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Amazônia
ESPECIAL

Especialistas e jornalistas latino-americanos discutem o futuro da Amazônia

Expectativa quanto ao novo presidente do Brasil movimentou os debates de mesa de discussões na comunidade Tumbira 17/11/2018 às 17:33 - Atualizado em 19/11/2018 às 16:32
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Palestras seguidas de debate aberto a perguntas foram acompanhadas por jornalistas locais, além de profissionais da Argentina, Paraguai, Uruguai e México. Fotos: Rafaela Gonçalves/divulgação
Luciano Falbo Manaus (AM)

A expectativa quanto ao governo do novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (PSL), dominou os debates da mesa “As Alternativas Econômicas para a Floresta Amazônica”, que reuniu, na comunidade Tumbira, o coordenador de relacionamento institucional da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), Carlos Bueno, o professor Philip Fearnside, pesquisador do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e o ex-madeireiro Roberto Brito de Mendonça, que hoje é um empreendedor sustentável. As discussões, acompanhadas por jornalistas de vários veículos da América Latina, foram mediadas pela jornalista amazonense Liege Albuquerque.

O professor Philip Fearnside disse que entre os riscos já anunciados do novo governo está a saída do Brasil do Acordo de Paris, envolta a um discurso de negação das mudanças climáticas.

Fearnside, que em 2007 ganhou o prêmio Nobel da Paz com outros pesquisadores pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) das Nações Unidas (ONU), ressaltou que as alterações no clima já estão em curso, assim como os seus efeitos por aqui, como a mudança na chuva média na parte oriental da Amazônia, entre os rios Tocantins, Tapajós e Xingu.  

A previsão para os próximos anos, caso o ritmo na degradação da floresta amazônica permaneça alto, é catastrófica para todo o Brasil, mas com um impacto maior no Nordeste, que vai sofrer ainda mais com a falta de chuvas.

“As barragens vão deixar de gerar energia”, salientou. As usinas de Belo Monte e Santo  Antônio produzirão menos da metade da capacidade para qual foram construídas, asseverou.

O cientista disse que a comunidade científica do mundo inteiro está preocupada com a eleição de Jair Bolsonaro, principalmente pelo o que ele disse durante a campanha a respeito do meio ambiente, povos indígenas e investimento em pesquisa - cortes, nesse caso.  

 Foto: Rafaela Gonçalves/Enecob - 10/nov/2018

Questionado, Fearnside respondeu que é o importante diálogo entre a comunidade científica e os governos, mas prevê dificuldades. Apesar disso, ele vê um caminho para sensibilizar o presidente para as temáticas socioambientais da Amazônia: uma ponte por meio dos grupos que a gestão eleita costuma escutar, sendo estes os militares, os religiosos e, curiosamente, o agronegócio. 

“Os militares, já que o aquecimento global é um assunto de segurança nacional para o Brasil. Outros são os religiosos. Ele (Bolsonaro) tem forte apoio dessa bancada e correntes dentro desses grupos defendem a proteção da natureza”, explicou.

Sobre possível interesse do agronegócio por essas temáticas, Fearnside ressaltou que as mudanças climáticas representam um risco para a produção agrícola. “Não só pelo efeito efeito estufa, mas também pelo efeito do desmatamento da Amazônia sobre as chuvas  no resto do Brasil”, afirmou.

Sem correspondentes

A jornalista Liege Albuquerque, que tem passagens por veículos nacionais e contribuições com publicações internacionais, lembrou que os grandes jornais do País -com exceção da Folha de São Paulo, que tem um reporter para cobrir toda a Amazônia internacional -  não têm correspondentes na região. “Os  jornais brasileiros não têm um olhar para a Amazônia como  a imprensa estrangeira tem”, afirmou.

Quanto à expectativa pelo governo de Jair Bolsonaro, ela disse que o medo é de que o discurso dele não seja só bravata.

“O problema do novo presidente é que ele não escutou isso aqui que o Roberto (Brito, comunitário empreendedor do Tumbira) acabou de contar. Então essa é a grande preocupação, essa visão conservadora de que não existe aquecimento global e de que as ONGs estão protegendo loucamente as florestas e os bichos  e que não pensam nas pessoas, quando a gente sabe que acontece exatamente o que o Roberto falou: ele aprendeu a respeitar a floresta e aprendeu outra coisa, que é o turismo”, disse.

