Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ENTREVISTA DA SEMANA

'Precisamos mostrar que não é pouca floresta que vai ser queimada, é toda a floresta', diz Ennio Candotti

Novo cidadão da Amazonas, o pesquisador Ennio Candotti fala sobre a imensa riqueza da Amazônia e alerta: "Esse incêndio que a gente assiste quase que paralisados pela agressão do fogo e das pessoas que alimentam esse fogo só poderá ser vencido se todos na Amazônia estivermos convencidos que a floresta é importante"



candotti_DDFA0CEF-A50C-4734-AA3B-0BCA19D57706.jpg Candotti falou a A Crítica na semana em que recebeu o título de cidadão do Amazonas: 'Agora tenho que brigar como briga um filho da terra... Aos 77, acho que é um bom programa'
23/08/2019 às 22:07

Com mais de 40 anos dedicados à Física, às salas de aula e à pesquisa, o italiano Ennio Candotti naturalizou-se brasileiro em 1992 e na última semana recebeu o título de cidadão amazonense. Entre os feitos pelo Amazonas, está a criação do Museu da Amazônia (Musa) em um espaço da Reserva Florestal Adolpho Ducke que comporta diversas espécies da fauna e flora amazônica e recebe mensalmente cerca de 8 mil visitantes.  Na entrevista que você confere a seguir, o professor fala sobre aproximar a ciência das pessoas e, com isso, preservar o meio ambiente. Ele fala ainda sobre a atual situação científica e tecnológica do Brasil, e como nossas ações impactam na nossa vida e das futuras gerações. 


Como foi o nascimento do Musa?

Como presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), conheci muitas profissionais de outras áreas, de botânica, biologia, geologia, matemática, química e isso abriu as portas para um mundo multidisciplinar, e os museus em geral são multidisciplinares e foi isso que me trouxe a aceitar o desafio de construir o Museu da Amazônia. Ele nasceu da seguinte pergunta: No mundo todo se constroem espaços amazônicos, por que não criamos um Jardim Botânico em volta do que já temos? Essa ideia foi achada interessante pela professora Marilene Corrêa, da UEA, que me convidou para montar este museu na floresta. Conseguimos a cessão de uma faixa da Reserva Ducke para a instalação e as coleções que, em geral, estão nas vitrines nos museus tradicionais, aqui estão onde nasceram, crescem e vivem, junto com os insetos, plantas, fungos, pássaros.

Há também uma dedicação especial à cultura dos povos tradicionais?

Temos uma atenção às culturas tradicionais humanas que já viveram e sobreviveram, criaram seus modos de vida na floresta. Temos uma exposição dedicada à origem da humanidade, à prática de pesca, peixe-gente, uma vez que na mitologia tucano e tuiuca, os peixes e as gentes têm origem comum, e uma outra sobre a cultura tradicional da mandioca, que foi realizada junto com lideranças indígenas de Santa Izabel do Rio Negro. Estão aí há quatro anos e não dão sinais de esgotamento, tem sempre alguma coisa a acrescentar, a ajustar. Elas têm um acervo interessante. Pensamos em agregar outras exposições, mas não substituir essa. Estamos montando uma sobre a paleontologia, a vida há 100 milhões de anos na Amazônia. Os jacarés gigantes, as preguiças gigantes e a história geológica da Amazônia, onde mostraremos a vida geológica e paleontológica da floresta, além da própria floresta. A previsão é para janeiro.

É possível conciliar a preservação e a pecuária?

