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Amazônia
conhecimento tradicional

Pesquisa sobre a copaíba procura confirmar a importância da medicina cabocla

Projeto de pesquisa fomentado pela Fapeam, por professores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), está sendo realizado com substâncias isoladas do famoso óleo 27/07/2016 às 21:36 - Atualizado em 29/07/2016 às 18:48
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A tradicional Dona Judith, que vende copaíba e outros "remédios naturais" no Mercadão de Manaus / Fotos: Euzivaldo Queiroz e Érico Xavier/Fapeam
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Um projeto de pesquisa do óleo de copaíba, que está sendo realizado por cientistas amazonenses, procura confirmar o que a população já sabe de geração a geração: que o composto tem propriedades medicinais para ser um importante anti-inflamatório.

Fomentado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), por meio do programa de Programa de Apoio à Núcleos Emergentes de Pesquisa (Pronem), o trabalho pioneiro está sendo realizado com substâncias isoladas do óleo das árvores do gênero  Copaifera  (Caesalpiniaceae, Leguminosae) de forma que os compostos sejam avaliados como agentes anti-inflamatórios de forma isolada. O projeto de pesquisa é dos professores universitários Emerson Lima e Valdir Veiga Júnior, ambos da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Se entre os cientistas e pesquisadores os benefícios ainda precisam de comprovação científica, entre a população a copaíba e outros óleos, além de ervas medicinais, sementes e outros produtos naturais já servem, há anos, como a cura para diversos males do corpo... e da alma.

Diariamente, por exemplo, milhares de pessoas se deslocam para locais como o Mercado Municipal Adolpho Lisboa, o tradicional “Mercadão”, em busca da medicina tradicional encontrada nos boxes dos remédios caseiros. Lá, além da copaíba, encontram-se ervas e outros ingredientes para chás e banhos, entre outras utilidades.

No local, há vendedoras tradicionais como Judith Braga Formoso, de 80 anos de idade e que comercializa a copaíba e outros remédios caseiros desde a década de 1960.

“A copaíba é boa para baques e até para reumatismo, assim como a andiroba. Se quiser beber, é bom com mel de abelha, quando a pessoa está com aquela gripe muito forte”, orienta ela. Uma curiosa e tradicional “terapia” passada de avós para filhos, e conhecida como “brocação”, é encharcar um pedaço de algodão no óleo da copaíba e introduzir com o dedo na garganta inflamada do doente.

“Aqui temos ervas medicinais como a cidreira, mastruz, hortelâzinho, arruda, catinga-de-mulata, mangarataia, jucá e outras. O jucá, por exemplo, você coloca na água e é bom para baques e como expectorante. O pessoal compra de tudo”, orienta a vendedora, do auto da sua experiência.

“Aqui representa tudo para mim. É a minha vida, daqui que eu vivo, que tiro meu sustento”, declara a manauense, que é viúva e não teve filhos. Em seu boxe, ela atendeu durante a entrevista a dona de casa Edilane da Silva, que procurava  para o seu filho de cinco meses que estava com catapora.

“Pode dar o chá da folha seca do sabugueiro para o seu filho. E não é pra fazer forte: faz fraquinho e vai dando colherzinhas de chá pra ele”, ensinou dona Judith para a mãe, que de um semblante ansioso, passou para uma fisionomia mais calma após a orientação “caseira”.

Frase

“Acho tarde a pesquisa sobre a copaíba, pois há muito tempo os indígenas não têm médicos e se cuidam pela natureza” (Alberto Matos, comerciante)

Estudo é pioneiro, diz mestre

Segundo o professor universitário Emerson Lima, o projeto de pesquisa do óleo da copaíba consiste em isolar substâncias do produto natural em escalas de gramas e fazer uma modificação química nesses compostos. O projeto rendeu até uma primeira publicação em revista internacional (Molecules 2015, 20(4), 6194-6210; doi: 10.3390/molecules20046194).

“Nós isolamos essas substâncias e fazemos as modificações estruturais nas moléculas, visando a síntese de novas moléculas mais ativas do que as naturais. Vislumbramos estudar a atividade anti-inflamatória em modelos, primeiramente, “in vitro” – processo feito normalmente em cultura de células – para verificar esse potencial e depois faremos os testes em vivos, utilizando animais em laboratórios”, explicou Lima.

Os testes em animais fazem parte da segunda etapa do estudo e a aplicação será feita em casos de artrite – inflamação de alguma articulação – para analisar a ação de cura desse processo. As substâncias mais ativas da copaíba, detectadas na primeira etapa, é que serão utilizadas nos testes.

Para Emerson, o estudo traz uma enorme vantagem para a área de pesquisas no Estado, visto que é um estudo pioneiro, utilizando uma abordagem multidisciplinar e pode testar, assim, um grande número de compostos, com grande possibilidade de encontrar substâncias ativas.

De acordo com o pesquisador, os primeiros resultados da segunda fase do estudo já estão prontos e apontam dados bastante positivos.

O objetivo final do projeto de pesquisa é gerar patentes e utilizar o resultado do estudo na área farmacêutica e medicinal. “O que nós queremos é incentivar outros pesquisadores a avançarem em estudos nessa área, mostrando que a Amazônia é rica em matérias-primas que podem ser manipuladas para o uso farmacêutico e medicinal, trazendo benefícios para a população”, disse ele.

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