Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
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Amazônia

Projeto transforma jovens ribeirinhos em cientistas por meio da educação ambiental

Aliando conhecimentos tradicionais aos científicos, o Instituto Piagaçu (IPi) tenta transformar jovens ribeirinhos em protagonistas da própria comunidade com formações que esclarecem a necessidade de preservar os recursos naturais da RDS–PP 


04/04/2015 às 14:19

Eles são jovens, uns mais que os outros, mas receberam a mesma missão: manter a tradição de seus pais e avós ao mesmo tempo em que preservam o meio ambiente para o futuro de seus filhos e netos. A ideia é aliar os conhecimentos tradicionais aos científicos dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus (RDS-PP), por meio do projeto de educação ambiental “Jovens Cientistas das Águas”.

Desde o ano passado, o Instituto Piagaçu (IPi), patrocinado pela Petrobras, uniu cerca de 100 jovens das comunidades ribeirinhas da região com o objetivo de potencializar a atuação deles enquanto lideranças e incentivar a reflexão sobre a preservação dos recursos naturais. Todo o projeto está sendo desenvolvido em quatro módulos. O penúltimo encontro, realizado em março, tratou justamente do manejo participativo dos recursos pesqueiros, que nos últimos anos se destaca, principalmente, pela pesca manejada do pirarucu na RDS-PP.

São atividades lúdicas, conversas com pescadores antigos e especialistas que fornecem informações aos futuros pescadores, mães e pais de famílias e líderes comunitários que hoje têm o privilégio de, desde cedo, trabalhar para que os recursos não se esgotem ou fiquem escassos.

O presidente do IPi, Felipe Rossoni, conta que a ideia de levar o projeto até a RDS-PP se justifica pela história das comunidades, que chegaram a enfrentar dificuldades por conta da falta de orientação. “Quando começamos a assessorar a pesca manejada nesta área o peixe já estava escasso. O que acontecia era que ninguém pescava seguindo regras, preservando as espécies mais novas para que elas se reproduzissem e essa reprodução substituísse o que havia sido tirado. Essa maneira de conduzir as atividades pesqueiras estava acabando com os recursos”, lembra.

Para que a preocupação e o drama não se repitam, Felipe conta que o mais importante dentro desse trabalho é não sobrepor a experiência científica aos conhecimentos tradicionais, levando em consideração sempre a forma como os pescadores se organizam para pescar e a importância da atividade para as famílias. “Não se pode mudar toda uma cultura impondo coisas, é preciso analisar, conversar e encaixar as regras e leis a essa realidade”.

Encontro de gerações

Para que os jovens cresçam conscientes da necessidade de preservar, antes, é preciso que eles entrem em contato real com as gerações passadas, que viram os peixes se tornarem escassos e, à força, descobriram a necessidade de implantar novos métodos.

Pescador de pirarucu há 30 anos, Rocky Protássio de Souza, 56, passou 25 anos praticando a pesca ilegal. Hoje ele sabe a importância de estar ao lado dos jovens. “Chegou uma época que nós não sabíamos se ia ter pirarucu aqui de novo. Tinha muito, quando comecei, mas foi diminuindo. Ainda bem que percebemos a tempo”, conta.

Rocky é um dos muitos pescadores que contestaram os novos métodos de pesca. “No começo a gente fica com medo, mas depois que dá certo, os peixes aparecem, fica tudo bem”, brinca.

Quem ouve com atenção tudo o que vem de quem segura os microfones é o pescador Amarildson da Costa Bastos, 27, que já é contador certificado do pirarucu. Apesar de estar à frente dos colegas, ele faz questão de participar. “Eu ainda sou jovem, vi meu pai pescar sem preocupação do futuro. Mas já sei que devo ir por outro caminho”, disse.

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Meninos e meninas unidos

Engana-se quem pensa que só os meninos podem e devem aprender sobre os benefícios da pesca manejada. As meninas, que no futuro pretendem estar cada vez mais inseridas, também são peças importantes na construção de novos líderes e na condução de um novo modelo de desenvolvimento.

“A ideia é que elas saibam tanto quando eles e não estejam fora dos assuntos. Elas também fazem parte das comunidades, seja como mães de família, que vão cuidar da casa quando os maridos estiverem ausentes por conta da pesca, ou como líderes que podem executar outras tarefas dentro do grupo”, destaca Irailton Bastos, pescador da Comunidade Itapuru, que há dez anos acreditou na possibilidade de mudanças.

Ramise Silva de Souza, 23, é uma das envolvidas. Para ela, é importante que não haja exclusão. “Nossas mães não aprenderam como nosso pais trabalhavam. As coisas mudaram, acho que quanto mais soubermos, mais podemos ajudar”, explica.

 “Todo o conteúdo que estou vendo não teria a oportunidade de ver na escola, nem em lugar nenhum. O melhor é saber que posso levar esse conhecimento para minha família e amigos na comunidade”, disse ela.

Histórico do Manejo

Desde 2010, algumas comunidades da RDS-PP fazem a pesca manejada do pirarucu. Após anos de trabalho que envolveram todas as etapas, a primeira pesca autorizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) foi de 119 peixes, em 2010. Para 2015, sete comunidades pretendem solicitar ao instituto a pesca de 1.180 unidades, com estimativa de 68 mil quilos.

Avanço

Para Felipe Rossoni, esse avanço ainda representa o início do projeto, já que o objetivo é atingir o máximo de pessoas possível. “A ideia é que todas as comunidades da RDS-PP façam manejo do pirarucu. São 57 comunidades, é difícil chegar a todos, é um trabalho de formiguinha que vai se fortalecendo”, ressaltou. Mais de 5 mil pessoas recebem o trabalho do IPi.


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