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Amazônia
DO VERDE ÀS CINZAS

Produtores clandestinos de carvão desmatam floresta para escapar da miséria no AM

No dia da Amazônia, reportagem mostra que impasses fundiários e ambientais e uma ‘demanda insustentável’ alimentam um “mercado cinza” de produção de carvão que submete carvoeiros ilegais a condições precárias de trabalho 05/09/2016 às 14:24 - Atualizado em 05/09/2016 às 14:26
Mônica Prestes Manaus (AM)

Nos últimos 13 anos o Amazonas perdeu quase 10 mil quilômetros quadrados de floresta para o desmatamento, o equivalente à ilha de Porto Rico, no Caribe, cinco vezes o território de Mônaco, na Europa, ou quase duas vezes a área do Distrito Federal, revelam dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).  Para quem não conhece nenhum dos três: a área que desmatamos corresponde a dez mil campos de futebol.

E de janeiro de 2015 a julho de 2016 foram mais 6.226 km² de área desmatada na Amazônia, 529 deles só em julho, quando o Amazonas liderou esse ingrato ranking, com 37% do total devastado na região, apontou boletim divulgado no fim de agosto pelo Instituto do Homem da Amazônia (Imazon).

Aos 29 anos de idade, Leandro Silva* (nome fictício) carrega nos ombros a responsabilidade de ter contribuído para esse cenário devastador, e ele não fez isso sozinho: desde os 16 anos a rotina dele é derrubar, cortar e queimar árvores para transformá-las em carvão e abastecer supermercados, restaurantes e nossos churrascos de domingo.

A produção clandestina de carvão que esse comércio alimenta abre feridas no verde da Amazônia, mas também deixa cicatrizes na vida de milhares de pessoas que sobrevivem em condições degradantes na floresta e dependem de uma atividade ilegal para fugir da miséria e afastar a ameaça da fome de suas casas. “Não sou um criminoso. Sei que o que eu faço é ilegal, mas a gente faz porque precisa, não porque quer. É um trabalho pesado, judia da pessoa. Eu mesmo não sei por quanto tempo mais vou aguentar viver aqui”, desabafa o jovem carvoeiro, enquanto organiza as toras extraídas de uma área recém desmatada por ele na carroceria da caminhonete - emprestada de um tio - para levá-las até o forno de carvão que construiu em sua pequena propriedade.

O desmatamento, desta vez, é em um ramal localizado na zona rural de Itacoatiara (município a 270 quilômetros de Manaus). Leandro, que assim como a maioria dos que trabalham com carvão naquela região segue uma “tradição familiar”, diz não ter ideia de quantas árvores derrubou desde a adolescência, quando entrou na atividade carvoeira. Mas neste terreno, num assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) encravado na mata virgem da Região Metropolitana de Manaus (RMM), são 17 hectares: três devem virar carvão nos próximos meses.

O trabalho é pesado e começa cedo: às 5h Leandro está de pé, preparando o café da manhã dos dois filhos, de 6 e 8 anos, para em seguida levá-los até a parada do ônibus escolar, às margens da rodovia AM-010.  Antes mesmo de o dia amanhecer, ele segue para o terreno do Incra que ocupou há seis anos, após uma vida inteira trabalhando como funcionário em carvoarias clandestinas.

Árvores no chão para dar lugar às queimadas e produção de carvão: cena comum nos ramais ao longo da AM-010 / Foto:Chico Batata

Ao longo dos quase dez quilômetros de ramal, por todo lado o que se vê são rastros da atividade carvoeira: árvores no chão, clareiras na mata, queimadas e fornos a todo vapor. “Aqui todo mundo vive do carvão. E não é porque é fácil, mas é a única opção por aqui”, revela Leandro, que nos últimos seis anos se dedica àquele pedaço de terra. E não é fácil mesmo: ele conta apenas com um ajudante para a atividade, que vai desde a derrubada das árvores até a produção do carvão em si, passando pela construção dos fornos. Serviço para mais de um mês.

