Segunda-feira, 18 de Novembro de 2019
Catando lixo nos igarapés

O lixo que vira meio de sobrevivência em igarapé de Manaus

Cheia de igarapé traz mais lixo e catadores de garrafas pet aproveitam para ganhar dinheiro e garantir o sustento da família



1.png Trabalho dos catadores de pet no igarapé do São Raimundo pode levar horas e até um dia inteiro
16/04/2013 às 07:09

Canoa, remo e igarapé. Para a maioria das crianças, a combinação é motivo de brincadeira. Alex Saraiva Nascimento, 6, e Luciano Saraiva Frazão,  5, contudo, utilizam os itens como instrumento de trabalho. O ofício de ambos: coletar garafas pet. A família inteira de Alex e Luciano se reveza para retirar da sujeira do igarapé do São Raimundo,  garrafas plásticas de refrigerante. É assim que eles ganham a vida.

Nem o mau cheiro, o sol e a chuva inibem o trabalho da família Saraiva Justino.  “A gente faz porque precisa. É o nosso meio de vida. Tenho quatro filhos para criar”, diz Francineide Saraiva Justino, 56. “Não é muito, mas dá para desapertar”, afirma Maria de Fátima Saraiva dos Santos, 59. As irmãs vivem sob o mesmo teto com mais dez pessoas.



A família reside em uma casa de madeira, com quatro cômodos, na rua Osvaldo Cruz, no bairro da Glória, Zona Oeste da cidade, às margens do igarapé do São Raimundo. A canoa, que fica sempre amarrada ao esteio da casa, é o meio de transporte que conduz os catadores pelo manancial. Eles contam que o período de chuva traz mais lucro, porque a quantidade de garrafas pet que corre pelo igarapé é maior com a força da correnteza. 

Cada quilo de garrafas pet rende R$ 1,00 à família. O material é vendido para uma fábrica de reciclagem. O lucro é incerto, porque os catadores nunca sabem quanto vão conseguir coletar semanalmente. Mas pode render R$ 100, R$ 200 por mês. Com a renda, os catadores ainda ajudam a sustentar outra irmã da família, Maria Gomes Justino, 52, vítima de câncer no estômago. Há dois anos ela sofre com a doença.

Exposto a doenças e aos riscos das intempéries, o trabalho dos catadores é feito sem qualquer segurança nem proteção. As luvas, tocas, botas e máscaras oferecidas como incentivo pela cooperativa a quem prestam serviço nunca chegaram. “Tenho muito medo. Mas a gente tem que enfrentar”, diz a matriarca da família, Celina Gomes Justino, 74, que deu início ao trabalho como meio de vida, juntamente com o marido, há três anos.

Foi ela quem incentivou filhos e netos a tirar sustento da sujeira que ‘brota’ do igarapé do São Raimundo. Quando perguntado porquê coleta garrafas pet no igarapé, Alex Nascimento, 5, tem a resposta pronta: “Para ajudar a vovó”. Luciano Saraiva, 6, também é ciente do motivo que o faz coletar o material: “a gente vende para ganhar dinheiro”, afirma.

Celina Gomes Justino afirma que a família gostaria de um dia ser contemplada pelo Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim). Com o dinheiro da indenização, eles pretendem mudar de ramo, partir rumo ao interior (quem sabe Coari, de onde vieram há 26 anos) e trabalhar com agricultura. “Nossa esperança é ser feliz”.

Vítimas da violência


Há um mês, Eliseu Saraiva, 35, um dos catadores de pet da família, foi atacado por bandidos quando realizava o trabalho de coleta no igarapé do São Raimundo, dentro da canoa da família. Assaltantes o abordaram exigindo o lucro pela venda do lixo reciclável.

Eliseu não tinha dinheiro, o que deixou os bandidos furiosos. O catador levou uma paulada na cabeça e foi jogado dentro das águas sujas do igarapé. Sofreu dez pontos na cabeça depois de ter sido hospitalizado.

“Ele provocava sangue”, lembra a mãe, Celina Gomes, 74. Eliseu Saraiva foi salvo por populares e levado ao hospital. A canoa, o principal patrimônio da família, foi encontrada quilômetros adiante do ataque, à deriva. Hoje, o catador de lixo tenta se recuperar da violência. Ele perdeu parcialmente os movimentos do braço direito.

A debilidade o impede de ajudar as mulheres da família no esforço diário de coletar pets. Agora, elas contam apenas com a ajuda das crianças da casa. Da janela, Eliseu passa o dia vendo a sujeira se acumular no “quintal” da casa. Há sofás, colchões e todo tipo de lixo no igarapé. Nem tudo dá lucro.

 

 

 

 


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