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Amazônia
Pescado Contaminado

Alerta: pesquisadores estudam presença de mercúrio no organismo de ribeirinhos

Pesquisadores do Inpa se juntam a especialistas de outras partes do País para aprofundar estudo que apontou a presença de mercúrio em nível cinco vezes acima do indicado pela OMS no organismo da população ribeirinha 05/05/2016 às 00:15 - Atualizado em 05/05/2016 às 19:19
Show peixe
Presença elevada de mercúrio nos peixes serve de alerta para ribeirinhos (Foto: Márcio Silva)
Isabelle Valois Manaus (AM)

Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e outros pesquisadores do País tem se dedicado há três anos para a criação de uma metodologia do índice de vigilância do mercúrio que tem sido encontrado em altos teores nos ribeirinhos que vivem na bacia do Rio Negro. Conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), o ser humano pode ter no máximo 14 partes por um milhão do elemento químico no corpo, mas desde 1995 foi constato que os ribeirinhos chegam ter até 70 partes por um milhão.

A descoberta da presença alta do mercúrio se deu há 15 anos, quando o especialista em ecossistemas tropicais fluviais Bruce Forsberg, descobriu que o elemento químico tem a formação natural na composição do solo da região. Com o contato das águas do rio Negro, que possui o ph (que mede a acidez) menor que quatro, considerado um valor baixo, o mercúrio é oxidado e interage na cadeia alimentar. 

Como esses peixes se tornam a proteína do ribeirinho, são contaminados com o elemento químico. No caso das ribeirinhas que amamentam, foi constato a presença do teor de mercúrio no próprio leite materno que é repassado para o bebê no momento da amamentação.

Metodologia

Para criar uma metodologia de índice de vigilância, pesquisadores do Inpa e de várias universidades do País participaram, nesta semana, do 3º Workshop do projeto “Biomarcadores de toxidade de mercúrio aplicados ao setor hidrelétrico na Amazônia”, que dará continuidade à pesquisa de Bruce, coordenado pelo professor Luiz Fabrício Zara, da Universidade de Brasília (UnB). Ontem, a equipe de pesquisa foi visitar a comunidade de Nossa Senhora do Livramento, Zona Rural de Manaus, uma das comunidades que houve a coleta. Durante a visita foi entregue uma cópia dos resultados para a comunidade, onde no futuro possa pedir meios de políticas públicas para o combate do elemento químico. 

No percurso para a comunidade, o doutor em química ambiental, Pedro Fadine, que também colaborou na pesquisa de Bruce, explicou todo o processo de como foi encontrado o Mercúrio na região. “Este mercúrio que existe nesta área estuda, é de um processo natural não há a intervenção do homem ou de outros mecanismos. O elemento químico é formado pela composição do solo e esse metal se transfere para o rio. Como o ph do rio Negro é baixo, o mercúrio é oxidado e ele interage com a cadeia alimentar. Com a pesquisa encontramos um alto índice do mercúrio até mesmo nos peixes predadores que vivem nesta área do rio Negro e os ribeirinhos que consomem os peixes como fonte de proteína são os que apresentaram o maior índice da presença do mercúrio no organismo”, reforçou.

Quando é detectado o mercúrio a cima de 14 parte por milhão, o elemento químico pode ocasionar muitos problemas que vai desde a perda da coordenação motora, visão, paralisação de alguns órgãos vitais e há situações que pode gerar até a morte. Mas, no caso dos ribeirinhos, os pesquisadores descobriram que mesmo a presença alta do mercúrio, não há uma reação relevante com a química. “Trouxemos até uma doutora em genética para verificar se era algo relacionado com a genética desses moradores, mas essa possibilidade foi descartada. É possível que o caso esteja relacionado a dieta alimentar. Aqui na região é muito comum comer castanha-do-pará que é rico em selênio que é um mineral com um alto poder antioxidante. Esta é a nossa hipótese, mas precisa de estudos para entender como ocorre isso”, explicou Fadine.

Gestante transmite até 80% do concentrado no corpo ao bebê

Durante a pesquisa foi descoberto que as mulheres ribeirinhas, quando gestantes, chegam a repassar quase 80% de todo o mercúrio presente em seus organismos aos filhos, pelo cordão umbilical, mas a contaminação também se dá pelo aleitamento materno.  O associado do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas, Wilson Jardim, que também faz parte do projeto Biomarcadores de toxidade de mercúrio na Amazônia, disse que não se sabe o quanto isso pode afetar a população ribeirinha. “Precisamos gerar esses dados de alerta”, disse. Enquanto isso, Jardim orienta que se evite o consumo de peixes predadores. “Ainda ão conseguimos encontrar nenhum indivíduo com sintomas de  intoxicação. Mas aconselho evitar o consumo dos predadores, que são a fonte do elemento químico”.

Para o coordenador da pesquisa, Luís Fabrício Zara, alguns dos resultados são importantes. “Já identificamos várias metaloproteínas, que são ligadas ao mercúrio, forte candidatas a biomarcadores da toxicidade. Quando altera a concentração de mercúrio no ambiente, altera a concentração dessa substância no pescado. Isso nos cria um índice de vigilância fundamental para analisarmos os risco ao topo de cadeia, que somos nós”.

Garimpo foi o ‘alerta’

Em 1990 foi anunciada a instalação de balsas de garimpo nas proximidades do rio Negro. Preocupado com a contaminação, o especialistas em ecossistemas tropicais fluviais Bruce Forsberg resolveu iniciar a pesquisa sobre a presença do mercúrio nas águas do rio Negro, assim como as consequências para os peixes e a população.

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