Publicidade
Amazônia
Estudo Piaçabeiros

Piaçabeiros de Barcelos, os 'seringueiros' de hoje

Dissertação de mestrado de professora aponta que piaçabeiros do interior sofrem os mesmos 'males' que haviam nos seringais 18/08/2013 às 15:41
Show 1
A professora Elieyd Souza de Menezes mostra o resultado da pesquisa que realizou em comunidades do município de Barcelos
Ana Celia Ossame Manaus

Jornadas de trabalho que não contam dias ou semanas, por períodos de até seis meses seguidos, executadas dentro das nas matas, em condições insalubres e sob risco de ataques de cobras, escorpiões e outros animais. A base é no barracão, onde a alimentação e a “dormida” são improvisadas. Não estamos falando dos tempos da economia borracha, mas as semelhanças entre a vida dos chamados ‘piaçabeiros’ no Município de Barcelos (a 405 quilômetros de Manaus) e dos seringueiros nos tempos áureos da extração da borracha, no início do século passado, não são meras coincidências.

E quem mostra isso é a dissertação de mestrado da professora Elieyd Souza de Menezes, 26, intitulada “Os Piaçabeiros no Médio Rio Negro: identidade étnica e conflitos territoriais”. Vencedora por unanimidade do prêmio Associação Brasileira de Antropologia e Cooperação Alemã para o Desenvolvimento Sustentável – Deutsche Gesellschaft fur Internationale Zusammenarbeit (GIZ). Fruto do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (Ppgas) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a pesquisa durou quatro anos e foi financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Elieyd pontuou a forma tradicional de extração e o conflito territorial com as populações indígenas como problemas principais dos extratores. “O piaçabal, lugar na floresta onde se encontram as palmeiras e onde acontece a produção, envolve um complexo de relações sociais e acaba oportunizando vários conflitos”, explicou Elieyd, citando a reivindicação dos indígenas pelo território ocupado pelos que se autodenominam “piaçabeiros” que são pescadores e indígenas de etnias como tariano, tukano, baniwa, baré, arapaço, werequena e tuyuca.

PAtrões

Os comerciantes, conhecidos como “patrões”, financiam a ida deles para os chamados piaçabais nativos. O fato de não ter horário definido para trabalhar não significa liberdade. Na verdade, segundo a pesquisadora, eles têm uma meta diária a cumprir e isso é necessário para saldar a dívida com os patrões. No tempo da economia da borracha, a produção nunca era suficiente para pagar o “investimento” do patrão com alimento e roupa, o que também acontece em Barcelos.

Uma diferença fundamental é que a relação de exploração é menor, na medida em que o piaçabeiro pode abandonar o trabalho, ainda que tenha a obrigação de saldar a dívida. “Os trabalhadores extrativistas da piaçaba estão imersos nesse jogo de poder e subordinação entre o sistema comercial vigente (“aviamento”) e as reivindicações de acesso aos recursos que podem ser assegurados mediante o domínio do território”, citou a pesquisadora, que visitou comunidades no rio Curuduri.

Insalubridade e risco à saúde

Uma das características da insalubridade nos piaçabais é o risco de picadas de animais como o barbeiro, transmissor da Doença de Chagas e escorpiões, lacraias e outros. O índice de picadas de cobras também é alto. Como atuam com pouco material de trabalho, eles ficam expostos a esses animais que se escondem nas palmeiras.

Para iniciar a retirada das fibras da palmeira, é preciso antes bater na árvore até espantar todos os animais que por acaso estejam alojados nas palmas. Mas um dado importante registrado pela pesquisadora Elieyd Menezes, é que, por dominarem técnicas tradicionais da retirada, eles nunca retiram o chamado “olho” da planta, o que garante a retirada sustentável da palmeira.

Como não têm tempo para caçar ou pescar, alguns piaçabeiros costumam se alimentar de chibé, feito de água, farinha e açúcar, ou escolhem um  trabalhador para fazer a comida e, no final do dia, dividem a produção com ele.

Publicidade
Publicidade