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População começa a deixar aos poucos o município de Boca do Acre por conta da cheia

Prefeitura estima que mais de 200 famílias já deixaram a cidade rumo a Rio Branco, capital do Estado do Acre. Quem não tem para onde ir permanece na cidade em abrigos ou em casas alagadas 16/03/2015 às 10:16
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Cidade corre risco de ficar desabastecida
LÍVIA ANSELMO Boca do Acre (AM)

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A Prefeitura de Boca do Acre, município distante 1.028 quilômetros de Manaus, estima que mais de 200 famílias deixaram a cidade nas últimas duas semanas. Oito dos nove bairros da cidade estão inundados. A falta de água potável, a impossibilidade de locomoção e o medo dos estragos causados pela força da água dos rios Acre e Purus têm levado os moradores a procurar abrigo na capital Rio Branco (AC). No dia 10 de março a cidade entrou em estado de calamidade pública por conta da enchente e, até agora, é a única do Amazonas em situação extrema.

Com a cidade inundada, os taxistas se aglomeram na avenida do Desvio, única que ainda não foi para o fundo. Lá, eles esperam pela única corrida do dia: a viagem para Rio Branco. Adailton Farias Noronha, 42, conta que tem feito duas viagens dessas por semana, sempre com o carro cheio. “Muita gente decide ir porque está sem condições de ficar em casa. Alguns têm casas de parentes para ficar”, conta ele.

A viagem custa R$ 80 por pessoa e tem sido a única forma de ganhar dinheiro para quem trabalha com transporte na cidade. “É a única forma de ganhar um dinheiro, já que não se anda mais de táxi aqui na cidade”, contou o taxista Amauri Felício, 34.

Mudança

Mãe de duas crianças, a dona de casa Mary de Lima Souza, 20, decidiu deixar a casa para trás e ir com a irmã e os filhos para a casa da mãe. “Meu marido vai ficar por causa do trabalho e da casa”, contou. O problema é que a situação na capital acriana também é de calamidade pública, decretada em 4 de março.

Para sair do bairro em que mora e tentar pegar um transporte para deixar a cidade foi preciso um barco, segundo a professora Ivanilda Souza, 45. “Eu vou passar esse tempo na casa de parentes. Depois eu vejo como ajeito minha vida”, desabafa.

Abrigos Quem não tem condições de procurar outra cidade se abriga como pode. Mais de 375 pessoas estão morando em barracas instaladas pela Defesa Civil do Amazonas em áreas que não foram atingidas pela água. Algumas salvaram apenas roupas, colchões e alguns eletroeletrônicos.

Segundo o secretário da Defesa Civil, Roberto Rocha, muitas pessoas, apesar do risco, permanecem em suas casas por questões afetivas. “Isso dificulta nosso trabalho e faz com que tantas pessoas permaneçam em áreas perigosas”.

É o caso da desempregada Francisca Eliane Franco, 48, e do marido dela, Francisco Neto da Silva, 40, que há duas semanas estão com os sete filhos em uma das barracas. “Nós não queríamos sair da casa, mas ficamos com muito medo e saímos”, disse.

Ailton Henrique Pereira de Souza, 42, está se revezando entre o abrigo e a vigilância da casa. Ele demorou a reconhecer a necessidade de sair, mas tomou a decisão porque tem um filho que ainda é de colo. “Demorei pra perceber a necessidade, saí mesmo porque não tinha mais jeito”, lembra.

Prejuízos

Boca do Acre tem uma população de pouco mais de 31 mil habitantes. Desses, segundo o prefeito, Iran Lima, mais de 20 mil já foram atingidos. Pelo menos 90 escolas (estaduais e municipais), central de abastecimento de água e postos de saúde, estão paralisados por conta da enchente. As 68 comunidades rurais também estão inudadas. Uma criança de 4 anos morreu afogada no último sábado, segundo o Corpo de Bombeiros.

De acordo com Iran, é impossível calcular quanto tempo a cidade levará para reestabelecer os serviços de educação, saúde e abastecimento de água das casas. “Nosso sistema de abastecimento de água está todo danificado, consultamos um técnico que disse não ser possível recuperar. Teremos que fazer um novo, que não custa menos de R$ 6 milhões”, destacou.

Além disso, Iran destacou que todas as escolas e ruas precisarão de reforma e que somente uma ajuda do Governo Federal poderá garantir isso. A cidade enfrenta também o risco de desabastecimento do comércio, segundo Roberto Rocha.

Ajuda humanitária só de avião

Foram distribuídas pela Defesa Civil do Estado do Amazonas mais de 36 toneladas de ajuda humanitária entre alimentos não perecíveis, kit’s medicamentos, kit’s dormitórios (redes, colchões, mosquiteiros), kit’s higiene pessoal, água potável, hipoclorito de sódio e filtros de água.

Também foi disponibilizada uma equipe do Corpo de Bombeiros do Amazonas, mergulhadores e agentes de apoio para intensificar a assistência as famílias.

De acordo com o coronel Roberto Rocha, a maior dificuldade pra levar ajuda aos tingidos é a logística. “Tudo precisa ser feito de avião. São voos longos, mas nós sabemos que é a única forma de chegar a tempo. Se enviássemos ajuda de Manaus por barco demoraria 11 dias, nas condições em que o rio se encontra”.

A previsão é que os rios Acre e Purus atinjam os 22 metros e a água comece a descer em no máximo três semanas. “Em 1997 a água chegou aos 23 metros. Dificilmente chegaremos a isso, mas ainda vai demorar um pouco para a água começar a baixar”, ressaltou.

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