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Projeção de cheia branda no rio Negro gera alerta para possível grande vazante

Diferente dos últimos cinco anos, a projeção é que a cheia do rio Negro deste ano seja mais branda, segundo o CRPM, situação que deverá ter desdobramentos na vazante; maior seca da história foi registrada em 2010 02/05/2016 às 23:25 - Atualizado em 02/05/2016 às 23:35
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Há a possibilidade de uma grande seca na região, que deve impactar em setores como a navegação (Foto: Márcio Silva)
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Se por um lado existe a tendência atual de que a cheia do rio Negro neste ano seja menor que períodos anteriores, por outro ela revela a possibilidade de uma grande seca na região amazônica talvez, até superior a vazante de 2010, a maior da história. O temor foi confirmado pela Defesa Civil do Estado, que já se prepara para uma grande seca nos rios amazônicos.

Diferente dos últimos cinco anos, a projeção é que a cheia do rio Negro deste ano seja mais branda, segundo informações repassadas na manhã de ontem, pelo Serviço Geológico do Brasil (CRPM) em parceria com o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) e órgãos de Defesa Civil do Estado e do Município, no segundo alerta de cheia para a região.

No levantamento feito pelo CPRM levando em conta os meses de fevereiro a abril deste ano, a cota máxima deve oscilar entre 26,90m a 27,50m, bem inferior a considerada de emergência para inundações, que é 28,94 metros.

Ontem, a cota do rio Negro atingiu 25,57m, contra 28,15m do mesmo período do ano passado – 2,58 metros menor que 2015. Ainda em 2015, a máxima foi registrada em 29 de junho, com 29,66m

A menor cota de vazante do rio Negro foi registrada em 2010, chegando a 13,63m (a atual cota de emergência). Naquele ano, a seca afetou 56 municípios e prejudicou 102 mil famílias de acordo com a Defesa Civil estadual. Já a maior cheia ocorreu em 2012, alcançando 29,97m.


A pesquisadora Luna Gripp, especialista em Geociências da CPRM, durante o 2º alerta de cheias (Foto: Paulo André Nunes)

“É muito alta a possibilidade dessa grande seca acontecer em face do comportamento atual do clima e da chuva abaixo do normal no último trimestre, segundo mostrou o Sipam. É um indicativo negativo. Precisaria de uma chuva acima do normal para não afetar o rio. Já estamos com déficit de chuva para o período e quando secar vem o impacto calha abaixo. Mas a Defesa Civil está preparada caso essa seca aconteça dentro do nosso Plano de Contingenciamento nas esferas estadual, municipal e federal junto aos municípios. Estamos acompanhando o comportamento da TSM (temperatura da superfície do mar) que indica o comportamento do el Niño. Se o fenômeno retornar, aí sim poderemos ter uma grande seca, talvez até pior que 2010”, comentou Hermógenes Rabelo, secretário adjunto da Defesa Civil do Estado.

“Isso depende do comportamento do clima neste próprio ano. Se tiver alteração, esse problema será detectado entre setembro e outubro. Mas é claro que a possibilidade aumenta com o impacto da seca, como em 2010, apesar da estiagem ter sido maior em 2009. Em 2014, a maior cheia da calha do Médio Solimões baixou bastante e, em 2015, foi grande o índice de queimadas”, ressalta o secretário adjunto.

Segundo alerta de cheia

No primeiro alerta de cheia, divulgado no último dia 31 de março, o CPRM avaliou a cota máxima para o Negro entre 26,60m e 27,20m.

“A previsão desse segundo alerta de cheias emitido hoje indica uma cheia abaixo da média onde o rio Negro deve oscilar ao redor dos 27 metros. A previsão máxima é que ele alcance uma cota de 27,50m. Então, é uma cheia dentro da normalidade que não deve causar grandes transtornos e prejuízos à população ribeirinha, seja da capital Manaus, seja do próprio interior”, disse Marco Oliveira, superintendente regional do CPRM.

“Para nós é importante que essa informação seja repassada à população pois ela sofreu durante cinco anos e o período da cheia é difícil para o ribeirinho que não tem terra pra plantar, o peixe fica escasso e portanto, na medida que o rio volta à normalidade, a economia vai bem no interior e isso é bom para todo mundo”, destacou Marco Oliveira.

A cota de alerta de inundação foi estabelecida pela CPRM para a capital amazonense para que as autoridades possam agir nas áreas mais baixas de Manaus de forma a mitigar os efeitos da cheia sobre a população.

Chuvas de Manaus

As chuvas que caem em Manaus não influenciam na cota do rio Negro, esclarecem os especialistas: o O que influencia são as chuvas registradas principalmente na Cordilheira dos Andes e em toda a bacia. As chuvas que caem na cidade têm influência nos igarapés, mas no rio Negro a influência é mínima.

A incidência intensa do fenômeno El Niño provocou chuvas abaixo da média em todo o Amazonas, diz Marco Oliveira, superintendente da CPRM. “E o reflexo é direto no nível dos rios. Como choveu pouco, então o nível dos rios está baixo para o período”, salienta. As chuvas atingem seu clímax na Amazônia é em junho, com exceção do Alto Rio Negro, onde se estende até julho ou agosto.

BLOG: Hermógenes Rabelo, secretário-adjunto da Defesa Civil do Estado

“Mas essa grande seca, se vier, não vai nos pegar de surpresa. A tendência é ter uma grande estiagem. A seca é dolosa porque gera dificuldade de acesso às comunidades isoladas. Às vezes só por via aérea ou por terra. Outro problema é que, em face dela, as pessoas deixam de consumir água potável e passam a tomar água contaminada, aumentando o índice de doenças . Quando de uma seca na região, as áreas mais vulneráveis são na região do Baixo Purus, Baixo Japurá e Médio e Baixo Solimões, nas cidades de Manacapuru até Patinms, pegando Borba e Nova Olinda.  Cada calha de rio possui uma cota de emergência para a seca: a de Manaus é 13,63 metros, registrada em 2010, e a segunda maior em 1963”.

Nível do rio baixo, vazante mais acentuada, diz CPRM

A cheia abaixo da média não significa que a estiagem possa ser mais severa neste e nos próximos anos, avalia Marco Oliveira, superintendente do CPRM.

Mas ele garante que há essa possibilidade: “É difícil falar agora sobre a estiagem pois depende das chuvas que ainda vão cair após o próprio período chuvoso. Mas, considerando que o nível dos rios está muito baixo, é provável que nós tenhamos também uma vazante um pouco mais acentuada do que registramos nos anos anteriores”.

“Na medida em que o rio Negro está com uma cota inferior a quase 2 metros em relação aos anos anteriores, isso se reflete em todas as calhas, seja no Juruá, no Purus, no Madeira e no próprio rio Amazonas”, disse ele.

Com cheia menor, agricultor da várzea vai colher o que plantou

Quando a cheia é grande, significa que o rio sobe antes. Então no mês de fevereiro as cotas já estão muito altas e a várzea já está alagada. Isso implica que nem sempre o agricultor consegue colher o que plantou. E isso ocorreu repetidamente nos últimos cinco anos, ressalta Marco Oliveira.

“Neste ano, não: foi dentro da normalidade, e portanto o agricultor conseguiu plantar na vazante, quando o rio tava baixo, e poder colher agora quando o rio começou a subir”, afirma ele.


O chefe da Divisão de Meteorologia do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), Ricardo Dallarosa (Foto: Paulo André Nunes)

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