos nativos.

“É um dos eventos mais importantes em termos de pesquisa na área da música no Brasil, e pela primeira vez, sediou em Manaus. Nós queríamos trazer um diferencial em relação à interdisciplinaridade da vida na Amazônia, dando como exemplo o que se deve fazer na pesquisa e na ciência por isso o encerramento do congresso aqui na comunidade”, explica a diretora da Faculdade de Artes da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e também coordenadora geral do evento, professora Rosemara Staub.

“A música não é isolada, ela está ligada a caça, a fauna e a flora, o nascimento e a morte das coisas, a relação com os animais e com a água. A gente precisa entender qual o papel dela na integração da vida e de todos nós”, disse Staub.

Pela primeira vez na região Norte

O congresso acontece todos os anos e a proposta é valorizar a pesquisa em música no Brasil. Essa foi a primeira vez que o evento foi realizado em um estado da Amazônia. A programação da 28ª edição teve início na última segunda-feira, no Campus da Ufam em Manaus. Durante a semana, houve conferências, mesas redondas, palestras, apresentação musical e artigos científicos. Participaram ainda, os pesquisadores seniors Wolfgang Bohler, da IMC Universität na Suíça e Dr. Gerhard Tucek, da Áustria.

A presidente da Anppom, Sônia Regina Albano, ressaltou o tema elevando a comemoração dos 30 anos da associação voltada exclusivamente a pesquisa da música. “Foi uma conquista trazer esse congresso para a região, e tem sido uma novidade desde o início culminando com esse encerramento bem no meio da Amazônia”,ressaltou ela. “A música e Amazônia têm tudo haver, os sons que esses indígenas promovem é um trabalho etnográfico maravilhoso. Eu não conhecia a Amazônia e foi mágico estar neste lugar”.

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