Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
EMPREENDEDORISMO

Ex-funcionários do Ariaú montam pousada e utilizam Sol para fornecer água potável

Tecnologia implantada pelo Instituto Coca-Cola Brasil criou cenário de 'boom' econômico entre ex-funcionários do hotel de selva



04/11/2019 às 07:08

Com camiseta do Flamengo em frente de casa, João Torres me convidou para entrar, mas antes pediu que eu tirasse os sapatos. Ele não é o único torcedor do time carioca na eclética comunidade ribeirinha de Corinthians [isso mesmo, você não leu errado!], localizada às margens do lago Acajatuba, no município de Iranduba, distante 30 quilômetros de Manaus. 

Boa parte dos 100 habitantes são antigos funcionários do hotel de selva Ariaú Amazon Towers, falido em 2016, e que hoje está em ruínas e a quatro quilômetros de onde piso. Viajei da capital Manaus rumo à Corinthians para entender como a chegada de água potável transformou a realidade financeira da comunidade dando um ‘up’ nas ações empreendedoras dos ribeirinhos impulsionando a ampliação de uma pousada sustentável.



Fundada em 1980, a comunidade desde março deste ano utiliza o sol como combustível para levar água potável até 35 casas. O acesso ao direito básico chegou mais rápido que a prestadora de serviços contratada pelo Estado.

Implantada em Corinthians por meio do Água + Acesso, uma ideia desenvolvida pela Fundação Amazonas Sustentável (FAS) e o Instituto Coca-Cola Brasil, o programa utiliza energia solar para levar água potável a 15 comunidades situadas dentro de áreas de proteção ambiental na Amazônia. Até a data de hoje, R$ 620 mil foram investidos na captação, armazenamento e distribuição de água nestas áreas. O programa beneficia diretamente mais de duas mil pessoas. No último mês, o Água + Acesso foi inaugurado na comunidade ribeirinha Vila Darcy, em Maués, beneficiando mais de 100 ribeirinhos.

De madeira e pintada com um amarelo cintilante, a casa que João divide com a esposa é uma típica residência ribeirinha. Minha chegada interrompeu a preparação do almoço. Maria Torres, esposa de João, logo surge com um convite de boas-vindas: “Você deseja tomar um copo de água gelada?”, diz sorrindo. Chegando direto nas torneiras, ela conta que a água que utiliza desde março realça o sabor da comida preparada.

“Tinha muito problema de saúde antes dessa água chegar aqui. Antigamente eu pegava água do rio, carregava era nas costas mesmo e fazia a comida”, disse Maria, ao lado de um aparelho de som que facilmente é confundido como sendo da década de 50, não fosse uma entrada digital para conectar o celular no aparelho. 

“Agora que chegou água boa na torneira, só faço minha comida com ela, até o sabor fica diferente”, comentou enquanto divide atenção com o frango cozido sendo preparado no fogo. “Não passava pela minha cabeça que o sol faz isso, de trazer a água até aqui”, afirmou.

Origem do nome

O nome oficial de Corinthians é Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Carlos Costa, presidente da Associação de moradares explica que a santa possui uma capela na entrada, mas divide o espaço com outras duas igrejas evangélicas. Os ribeirinhos do lago Acajatuba decidiram substituir os tradicionais nomes das comunidades por de times de futebol. A ‘ação publicitária’ mirou os turistas que chegavam até Manaus por conta da Copa do Mundo de 2014. 

Manaus foi sede de quatro jogos do torneio e, na ocasião, registrou um grande número de turistas de várias partes do mundo. Só Corinthians recebeu mais de mil visitas no período

Custo 

Um sorteio no final de cada mês escolhe a família que deve acionar e desligar as dez placas de energia solar instaladas na comunidade de Corinthians e posicionadas para o leste.  O custo pela água é de R$ 5 ao mês, valor pago pelas famílias e 340% mais barato que o serviço tradicional. O desperdício de água gera multa de R$ 20 no primeiro mês e, caso aconteça de novo, a família paga o triplo do valor no próximo.

Armazenada em caixas d'água, uma rede de encanamento construída pelos próprios comunitários garante que a água potável chegue até as torneiras. “O protagonismo é deles, dos ribeirinhos. A parceria da Fundação com o Instituto Coca-Cola Brasil é de apresentar estas soluções sustentáveis a eles”, disse Valcleia Solidad, superintendente da FAS. Ela acompanhou de perto mais de 300 projetos desenvolvidos pela Fundação no Amazonas.

E em outubro passado, a FAS foi premiada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) por aplicar conhecimento tecnológico ao dia a dia de comunidades que vivem em áreas de proteção ambiental. 

​Empreendedorismo

A falência do hotel de selva Ariaú Towers acelerou a busca por novas formas dos ribeirinhos gerarem renda. Apesar da forte presença do turismo de pesca na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, a comunidade possuía estrutura precária para receber os viajantes que desejavam passar mais dias no local. 

“A água do + Acesso veio como uma solução para ampliarmos a pousada”, conta Carlos. Ele se refere à pousada Vista do Lago, construída pelos ribeirinhos, em 2014. O estabelecimento contribui com a renda das famílias da comunidade. “São os próprios habitantes daqui que são funcionários, que guiam os turistas, fazem a comida, e a pousada também compra da produção local os alimentos necessários para abastecer a cozinha”, explicou.

No auge, o Ariaú Towers tinha uma receita de US$ 1 milhão por mês e gerava emprego e renda em aproximadamente dez comunidades. A pousada liderada pelos ribeirinhos de Corinthians possui um livro de registro onde um casal de turistas deixou assinado: 

Programa 

Liderado pelo Instituto Coca-Cola Brasil, a Aliança Água + Acesso existe desde 2017 e reúne 15 organizações. Ela atua apresentando e implantando soluções de modelos autossustentáveis em mais de 241 comunidades localizadas em áreas rurais de 8 Estados no País. O programa já beneficia mais de 77 mil pessoas. No Amazonas, a Fundação Amazonas Sustentável (FAS) lidera as ações da Aliança nas comunidades.

Repórter

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