Segunda-feira, 09 de Dezembro de 2019
DESCOBERTA

Pesquisadores descobrem complexo arqueológico na Amazônia Central

Região do Médio Solimões, no Amazonas, pode ter sido densamente povoada antes da chegada dos europeus



foto_1_C481F35A-2E73-4B8E-B1DD-FD3ACFFE465E.JPG Foto: Bernardo Oliveira/Instituto Mamirauá
09/09/2019 às 19:21

As crônicas de Gaspar de Carvajal, padre espanhol que navegou pelo rio Amazonas no século 16, descrevem uma área repleta de aldeias indígenas. Por muito tempo, esses registros foram tidos como exagerados e até fantasiosos. Entretanto, uma expedição arqueológica realizada na comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha, na Floresta Nacional de Tefé, no Amazonas, mostrou o contrário. Foram encontrados diversos indícios de que a região pode ter sido habitada por muitas pessoas no passado.

A Floresta Nacional de Tefé (Flona) é uma unidade de conservação federal sob gestão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Lá foi o local onde foi localizado um grande complexo arqueológico. “Não podemos dizer que é um sítio arqueológico só. O que a gente está vendo é um complexo arqueológico de vários sítios, que podem ter histórias diferentes, mas que estão interligadas”, revela Rafael Lopes, pesquisador associado do Grupo de Pesquisa em Arqueologia e Gestão do Patrimônio Cultural da Amazônia do Instituto Mamirauá, organização social fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).



A expedição envolveu mais de 40 pessoas durante um mês de trabalho e encontrou uma grande quantidade vestígios arqueológicos de pelo menos cinco ocupações humanas diferentes no local. Algumas delas, como as cerâmicas da tradição Pocó, podem ser datadas de até 3 mil anos atrás. As diferentes tradições são conjuntos de vestígios em cerâmica, como vasos e urnas funerárias, com padrões como decorações e adornos similares e que estão relacionadas a períodos específicos.

O complexo arqueológico é marcado pela presença de um vasto castanhal que, segundo moradores locais, apesar de se estender por quilômetros, não se prolonga por mais de 500 metros na mata em relação à praia.

O padrão não natural na dispersão dessas castanheiras é mais um indício de que a área abrigou uma grande quantidade de pessoas que, provavelmente, já manejavam essa e outras espécies vegetais há centenas ou milhares de anos. Outra evidência é a presença de terra preta – solo extremamente fértil associado a ocupações humanas de longa duração em um mesmo local.

Além do material cerâmico, foram coletados carvões de sementes e material lenhoso, que permitirão uma maior compreensão das datas associadas às diferentes ocupações encontradas no local e de como elas se relacionavam com a paisagem. “O mais impressionante do sítio foi a diversidade do contexto arqueológico que ele mostrou. Ficamos um mês aqui trabalhando e conhecemos 1% dele”, conta Rafael.

A Tradição Policroma da Amazônia

A louça descrita pelo padre espanhol assemelha-se à produção cerâmica conhecida como Tradição Policroma da Amazônia (TPA), caracterizada por suas decorações acanaladas e pelo uso de tintas marrom, vermelha e preta sobre engobo branco.

Acredita-se que esse tipo de produção cerâmica, de datações que vão do século 6 até a chegada dos europeus, fosse comum na Amazônia na época do contato dos colonizadores com as populações indígenas. A maior parte do material encontrado na Ponta da Castanha foi associado a essa tradição.

O complexo arqueológico pode conter informações importantes sobre as pessoas que moldavam seus artefatos com esse padrão estético. "Por aqui nós temos datas bem recuadas para essa tradição e, ao mesmo tempo, datas bem recentes", explica Rafael, cuja pesquisa de doutorado tem como objeto a TPA.

Segundo o pesquisador, a TPA pode ser encontrada em sítios arqueológicos associada a outras produções cerâmicas em datações que vão até o século 12, a partir do qual apenas o material da TPA é encontrado. "Isso pode estar associado a uma transformação histórica que acontece por toda a Amazônia e que transforma também a escolha dos lugares onde se ocuparia. Acredito que há um crescimento muito maior das ocupações associadas à beira do rio Solimões, enquanto anteriormente os grandes sítios estão associados a lagos".

"A partir do século 12 pode ter ocorrido essa transformação que levou as pessoas a abandonarem esses sítios ou reocuparem eles de outras formas", explicou Rafael. “Pode ser pensado um padrão como é o de hoje com a cidade de Tefé, onde as grandes cidades do rio Solimões ficam na beira desse rio, enquanto nos lagos a gente encontra comunidades. São comunidades grandes, mas que comparadas às cidades, são muito pequenas", completou.

De acordo com Rafael, as estimativas mais concretas apontam que cerca de 10 milhões de pessoas viviam na Amazônia no momento da chegada dos europeus. Além disso, a Tradição Policroma da Amazônia tem ampla dispersão, especialmente no oeste amazônico, o que pode indicar conexões entre grupos muito distantes e redes de troca de longa distância. "Essas pessoas estão se encontrando e comunicando histórias parecidas, identidades relacionadas e essa marcação específica que é a cerâmica policroma", pontuou.

Essa dispersão, segundo ele, aconteceu rapidamente a partir do século 10 e pode estar associada ao processo de expansão dos povos de língua tupi. "São processos muito rápidos, associados a guerras, trocas e festas, que vão transformando totalmente a paisagem sociopolítica das regiões onde eles chegam", acrescentou.

Trabalho de campo

Além do GP em Arqueologia, o trabalho de campo envolveu pesquisadores do Grupo de Pesquisa em Ecologia Florestal do Instituto Mamirauá, que realizaram um inventário florístico do local procurando entender como o manejo humano pode ter influenciado na paisagem local.

Os pesquisadores contaram também com o apoio dos moradores da comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha que, além de trabalharam nas escavações, emprestaram suas casas e o centro comunitário para abrigar os cientistas.

Para o presidente da comunidade, Jucelino Oliveira da Costa, foi uma surpresa encontrar tanto material arqueológico na Ponta da Castanha. “Eu não sabia que a gente pisava em cima dessas riquezas. Para nós, é muito importante saber o que tem enterrado aqui embaixo desse chão", contou.

Também participaram da expedição pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Sergipe (UFS) e a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).

Eduardo Neves, arqueólogo do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, considera que o sítio tem grande potencial para o estudo das diferentes ocupações que ocorreram nessa região da Amazônia. “Não só pela parte da arqueologia, mas essa perspectiva de integração entre a arqueologia e a história da paisagem. Temos questões muito relevantes aqui para a arqueologia de toda a Amazônia", disse.

*Com informações de Assessoria

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