Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
EMBOSCADA

PF investiga assassinato de líder indígena 'Guardião da Floresta'

Paulo Paulino Guajajara foi vítima de uma emboscada na terra indígena de Arariboia, no Maranhão, na sexta-feira (1)



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04/11/2019 às 11:59

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, anuciou neste segunda-feira (04) que a Polícia Federal abriu investigação sobre o  assassinato do líder indígena Paulo Paulino Guajajara na terra indígena de Arariboia, no Maranhão.

“Não pouparemos esforços para levar os responsáveis por este crime grave à Justiça”, disse ele, no Twitter. A PF, segundo sua assesessoria, disse que uma equipe de policiais da Superintendência Regional do Maranhão está se deslocando para a localidade, com o objetivo de apurar todas as circunstâncias do fato.



Madeireiros ilegais na Amazônia emboscaram um grupo indígena formado para proteger a floresta e mataram a tiros um jovem guerreiro e feriram outro, disseram neste sábado líderes da tribo Guajajara no norte do Brasil.

Paulo Paulino Guajajara, ou Lobo, estava caçando na sexta-feira dentro da reserva de Arariboia, no Maranhão, quando foi atacado e baleado na cabeça. Outro Guajajara, Laercio, foi ferido, mas escapou, disseram os indígenas.

O confronto ocorre em meio a um aumento nas invasões de reservas de madeireiros e mineiros ilegais desde que o presidente de direita Jair Bolsonaro assumiu o cargo este ano e prometeu abrir terras indígenas protegidas para o desenvolvimento econômico.

“O governo Bolsonaro tem sangue indígena em suas mãos”, disse a organização pan-indígena brasileira APIB, que representa muitos dos 900.000 habitantes do país, em comunicado no sábado.

“O aumento da violência em territórios indígenas é resultado direto de seus discursos odiosos e medidas tomadas contra nosso povo”, afirmou a APIB.

A líder da APIB, Sonia Guajajara, disse que o governo está desmantelando agências ambientais e indígenas e deixando tribos para se defender da invasão de suas terras.

“É hora de dizer basta sobre este genocídio institucionalizado”, disse ela em um post no Twitter.

Os Guajajaras, um dos maiores grupos indígenas do Brasil, com cerca de 20 mil habitantes, criaram os Guardiões da Floresta para patrulhar uma vasta reserva. A área é tão grande que uma tribo pequena e ameaçada de extinção, os Awá Guajá, vive nas profundezas da floresta sem nenhum contato com o mundo exterior.

Paulino Guajajara, que estava na casa dos vinte anos e deixa um filho, disse à Reuters em entrevista na reserva em setembro que proteger a floresta dos intrusos havia se tornado uma tarefa perigosa, mas seu povo não podia ceder ao medo.

“Às vezes, tenho medo, mas temos que levantar a cabeça e agir. Estamos aqui lutando”, disse ele, enquanto ele e outros guerreiros se preparavam para atravessar a floresta em direção a um campo de corte de madeira.

“Estamos protegendo nossa terra e a vida nela, os animais, os pássaros e até os Awá que também estão aqui”, disse Paulino Guajajara na época. “Há tanta destruição da natureza acontecendo, boas árvores com madeira tão dura quanto aço sendo cortadas e levadas”.

“Temos que preservar esta vida para o futuro dos nossos filhos”, disse ele.

Nota do CIMI

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) divulgou uma Nota sobre o assassinato de Paulo Paulino Guajajara, ocorrido na noite de sexta-feira (1) no interior da Terra Indígena Arariboia, no Maranhão. O indígena tinha 26 anos e deixa esposa e um filho.

Segundo a Nota, Paulino Guajajara e Laércio Souza Silva partiram da aldeia Lagoa Comprida, norte da Terra Indígena, a 100 km do município de Amarante, para caçar. Já na mata, foram surpreendidos por cinco madeireiros armados.

Os homens, com as armas em punho, exigiram que Paulino e Laércio entregassem arcos e flechas, instrumentos tradicionais usados para caçar. Como Guardiões da Floresta, portanto conhecidos destes habituais invasores da Terra Indígena, os Guajajara não tiveram muita chance de defesa.

Sem esperar qualquer reação, os madeireiros - afirma a nota -, em maior número, começaram a atirar contra os indígenas. Um dos disparos atingiu Paulino no rosto. Laércio foi alvejado no braço e nas costas.

Conforme Laércio, que relatou todo o episódio, eles não tiveram tempo de fugir ou se proteger. Só depois que viu Paulino caído, já sem vida, Laércio percebeu que não teria chance e escapou pela mata, debaixo de tiros, regressando à aldeia, onde pediu ajuda.

Um batalhão da Polícia Civil de Amarante se dirigiu ao local, com o apoio de um helicóptero, e retirou o corpo de Paulino da mata levando-o para a comunidade realizar o velório. Em análise preliminar, os policiais acreditam que se tratou de uma emboscada. Também afirmaram que não há nenhuma notícia de morte entre os madeireiros, conforme se ventila pela região.

Na Terra Indígena Arariboia, homologada e registrada em 1990 com 413 mil hectares, vivem cerca de 6 mil indígenas Guajajara, ou Tenetehar, e Awá-Guajá livres, ou seja, em situação de isolamento voluntário.

O Cimi vem denunciando o aumento das invasões dos territórios indígenas. Entre janeiro e setembro de 2019, o Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, do Cimi, contabilizou 160 casos de invasão a 153 terras indígenas de 19 estados.

O Conselho Indigenista Missionário se solidariza com os familiares do indígena assassinado e de Laércio, que sofreu uma tentativa de homicídio.


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