Por isso, o trabalho vai das primeiras horas do dia até os últimos raios do sol. “Fica mais difícil porque não tem energia, aí também não tem água”, lembra ele.  É que a implantação das torres do Linhão de Tucuruí -  linha de transmissão que vai de Manaus a Boa Vista para gerar energia a partir da hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, e interligar a região ao Sistema Integrado Nacional do Ministério de Minas e Energia (MME) - que passa sobre as casas da comunidade onde ele mora, não levou àquele pedaço do Amazonas a tão sonhada energia elétrica.

Sem ela, o abastecimento de água depende de geradores movidos a diesel, comprado com o dinheiro da venda do carvão clandestino: duplamente insustentável. “A gente ouve a ‘zoada’ da energia passando aí nas nossas cabeças, mas a luz ficou só na promessa...”, diz o carvoeiro, que ainda aguarda a chegada do programa Luz Para Todos.

Sacrifício, suor e lágrimas

Entre as idas e vindas carregando toras sob um sol escaldante e um calor de 39°C, o corpo reclama e Leandro desabafa. “Preciso deixar o carvão, vingar a plantação, arrumar um emprego... Estou numa idade em que as dores vão chegando e a gente não tem condições de trabalhar muito no pesado”, disse ele, que em breve completará 30 anos. Leandro reclama da ardência nos olhos, dores na coluna e problemas respiratórios, reflexos de quase 14 anos em carvoarias.

O peso excessivo e as péssimas condições de trabalho acarretam problemas de saúde aos carvoeiros / Foto:Chico Batata

E a preocupação dele com a saúde dele não é em vão: um estudo da professora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e doutora em química ambiental, Sonia Hess, revelou que os trabalhadores de carvoarias são expostos a mais de 130 substâncias, entre elas o monóxido de carbono, amônia e metano, que podem aumentar significativamente o risco de doenças respiratórias, cardiovasculares e, principalmente, câncer. Sem falar nos danos à coluna e às articulações. “Um abrangente estudo encontrou risco aumentado de mortalidade relacionada à poluição do ar que variou de 8% a 18%, para diversos tipos de doenças cardíacas”, relata ela, na pesquisa ‘Riscos à Saúde do Trabalhador na Produção de Carvão Vegetal em Carvoarias’.

Enquanto o ajudante organiza o carvão nos fornos, Leandro cuida das primeiras mudas de laranja que plantou em uma parte do terreno. Os pés ainda são pequenos demais para dar frutos, mas bastam para alimentar nele a esperança de um dia deixar a clandestinidade.

Como muitos outros pequenos carvoeiros espalhados pela Região Metropolitana de Manaus (RMM) conscientes de sua condição ilegal, ele aponta a omissão do poder público como um dos pilares para a manutenção de uma atividade que perpetua agressões diárias contra a natureza e a própria dignidade humana. E que, em muitos casos, começam ainda na infância.

Foi assim com Leandro, com os amigos dele e, ainda hoje, a presença de crianças e adolescentes é uma realidade nas carvoarias da Amazônia. O carvão o afastou das salas de aula, mas ele ainda foi “longe”: conseguiu concluir o ensino médio, trabalhando durante o dia e estudando à noite. Mas parou por aí.  “É uma vida que não quero para os meus filhos. Me sacrifico hoje pra que eles possam estudar, ter outra vida, mas meu sonho é fazer faculdade... de educação física: quero ser professor”, revela com os olhos marejados, talvez pelo suor que escorria do rosto, pela fumaça das queimadas ou pela emoção ao falar do futuro. 

A feição do rosto dele muda  quanto o assunto é a fiscalização dos órgãos ambientais. Quem vive na ilegalidade acusa o Estado de ser negligente ao assentar as famílias no meio da floresta e abandoná-las à própria sorte, atravancando as pequenas produções rurais com a burocracia e mecanismos ultrapassados – e muitas vezes fraudulentos - de licenciamento e fiscalização.  “O governo assentou a gente aqui no meio da floresta, mas bota dificuldades na nossa sobrevivência. Se os fiscais aparecem, além da multa, perco todas as minhas ferramentas. Ilegal a gente trabalha com medo. Espero que em mais uns seis anos já dê pra largar o carvão”, disse.