É muito simples: criar gado onde não há alternativas mais valiosas, fazendo o possível para (antes) extrair essas alternativas e produzir substância de grande valor no mercado, além das razões de preservação da diversidade, de tudo aquilo que não se conhece. Imagina isso como uma grande biblioteca. A gente sabe ler meia dúzia de livros e existem milhões de livros. O fato de a gente não saber ler esses livros nos autoriza a queimá-los? É uma insanidade que não tem tamanho e daqui a uma dezena de anos vamos ser acusados. Esse incêndio que a gente assiste quase que paralisados pela agressão do fogo e das pessoas que alimentam esse fogo só poderá ser vencido se todos na Amazônia estivermos convencidos que a floresta é importante. Se olhássemos com mais cuidado, provavelmente não substituiríamos as florestas por duas cabeças de gado porque isso é uma insanidade. Os produtos naturais que as plantas sintetizam têm valores de R$ 1 mil reais cada miligrama. A carne do boi é R$ 5 a R$ 10 por quilo. As plantas produzem substâncias como a bergonina, o uxi amarelo e que são vendidas no comércio internacional a R$ 1 mil o miligrama. O que está impregnado na casca das árvores vale mais que o ouro e nós destruímos isso?  

O senhor teve grande parte da vida dedicado à divulgação científica. Acha que as pessoas compreendem a importância da pesquisa?

Não é simples porque se exige que as pessoas acreditem em fatos que muitas vezes estão longe do seu alcance. Nós conseguimos explicar com clareza que um objeto cai no chão se for abandonado, antigamente se achava que era uma coisa excepcional, mas foi explicando-se tudo. Aquilo que se sabe é muito pouco e é preciso estudar mais, para isso existe Capes, CNPq, as universidades, todo um sistema. O principal objetivo é entender para explicar, qual a pergunta e porque essa pergunta é importante. Todos nós vivemos com ar-condicionado, refrigerador e tudo isso é fruto de uma evolução lenta, de uma busca. Nós precisamos de laboratórios vivos como jardim botânico, natureza, lugares onde se pode encontrar explicação em diferentes níveis. Quando alguém vem aqui no Musa, mostramos que se retirar um galho, ele se regenera. Mas se tirarmos o braço de alguém, ele não cresce de novo. E aí temos uma coisa a aprender. Precisamos despertar a criança curiosa dentro de nós, que aos poucos vai criando uma casca grossa e acha que sabe de tudo, a ponto de queimar a floresta por não entender o que ela diz.  

O ensino no Brasil estimula esse conhecimento, esse vínculo com a natureza?

Não. Nas escolas do Amazonas não se fala do cacau, cupuaçu, taperebá, castanha, frutos daqui. Precisamos de livros que falem da história, dos frutos, dos animais, da geografia daqui. Temos mais do que o feijão (crescendo) no algodão para mostrar. Enquanto as escolas não se reconciliarem com as práticas, com o ambiente que estamos, vamos ter dificuldade porque o aluno vai acreditar que uma coisa é o livro e outra coisa é a natureza lá fora. Queima lá fora, mas não queima o livro. Não se entende que ao queimar lá fora, queima-se a possibilidade de verificar o que está escrito no livro. 

Como o senhor classifica a ciência no Brasil e os cortes de incentivos?

Estamos atravessando uma crise gravíssima, que é semelhante à crise vivida no governo Collor, quando os economistas que assessoravam o presidente também recomendaram fechar o CNPq e juntar com a Capes, e foi mostrado que isso é uma insanidade. Desmontar uma coisa que levou 50 anos para ser construída e que tem sua função, é como considerar a fisiologia de uma pessoa e dizer que se já tem coração, não precisa do fígado, dos pulmões. O sistema de formação, de apoio à pesquisa, é como o pulmão, enquanto que a Capes é como o sistema reprodutivo. A Capes é voltada para formar gente. O CNPq é como o oxigênio, para ganhar novos elementos para compreender o mundo e, eventualmente, extrair da natureza substâncias ou processos que possam ser de utilidade. Quando se fala em fundir, é desconhecer o processo de geração de conhecimento. A sugestão é uma marca do nosso tempo, um tempo obscurantista.

Como a comunidade científica pode agir para evitar esses desmanches?

