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Amazônia
ESPECIAL

Conheça a história do desmatador que virou defensor da floresta amazônica

Madeireiro durante duas décadas, Roberto Brito é hoje um empreendedor sustentável da RDS Rio Negro e ambientalista 17/11/2018 às 15:55 - Atualizado em 19/11/2018 às 16:31
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Roberto recebeu jornalistas da América Latina no último fim de semana em sua comunidade, Tumbira. Foto: Rafaela Gonçalves/Enecob - 10/nov/2018
Luciano Falbo Manaus (AM)

Por mais de 20 anos, Roberto Brito de Mendonça, 43, extraiu madeira da floresta de forma ilegal. Na última década, no entanto, com a transformação da área onde mora em uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), ele abandonou a atividade e passou atuar no turismo, criando, em 2012, a Pousada do Garrido, que é uma das opções imediatas para uma imersão no modo de vida de ribeirinhos da Amazônia para quem visita a região a partir de Manaus.

A mudança radical não foi só da atividade econômica, foi uma transformação da sua concepção de mundo. Hoje ele é um reconhecido defensor da floresta.

Nascido e criado na comunidade Tumbira, hoje integrante da RDS Rio Negro, no Iranduba, a 77 quilôm etros em linha reta de Manaus, Roberto Brito conta que herdou a profissão do pai e que fez parte da terceira geração de madeireiros da família. 

“Cresci vendo meu pai fazendo isso, meu avô, e fui ser madeireiro. Com 12 anos de idade, eu já era derrubador de árvore na floresta com motosserra, com um 0.8, Stihl. Quando eu estava no mato desmatando, não tinha tanta clareza do dano do desmatamento, da degradação”, conta. “A atividade era de subsistência. Naquele tempo nem se falava em extração ilegal”, acrescenta.

“Tirávamos muita madeira para o meu sogro José Garrido, que construía barcos”.

Roberto diz ter mapeada de cabeça toda a região da RDS. A árvore que ele mais derrubava era a itaúba (Mezilaurus itauba), que não é encontrada com facilidade e pode chegar a 40 metros de altura. “Às vezes, eram seis horas igarapé adentro remando para encontrar a itaubeira. Por isso a gente tinha que acampar. Era trabalho pesado e sem futuro”.

Tirar madeira era muito mais que uma atividade econômica para ele, era motivo de orgulho. “Eu era um cara assim, que, nas coisas que faço, queria ser o melhor. Naquela época, eu olhava para a mata com a intenção de tirar a madeira. Eu olhava a árvore mais alta e dava um jeito de chegar nela para derrubar. Era a minha meta, meu desafio”, relata.

“Se alguém em falasse há 10 anos que eu ia parar de tirar madeira era arriscado essa pessoa apanhar de mim. Só que graças a Deus eu tive oportunidade de ver que é possível um desenvolvimento diferente. Fui meio que lapidado, adquiri conhecimentos novos. Hoje eu sei que é possível tirar madeira sem danificar e comprometer a floresta. É gratificante saber que vai ter futuro, que vai ter mata para as próximas gerações”.

“Hoje o meu olhar é diferente, eu vejo esperança, vejo oportunidade para os jovens através desse verde. Se isso tá trazendo desenvolvimento como eu queria, eu vou querer destruir? Não. Eu vou defender”, afirma.

  Foto: Rafaela Gonçalves/Enecob - 10/nov/2018

 
Um grito de socorro

“Eu derrubei tantas itaubeiras que, lá por 2006, uma itaubeira gritou que nem ser humano para mim. Quando meti a motosserra, numa árvore bem grande - toda árvore tem um caminho d'água que é centro, muitas têm água e, quando a gente corta, espirra, como sangue. Aquela água está ali anos e anos presa, só que dessa vez não tinha água e saiu um grito como de um ser humano lá de dentro”. 

“Na época eu não entendi muito, mas depois, com um olhar diferente para a floresta, uma conexão maior, eu me dei conta que foi o jeito que a natureza encontrou de pedir socorro para mim, foi gritando que nem ser humano, como se algo estivesse doendo demais nele. Quando você pega um  baque na perna, você grita, né? Pois eu acho que foi isso que aconteceu”.

Algum tempo depois, a fiscalização contra o desmatamento foi ficando mais severa e o trabalho, segundo Roberto, foi ficando “visado”. “A gente sobrevivia daquilo e, quando era pego por uma fiscalização, era tratado como bandido. Mas, a gente só fazia isso (a extração ilegal) para ter uma renda”, relata. Era preciso uma alternativa.

A proposta de criação da RDS Rio Negro foi vista inicialmente com desconfiança. “Falavam em reserva e ficamos com receio, mas, além de reserva, tinham as outras duas palavras que davam um pouco de esperança: desenvolvimento e sustentável”. 

Proposta de criação

Foi então que, em 2008, os comunitários da região, liderados por Roberto, iniciaram o diálogo para tirar a proposta de criação da RDS do papel. “Reunimos 10 comunidades para discutir a melhoria das nossas atividades e buscar educação também. A gente já sabia que só com educação tudo poderia melhorar. E quando foi da criação da reserva, a Fundação Amazonas Sustentável (FAS) já veio junto também”.

“Mas confesso que eu tinha um pé lá e outro aqui. Eu era líder da comunidade e nem acreditava (na geração de oportunidades com a criação da reserva), mas não podia dizer para os outros que era ilusão. Eu meio que fiquei apostando para todo mundo, mas eu mesmo não acreditava”. 

Em 2009 foi elaborado projeto de educação e em 2010 foi inaugurado o núcleo da FAS na comunidade, onde são realizadas as aulas. Passados dois anos, os comunitários ainda sentiam dificuldades em desenvolver as suas atividades de forma sustentável, atendendo aos requisitos da RDS.

“Vi que foi ruim no momento da transição (da extração ilegal para o manejo), mas melhorou muito depois. Mas, nessa transição, chegou um momento em que eu pensava ‘bom, já temos educação e agora não dá para tirar madeira’. Foi quando surgiu a ideia do professor Virgílio (Viana, superintendente da FAS) de eu receber visitantes, gente da própria FAS, pesquisadores. Só que, naquele momento, a sugestão entrou por aqui saiu por aqui”, relembra. 

A continuação desta história está na segunda parte da reportagem: Turismo de base comunitária abre as portas da RDS Rio Negro para o mundo

Sustentabilidade na pauta

A visita à comunidade Tumbira e a mesa de debates com o tema “As alternativas econômicas para a Floresta Amazônica” fizeram parte da programação da 13ª edição do Encontro Nacional de Editores, Colunistas, Repórteres e Blogueiros (Enecob) e do 2º Encuentro de Periódicos de Latinoamérica (e-latino), organizados pelo jornalista Leandro Mazzini, da Coluna Esplanada. Os eventos, que ocorreram de forma simultânea entre os dias 9 e 12 deste mês, foram uma co-realização da FAS e Fundo Amazônia, com patrocínio do Conselho Federal de Administração (CFA), Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Instituto Mobih e Empresa Estadual de Turismo do Amazonas (Amazonastur).

Confira as outras reportagens da série:

1 - Conheça o desmatador que virou defensor da floresta amazônica

2 - RDS Rio Negro: de portas abertas para o mundo com o turismo

3 - Especialistas e jornalistas latinoamericanos discutem o futuro da Amazônia

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