O plano, revelou, é viver da plantação de laranja. “Só pra comprar as mudas e material pra plantar, como nitrogênio e NPK, foi R$ 4 mil. Isso tudo eu paguei com o carvão ilegal. Não é dinheiro fácil, mas é certo”.

Risco Amazônia

Não bastassem os obstáculos para trabalhar legalmente, a estiagem prolongada que afetou a região no início deste ano, deixando municípios do interior do Amazonas em situação de emergência por conta da seca, também vem atrapalhando os planos de Leandro, que perdeu nada mais nada menos que metade dos pés de laranja que plantou. “Perdi 200. Confesso que é desanimador”, desabafou.

Quem vivia de plantação de laranjas se prejudicou com a estiagem / Foto: Chico Batata

E não foi só ele: em todo o Amazonas mais de cinco mil toneladas de produtos agropecuários foram perdidas por conta da seca fora de época, mais um entre tantos reflexos do aquecimento global agravados pelo “El Nino Godzila”, como o fenômeno deste ano foi chamado pelos especialistas. O prejuízo na produção rural do Estado passou de R$ 5 milhões, com mais de 2.348 famílias afetadas em apenas quatro municípios amazonenses: São Gabriel da Cachoeira, Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e Presidente Figueiredo, onde as perdas foram maiores. 

Os dados são da Secretaria de Estado de Produção Rural (Sepror) e apontam para uma outra preocupação: a intensificação dos crimes ambientais, uma vez que, com o agravamento da crise econômica, crescem os crimes ambientais, alertou o titular da Secretaria de Estado de Política Fundiária do Amazonas (SPF), Ivanhoé Mendes. Coincidência ou não, dados do Inpe revelam que a taxa de desmatamento no Amazonas, que vinha numa tendência de queda nas últimas décadas, aumentou 54% no período 2014-2015, atingindo 769 km² de área desmatada, a 11ª maior taxa em 28 anos de monitoramento e a maior desde 2007. “É impossível combater os crimes ambientais sem combater a pobreza na Amazônia”, provocou Mendes.

Entre os crimes ambientais que crescem com a crise está o desmatamento ilegal para a produção clandestina de carvão e lenha, revela o secretário de Meio Ambiente do Amazonas, Antônio Ademir Stroski. “É uma preocupação, tendo em vista que essas famílias que perderam a produção precisam comer, se vestir, enfim, viver. E elas vão fazer o que for necessário para isso, mesmo que seja ilegal. E não podemos condená-las: elas só estão sobrevivendo”, pondera.

Produtor de carvão ouvido pela reportagem diz que "só derruba o necessário" / Foto: Chico Batata

É para sobreviver que Ricardo Lima* (nome fictício), 33, garante que, mesmo sem licença e longe dos olhos da fiscalização, “só derruba o necessário”. Só que, até que o plantio dele seja suficiente para sustentar a mulher e os filhos, será “necessário” desmatar mais seis hectares de floresta, coisa que ele faz sem nenhum tipo de estudo de impacto ambiental.

O destino dessas árvores, como na maioria das comunidades rurais daquela região de Rio Preto da Eva (município a 80 quilômetros de Manaus) onde ele vive com a mulher e os filhos, é a produção ilegal de carvão, cadeia que Ricardo compara com a do tráfico de drogas.  “O carvão é tipo uma droga. Eu sei que é um crime derrubar, mas a gente precisa sustentar a nossa família e tem o pessoal da cidade que trabalha com restaurante, churrasquinho e precisa disso. Eu faço porque preciso do dinheiro, eles precisam da madeira, e eu não tenho outro ganho, aí eu vou e derrubo”, disse Ricardo, minutos após cortar, sem licença ambiental, um apazeiro que, mais tarde, seria transformado em 30 sacos de 30kg de carvão, algo em torno de R$ 270. O destino dos sacos? Adivinhou se falou Manaus.

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