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Protetores dos sauins-de-coleira unem esforços pela preservação da espécie em Manaus

Cidadãos comuns lutam pela preservação dos sauins-de-coleira, uma espécie em extinção restrita à cidade de Manaus 29/12/2014 às 11:01
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Criticamente ameaçado, o sauim-de-coleira tende a se extinguir nos próximos 40 anos, segundo levantamentos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade(ICMBio)
luana carvalho ---

Compartilhar medidas simples de preservação fazem parte da rotina da técnica em eletrônica Suelen Fonseca, que acorda todos os dias às 6h para monitorar os sauins-de-coleira, primata endêmico da área urbana de Manaus. Além do vínculo afetivo com os animais, ela é uma das moradoras da cidade que lutam para que a espécie não desapareça.

“Tinha um (macaco) muito especial, o Chico. Foi o primeiro que aceitou contato. Ele vinha cedo e praticamente entrava na minha casa para pedir alimentos. Depois de um tempo ele sumiu, assim como outros também sumiram”, conta Suelen, que também é monitora voluntária do Projeto Sauim-de-Coleira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
Ela mora há uma década no bairro Nova Cidade, na Zona Norte de Manaus, e luta há pelo menos dois anos pela preservação de um fragmento florestal no entorno da casa dela.

Os macacos
Rosinha, Smurf, Zangado e Pintado são os sauins batizados por ela. Juntando mais dois filhotes que ainda não receberam nomes, o grupo forma a segunda família da voluntária.

Ela se comunica com os animais por meio de assobios. Os sinais logo são percebidos pelos macacos que, em bando, se aproximam da mulher. “Eu sinto que existe um apego da parte deles por mim. Mesmo sendo animais silvestres, criamos um laço afetivo e, quando eu não venho vê-los, eles vão até as árvores da minha casa me visitar”.

Além disso, ela coleciona histórias e arquivos fotográficos sobre os sauins. “Aprendi que eles são muito curiosos e vivem juntos, em comunidades. Quando a fêmea ganha filhotes, o grupo cuida dos bebês e ela só os amamenta. Eles são muito unidos e esfomeados, acordam e dormem bem cedo”, disse, antes de comentar sobre a maior luta dela em prol do meio ambiente.

A batalha
A construção da maior avenida da cidade, a Governador José Lindoso (das Torres) ameaça a vida dos animais que vivem na mata detrás da residência da voluntária. Para tentar reduzir o impacto, ela plantou árvores frutíferas e realiza um trabalho de educação ambiental no bairro. “Vivo tentando chamar a atenção de todos para preservar os sauins e os outros animais silvestres que ainda vivem aqui”.

A avenida das Torres continua sendo construída. A empresa responsável pela obra ficou de apresentar um levantamento de custos para verificar a possibilidade de se criarem travessias ecológicas e grades de proteção, entretanto, os moradores ainda não receberam uma resposta sobre o caso, segundo a técnica em eletrônica.

A Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinfra) informou que as “passagens de fauna” serão construídas e que o órgão está apenas aguardando a indicação dos locais onde as placas de sinalização deverão ser instaladas.

Conjunto verde

A angústia de ver os animais desaparecendo impulsionou moradores do Conjunto Acariquara, na Zona Leste, a propagarem boas ações para a preservação das áreas verdes do local. Lá, asfalto e concreto dão lugar ao verde e os bichos fazem a festa nas árvores de ingás, cupuaçus, abius, araçá-bois, entre outras frutas regionais.
Com a instalação de lombadas e placas nas ruas do conjunto, o número de acidentes com os bichos diminuiu. Mesmo sentindo falta do apoio de órgãospúblicos, os protetores dos sauins não desistem da causa.

É o caso da bióloga Erika Schloemp, que há 15 anos saiu do Rio de Janeiro para trabalhar no Amazonas. “Cheguei aqui e achei lindo ter macaco no meu quintal. Perder um bicho ameaçado de extinção é ridículo. Falta vontade do poder público. O sauim não pode ficar esperando planejamento”, desabafou.


Em 2011, os moradores conseguiram que o conjunto fosse considerado uma Área de Proteção Ambiental Municipal (APA). Uma página no Facebook (SOS Fragmentos e Sauim-de-Coleira) foi criada pela carioca para a divulgação de medidas simples de preservação, fazer denúncias e exigir que as leis ambientais sejam cumpridas.

No livro vermelho da extinção

O sauim-de-coleira (saguinus bicolor) está no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. A espécie tende a se extinguir nos próximos 40 anos, segundo levantamentos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

De acordo com o coordenador do Projeto Sauim-de-Coleira da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Marcelo Gordo,o desmatamento, a fragmentação da floresta e possivelmente a competição/interação negativa com saguinus midas(outra espécie de primata) são as principais causas de morte dos animais. As pesquisas do projeto da Ufam originaram a maior parte do conhecimento existente para a formulação do Plano de Ação Nacional do Sauim-de-coleira.

Os sauins-de-coleira desempenham vários serviços ambientais. O maior deles é  a dispersão de sementes frutíferas e manutenção do equilíbrio de vetores de doenças, uma vez  que eles também se alimentam de insetos.

Coabitando com os sauins-de-coleira

O analista ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Diogo Lagroteria, explica que, por conta da redução da oferta de alimentos, é comum que algumas pessoas alimentem os sauins-de-coleira. No entanto, existem algumas regras básicas que devem ser seguidas. “O ideal é que sejam utilizadas somente frutas e de preferência regionais”.  Outra recomendação importante é nunca tocar os animais, que podem se assustar e acabar mordendo. “Também oriento nunca utilizar alimentos consumidos por humanos, como biscoitos, salgadinhos ou doces. O mais certo é que os moradores protejam as áreas verdes onde os animais estão, e que eles se alimentem apenas de frutas, insetos e outros  alimentos naturais”, recomendou.


O pesquisador da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Marcelo Gordo, alertou sobre a aproximação do homem com o primata. “Em casos onde o fragmento é muito mal conservado e pequeno, havendo falta de comida, essa alimentação extra pode ajudá-los. Mas a aproximação pode ser perigosa para os dois lados. Acidentes com animais domésticos, fiação e atropelamentos podem ocorrer com mais facilidade”.

Gordo desenvolve pesquisas e trabalha com os sauins desde 1999. “Nosso projeto atua em diferentes frentes, fazendo pesquisas básicas sobre a espécie e a floresta onde habita, mas também com algumas ações de resgate, recuperação de animais atropelados, plantio de árvores em áreas degradadas e corredores ecológicos e eventualmente algumas palestras para educação ambiental”. 

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