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Amazônia
ESPECIAL

Turismo de base comunitária abre as portas da RDS Rio Negro para o mundo

Pousada do ex-madeireiro que virou ambientalista é base para quem deseja imersão na realidade do povo ribeirinho 17/11/2018 às 16:22 - Atualizado em 19/11/2018 às 16:34
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Foto: FAS/divulgação
Luciano Falbo Manaus (AM)

Para abrir a Pousada do Garrido, o que aconteceu no início de 2012, o ex-madeireiro Roberto Brito de Mendonça passou por treinamentos oferecidos pela Fundação Amazonas Sustentável (FAS). “A fundação me deu cursos de tudo, sobre como receber as pessoas. E aí eu comecei. Foram quatro dias com as primeiras pessoas, nove, levando para visitar e para o mato. Eu queria saber o que fazer com eles e me disseram ‘leva pro mato’, para onde eu tirava madeira”. Foi assim que Roberto se deu conta de que é isso que as pessoas mais querem ver: o dia dia das comunidades.  

“Quando terminou, no quinto dia, tive um resultado financeiro que em um mês cortando madeira eu não tinha”, observou.

“Aí, olhando para trás, disse para mim mesmo ‘caramba, foi parando de tirar a madeira que chegou educação na minha comunidade, chegou o desenvolvimento que nós esperávamos’. E pra quê voltar pra lá? Será se eu voltar a tirar de foma ilegal vai acabar? Esse temor ajudou as coisas seguirem pra frente”, disse. “E é isso, aquele sonho que tínhamos antes, estamos vivendo hoje”, completou.

Desafio amazônico

Seis anos depois da inauguração da pousada, o empreendedor sustentável é categórico ao dizer que o turismo de base comunitária na região tem dois principais desafios a serem vencidos. “Um é a comunicação. Nós temos um sinal de Internet do núcleo da FAS, que ajudou bastante, mas tem horário que não tem”, afirmou.  

O outro desafio é o acesso. “Muitas vezes as pessoas não entendem a logística dos barcos e do rio, que é totalmente diferente da do carro, por exemplo. No carro, com um litro de gasolina, você anda 10 km, e 10 km em uma voadeira dessas que nós temos consome 12 litros. Então gasta 10 vezes mais”, acrescentou.

Acesso só é possível por meio de embarcações. Foto: Rafaela Gonçalves/Enecob - 10/nov/2018

Os interessados em visitar a comunidade se assustam ao comparar os valores da hospedagem e da locomoção. “A minha diária para casal está 260 reais, com alimentação inclusa. Mas, o transporte para chegar aqui é 600 reais. Aí perguntam: quanto tempo leva para chegar na comunidade? Eu digo uma hora e vinte. ‘Caramba, uma hora e vinte por 600 reais e você me cobra 260 reais por 24 horas de hospedagem’, diz o cliente. Às vezes,  não compreendem a logística amazônica”, observou.

Foto: Rafaela Gonçalves/Enecob - 10/nov/2018

Quando todos ganham

Roberto Brito afirma que o visitante não traz só economia para as comunidades. Segundo ele, é nesse intercâmbio cultural que o caboclo, que muitas vezes diz “ah, não sei nada”, percebe o quanto é valioso o conhecimento da floresta.  “Quando vem um de fora que pergunta as coisas ele se dá conta ‘eu sei de tudo isso aí, mas só não dei importância’. Esse  conhecimento  era muito desvalorizado”, disse.

Como perspectiva de futuro, ainda que preocupado com os rumos políticos do País, Roberto pensa crescer muito na área. “Temos público que quer vir”. 

“Penso muito em crescer, mas com um turismo de responsabilidade, respeitando as pessoas das comunidades,  as questões do meio ambiente e respeitando a minha pessoa também:  sou um comunitário, não quero perder o meu vínculo com a comunidade, eu quero estar inserido. Eu não quero largar a minha comunidade, quero crescer aqui”, ressaltou.

 O artesanato é um dos atrativos do Tumbira. Foto: Rafaela Gonçalves/Enecob - 10/nov/2018

“Se as pessoas ao meu redor estiverem crescendo, eu quero crescer. Mas, se eu ver que as pessoas, enquanto eu estiver tomando café e elas, chá, por necessidade (porque tem gente que gosta), eu não quero esse crescimento não”, completou.

Serviço

A comunidade Tumbira está a 77 km de Manaus, na Zona Rural de Iranduba.

O acesso só é feito pela água, subindo o rio Negro (por expresso ou lancha). O telefone para contato da Pousada do Garrido é o (92) 9 9146-4667. O email é o pousadadogarridotumbira@gmail.com

Sustentabilidade na pauta

A visita à comunidade Tumbira e a mesa de debates com o tema “As alternativas econômicas para a Floresta Amazônica” fizeram parte da programação da 13ª edição do Encontro Nacional de Editores, Colunistas, Repórteres e Blogueiros (Enecob) e do 2º Encuentro de Periódicos de Latinoamérica (e-latino), organizados pelo jornalista Leandro Mazzini, da Coluna Esplanada. Os eventos, que ocorreram de forma simultânea entre os dias 9 e 12 deste mês, foram uma co-realização da FAS e Fundo Amazônia, com patrocínio do Conselho Federal de Administração (CFA), Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Instituto Mobih e Empresa Estadual de Turismo do Amazonas (Amazonastur).

Confira as outras reportagens da série:

1 - Conheça o desmatador que virou defensor da floresta amazônica

2 - RDS Rio Negro: de portas abertas para o mundo com o turismo

3 - Especialistas e jornalistas latinoamericanos discutem o futuro da Amazônia

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