Preocupação na comunidade

Para A Crítica, Roberto Brito disse que a preocupação do governo central deveria ser com o desenvolvimento a longo e médio prazo. “Minha preocupação é muito grande com esse novo governo federal que vai entrar, porque eu vejo que o cara está pensando no crescimento do Brasil agora, mas ele está pensando daqui a 10, 15 anos? Não”.

“Ele está com essa meta de quatro anos. De que adianta eu ter um ano de crescimento da minha comunidade e depois que esse ano acabar ficar todo mundo sofrendo com a falta dos recursos, com pessoas mal assistidas?”, questionou

BR 319: risco ao sudoeste do Amazonas

Em sua exposição aos jornalistas do 13º Enecob e 2º e-latino,  o pesquisador Philip Fearnside também citou a pavimentação da BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho  (RO), como um indutor do desmatamento na região sudoeste do Estado do  Amazonas. 

“Tem essa área que é uma zona blindada”, explicou  ele, apontando no mapa para a região de reservas ambientais nas proximidades do arco do desmatamento. “Mas tem esse bloco, essa grande área aqui, que está aberta, que são terras públicas, as mais vulneráveis para a entrada de grileiros”, observou o renomado especialista.

“É possível que a estrada vá cercando a blindagem e levando o desmatador para esta outra área da Amazônia”, apontou o pesquisador.

FAS presta uma assistência fundamental aos ribeirinhos

Com 10 anos de atividade, a FAS, que é uma organização não governamental sem fins lucrativos, foi fundamental para o desenvolvimento da comunidade Tumbira, assim como de muitas outras do Amazonas. A área de atuação da FAS abrange 10 milhões de hectares. São 583 comunidades e quase 10 mil famílias atendidas.

A FAS, explicou Carlos Bueno, é um braço executor de uma política ambiental, de ações que governos não conseguem executar por uma infinidade de razões. A proposta fundamental da ONG é a valorização da floresta em pé, usando ciência e tecnologia para desenvolver a região, com base na conservação, visando os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). 

Bueno disse que a fundação objetiva o desenvolvimento regional, com empreendedorismo e geração de renda nos locais onde atua, buscando incrementar com tecnologia sustentável, soluções inovadoras, o que já existe de melhor em cada comunidade. “Vamos atrás de qual o potencial daquela região. Nesse mundão que é a Amazônia, cada calha de rio tem sua característica especial”.

A organização também atua em prol da educação e saúde dos ribeirinhos, com inúmeros projetos, além de ter uma agenda indigenista. “Incentivamos a educação para o comunitário ter empoderamento, um olhar com expectativa de crescer e não deixar sua localidade para ir para a cidade”.

“A FAS trabalha nas 16 UCs de uso direto, que são aquelas em que podemos desenvolver atividades (econômicas), trabalhar, fazer com que eles fiquem morando lá”, explicou Bueno.

Núcleos funcionam como escolas. Foto: Rafaela Gonçalves/Enecob - 10/nov/2018

A FAS tem nove núcleos em comunidades, que são dotados de estrutura para educação e pesquisa, além de serem abertos às instituições que precisem desenvolver trabalhos nas comunidades. “(com os núcleos) dá para fazer uma integração fantástica de pesquisa, governança, proteção. Eles têm toda uma estrutura, com sala de aula, Internet, acomodação, algumas das bases têm placa solar, biblioteca, coleta de água da chuva, comunicação”, ressaltou.

Sustentabilidade na pauta

A visita à comunidade Tumbira e a mesa de debates com o tema “As alternativas econômicas para a Floresta Amazônica” fizeram parte da programação da 13ª edição do Encontro Nacional de Editores, Colunistas, Repórteres e Blogueiros (Enecob) e do 2º Encuentro de Periódicos de Latinoamérica (e-latino), organizados pelo jornalista Leandro Mazzini, da Coluna Esplanada. Os eventos, que ocorreram de forma simultânea entre os dias 9 e 12 deste mês, foram uma co-realização da FAS e Fundo Amazônia, com patrocínio do Conselho Federal de Administração (CFA), Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Instituto Mobih e Empresa Estadual de Turismo do Amazonas (Amazonastur).

Confira as outras reportagens da série:

1 - Conheça o desmatador que virou defensor da floresta amazônica

2 - RDS Rio Negro: de portas abertas para o mundo com o turismo

3 - Especialistas e jornalistas latinoamericanos discutem o futuro da Amazônia

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