Quarta-feira, 20 de Novembro de 2019
Amazônia

Ocupação desordenada dos espaços na Amazônia faz crescer os surtos de Malária

A afirmativa do professor e médico Marcus Barros, ao proferir a palestra “Malária: a floresta se vinga”, ministrada na noite da última quarta-feira, no Teatro Direcional, foi acompanhada de uma observação



1.jpg Construção da Usina Hidrelétrica de Santo Antonio, no rio Madeira em Rondônia, é apontada por Marcus Barros como a repetição de um erro que favorece o aumento de casos da malária na Amazônia
03/06/2013 às 16:23

As grandes obras realizadas na Amazônia sem qualquer planejamento e respeito pela natureza estão por trás dos elevados índices de malária da região. A afirmativa do professor e médico Marcus Barros, ao proferir a palestra “Malária: a floresta se vinga”, ministrada na noite da última quarta-feira, no Teatro Direcional, foi acompanhada de uma observação.

Marcus afirma que o mosquito, no entanto, erra o alvo na medida em que ataca os trabalhadores e não os promotores dos grandes desmatamentos. “O alvo do mosquito anofelino deveria ser o grande capital, que promove a derrubada da floresta sem qualquer estudo ou planejamento e não o homem que sobrevive dela”, ironizou o professor, ao participar da programação denominada “Ciência às 7 e meia”, realizada pelo Museu da Amazônia (Musa) uma vez por mês no teatro.



Ao falar da doença, que só em 2011 acometeu mais de 60 mil pessoas no Amazonas, Marcus Barros fez um passeio pela história de ocupação da Amazônia e do registro da malária, mostrando o projeto de construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, no início do século passado, cujo objetivo era escoar mais facilmente a borracha produzida em Rondônia para o exterior, cujo transporte era inviável. Mas na primeira estação chuvosa, os trilhos viravam com a agua e no período de sol, a malária começou a atingir os trabalhadores.

Rebanho Humano

Para a obra foi mobilizado para Rondônia um contingente migratório expressivo, definido pelo professor Samuel Pessoa como “tristes rebanhos humanos”, vindos de vários países, além de nordestinos, para trabalhar na construção da rodovia em Porto Velho, prevista para ser construída em cima de uma área alagadiça.

Com a derrubada da mata, a endemia surgiu com todo vigor, observou Marcus. Mais de 100 anos depois desse episódio, Marcus Barros cita a Amazônia como alvo de outros grandes projetos como o das usinas hidrelétricas de Belo Monte, no Pará, e Santo Antônio e Jirau, em Rondonia, que da mesma forma como a estrada de ferro, prescindiram estudos científicos para torná-los sustentáveis ao meio ambiente.

Para o pesquisador, essas informações deveriam levar à reflexão sobre a relação entre derrubada da floresta e a doença, que na época da construção da rodovia levou o cientista Oswaldo Cruz à Rondônia, dada a grande quantidade de mortes ocorridas. Ali, ele obrigava os trabalhadores a ingerir o remédio Quinino, usado para combater a doença que continua hoje infectando novos “rebanhos humanos” atraídos para a região, afirmou Marcus, explicando que o combate à malária deve ser multicausal, na medida em que o crescimento dela está diretamente ligado à ocupação da região sem qualquer planejamento.

Para Marcus Barros, enquanto prevalecer essa geografia da desorganização do espaço, onde as derrubadas de florestas acontecem sem dar tempo para a ciência alimentar os governantes com informações adequadas, resta lamentar a repetição de histórias de doença e mortes séculos depois e lembrar a canção do poeta Armandinho de Paula, quando diz que “o maior ecologista da Amazônia é o mosquito da malária”.

Expedições relataram mortandade

Os relatórios das duas viagens científicas ao Amazonas realizadas em 1910 e 1913, sob a liderança Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, trazem denúncia das graves condições sanitárias dos trabalhadores da borracha. Marcus Barros cita trecho no qual eles dizem que em São Felipe, hoje a cidade de Eirunepé (a 1.245 quilômetros de Manaus): “A frase é lapidar: São Felipe, 800 almas, este ano 400 mortas pela malária”, cita o pesquisador.

Barros assegura que por desconhecerem a biodiversidade, as autoridades determinam a ocupação da natureza, sem entender que o processo de adoecimento tem relação direta com o processo migratório e a ocupação de espaços onde nunca havia chegado o homem.

No entendimento dele, muitas vezes armas nas terapêuticas são eficientes, mas os serviços de saúde não conseguem acompanhar a velocidade da doença. Na época da Madeira Mamoré, Oswaldo Cruz usou o poder de polícia para obrigar as pessoas a tomarem o Quinino. Hoje, há alternativas como o uso do mosquiteiro impregnado, que é um alternativa importante e eficiente que precisa chegar às populações atingidas pela malária.

Migração

Outro grande movimento migratório para região foi durante a Segunda Guerra Mundial, na década de 40 do século passado, quando mais de 150 mil nordestinos foram atraídos para a Amazônia

Borracha

Eles vieram especialmente para três estados da região: Amazonas, Rondônia e Acre, que em seguida experimentaram os revezes do declínio do projeto de exploração da borracha nativa. Quem sobreviveu criou laços e constituiu famílias na Amazônia.


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