Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
Amazônia

Obras em avenida de Manaus causam desequilíbrio ambiental e prejudicam a espécie mais ameaçada da fauna amazônica

A construção da Avenida das Flores causa a derrubada de mata, isola grupos de sauins de coleira e causa desequilíbrio ecológico na Zona Norte de Manaus



1.jpg Máquinas trabalham para a construção da avenida das Flores, expansão da avenida das Torres, na zona norte de Manaus
30/07/2013 às 15:35

Há duas semanas a vida de um grupo de seis sauins-de-coleira que vive no bairro Nova Cidade, na Zona Norte, mudou drasticamente. De um imensa mata disponível para seu deslocamento, sua área foi reduzida a um pequeno fragmento ao lado da casa da técnica em eletrônica Suelen Fonseca, 40, moradora da rua 18-A , quadra 1, do Nova Cidade. Agora, eles estão isolados e acuados. Nos últimos dias eles também andam assustados e pouco animados para sair das copas das árvores que ainda existem pela área.

Mais do que nunca os sauins-de-coleira (que agora são oito, pois há dois filhotes novos na família dos animais) dependem de Suelen e de sua família para sobreviver. É ela quem todos os dias aguarda ou chama os animais para lhes dar comida. O sauim-de-coleira é a considerada a espécie da fauna amazônica mais ameaçada de extinção.

A perda de uma vegetação de tamanho incalculável é o outro lado do chamado "progresso" e sobre o qual pouco se fala. As árvores foram derrubadas para dar lugar ao asfalto que passará por ali para a construção da avenida das Flores, expansão da avenida das Torres. Com o avanço dos tratores, igarapés e um olho d´água estão em processo de aterramento (conforme observou a reportagem) e pontes estão sendo construídas na área.

O barulho das máquinas também tem assustado outros animais silvestres que se arriscam viver na área: pássaros, mamíferos e primatas - há registros da existência de dois parauacus. Uma guariba que era avistada até pouco tempo, sumiu. Animais peçonhentos estão saindo de suas tocas, segundo Suelen. Ela conta que já encontrou cobras e escorpiões nas proximidades de suas casas.


“No dia em que as árvores estavam sendo derrubadas fiquei desesperada. Eu chorava, gritava. Os sauins-de-coleira pulavam de uma árvore para outra à medida que elas caiam. Eles corriam de um lado para outro, assustados, tipo pedindo ajuda”, relata Suelen.

Desequilíbrio

A pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), Monica Solorio, que desenvolve pesquisa de doutorado sobre o sauim-de-coleira em Manaus, disse que o que está ocorrendo naquela área do Nova Cidade, nas proximidades da obra, é um desequilíbrio ecológico causado pela alteração da dinâmica no ecossistema.“Se nada for feito neste fragmento que restou estes animais, como o sauim-de-coleira e outros primatas, eles estão condenados”, alerta Monica.

Suelen Fonseca não esconde a imensa tristeza com a perspectiva dos sauins-de-coleira que vivem nas proximidades de sua casa morrer. “Moro aqui há 11 anos e há 11 anos eu convivo com eles. Há oito fiquei mais próxima e eles passaram a vir perto de casa, comer. Eles comem na minha mão”, conta.

Conforme Suelen, o grupo já teve sua pequena população reduzida. Passou de 12 para seis indivíduos. Um dos sauins mais próximo dela, batizado de Chico, desapareceu. “Ele estava com um tumor debaixo do braço. Depois, sumiu”, disse.

Mas ela também está contente porque uma das fêmeas pariu dois bebês recentemente. “Tirei uma foto dela gravidinha. Achei tão bonito. Agora ela carrega os dois filhotinhos nas costas. Curioso é que os outros não largam dela. Ficam todos cuidando juntos dos dois recém-nascidos”, comentou.

Além da banana disponível diariamente, os animais também podem colher alguns ingás e biribas das árvores que Suelen plantou especialmente para eles. Os sauins não gostaram nem de mamão, nem de abacate. “Uma vez, eles jogaram um abacate em mim. Eles não quiseram", lembra, rindo.

Na avaliação de Monica Solorio, o vínculo entre Suelen e os sauins-de-coleira também demonstra que os animais estão totalmente dependentes dela. “A oferta de alimentação diminuiu e agora eles precisam dela mais ainda”, disse.

Mitigações

Nesta terça-feira (30) ocorre uma reunião no Ministério Público Federal do Amazonas para discutir o andamento da proposta de medidas mitigatórias e compensatórias apresentadas pelo órgão e pelo Plano de Ação Nacional (PAN) Sauim de Coleira para os impactos causados pela Avenida das Torres (trecho 1). A reunião terá a presença de representantes do governo do Amazonas.

A proposta foi apresentada há alguns meses pelo MPF e pelos integrantes do PAN, mas até o momento as ações efetivas ainda não avançaram por parte do governo do Amazonas.

As medidas compensatórias propostas referem-se apenas ao trecho 1 da Avenida das Torres, localizado no bairro Cidade Nova. Ainda não informações se o trecho 2, na área que atravessa o Nova Cidade será discutido.

O PAN Sauim-de-Coleira é um projeto composto e desenvolvido por pesquisadores de diferentes instituições para tentar salvar o animal da extinção. O risco é que se nenhuma medida seja tomada, o sauim-de-coleira desaparecerá do mapa. O animal, que é uma espécie endêmica de Manaus (só existe na capital amazonense) está com sua população reduzida em velocidade preocupante devido ao avanço do desmatamento causado por grandes empreendimentos na cidade.

Especialistas dizem que com o anel viário que vai isolar a Reserva Florestal Adolpho Ducke, na Zona Norte, e impactar a área do Tarumã, a situação do sauim-de-coleira vai piorar ainda mais. São nestas duas áreas onde estima-se que existam a maior população de sauim-de-coleira.

Licença dispensou EIA RIMA

A reportagem tentou obter o EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental) da Avenida das Flores (trecho 2, o qual abrange também a área do Nova Cidade) por meio do site na internet do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), mas descobriu que este documento não existe.

O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) enviou nota informando que este estudo só se aplica a rodovia, portanto não foi exigido para as obras da Avenida das Torres nem das Flores. Desta forma, o licenciamento foi conduzido como “avenida”. Foi solicitado apenas um Estudo Ambiental Simplicado (EAS). Segundo o Ipaam, o monitoramento da fauna está contemplado no EAS. O órgão, contudo, não deu detalhes sobre a forma como isto ocorrerá.  O EAS também não está disponível no site do Ipaam para consulta pública, medida que é obrigatória.

Segundo o Ipaam, o projeto da Avenida das Flores tem 90% de sua área embaixo da linha de transmissão da concessionária de energia que, por questão de segurança, não pode ter vegetação, por isso ter sido aproveitada para o traçado da Avenida.

Já as pontes que estão sendo construídas fazem parte do projeto e ocorrem nos locais de transposição de igarapés, disse o Ipaam.

Confira galeria de imagens no link

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