Aqui na Amazônia temos meios muito eficientes. Se conseguirmos convencer a todos que é preciso preservar a floresta porque ela contém valores muito maiores do que a terra rasa sobre a qual pode plantar soja ou pastar duas cabeças de gado, o passo seguinte é distinguir o mundo a se conhecer. As toxinas com as quais se fazem medicamentos anti-hipertensivos, por exemplo. Temos um imenso laboratório, invejado por todo o mundo, com máquinas que podem produzir produtos com grande valor para a humanidade e não queimamos e destruímos, como queimamos e destruímos os institutos que nos ajudariam a estudar. Se o CNPq for extinto, logo em seguida a Fapeam vai sofrer porque ela faz parte de um sistema de pesquisas. A comunidade científica está mobilizadíssima para que se entenda a importância desses institutos. Se essa política perseverar vamos para a lata de lixo da história. Manter essas instituições é uma questão de projeto de País, de futuro. Segurança nacional não é apenas da alçada no exército, mas de uma sociedade que se organiza, que aprende a conhecer, a associar direitos humanos, direitos específicos, coletivos e individuais, sistema de educação e de saúde. Um conjunto de  instituições capazes de garantir a soberania da nação. Isso está definido na Constituição. Fechar o CNPq é uma agressão à Constituição. 


Com os reflexos das queimadas chegando ao sudeste ganha-se mais notoriedade, mais preocupação?

Céu negro... Boa oportunidade para mostrar que o céu da Amazônia pode desabar sobre São Paulo. Clima, chuvas, ar, ventos e tempestades daqui chegam lá.

O manifesto em prol do ex-diretor do Inpe demonstra resistência? 

A credibilidade que a sociedade deposita em nossas instituições científicas foi construída ao longo de décadas divulgando com informações obtidas com rigor e severa avaliação de seu significado e impacto social. O CNPq foi fundado em 1950, o Inpe em 1971. Não se pode tolerar, sem denunciá-los, questionamentos infundados, suspeitas vagas, lançadas por membros do governo para desqualificar essa história e credibilidade. O nosso compromisso é com a sociedade, a nação e a verdade verificada com rigor científico de laboratório, não de botequim.

O congelamento de verbas para o Fundo Amazônia nos atinge diretamente?

Os recursos nacionais e internacionais são muito importantes. Não creio que se deva hostilizar um ou outro por razões de preferências, mas fazer o melhor uso do recurso, respeitando o princípio da soberania nacional, que é a capacidade de conhecer, de fazer boa ciência, bons processos com os recursos oferecidos por esta ou aquela agência, trabalhar bem o que se faz e multiplicar os recursos. 


Como se pode agir para preservar o que ainda resta?

O principal interlocutor é o povo da Amazônia. Precisamos mobilizar e mostrar que não é pouca floresta que vai ser queimada, é toda a floresta. Na natureza, existe um princípio importante que pode ser resumido assim: os peixes grandes comem os peixes pequenos, mas os dois precisam se reproduzir. Se os peixes grandes comem demais os pequenos, eles próprios não conseguem existir a ponto de se reproduzir, e morrem. Se nós destruirmos a floresta, ela não poderá se regenerar e colapsa. A floresta é muito valiosa. O conhecimento tradicional não só deve ser valorizados, mas deve ser entendido, deve se dar voz, direito, reconhecer sua especificidade. Os povos da Amazônia têm muito a contribuir. Eles conseguem associar a vida humana à vida das plantas, animais e insetos. Têm uma soberania e uma janela que se abre para olhar com outros olhos o que estamos vendo.  

O que significa para o senhor o título de cidadão amazonense?

É uma surpreendente e grande honra e responsabilidade. Até agora eu era um viajante, estava aqui como curioso. Agora não, agora sou filho da terra, agora tenho que ser chamado, ser cobrado pelo o que estou fazendo, então tenho que ser contundente nas minhas ações, minhas defesas e meus projetos. Tenho que brigar como briga um filho da terra pelo sucesso de suas iniciativas e por suas convicções. Aos 77, acho que é um bom programa.
 

Repórter de A Crítica

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