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Amazônia
Desenvolvimento sustentável

Ribeirinhos transformam tradições e belezas naturais em negócio lucrativo e sustentável

Moradores de comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Rio Negro, na RMM, encontraram na paisagem da região a oportunidade de melhorar a qualidade de vida de suas famílias 05/07/2017 às 05:00 - Atualizado em 05/07/2017 às 08:09
Show ribeirinho
Morador da RDS, Davi Coelho leva turistas para nadar com os botos. Fotos: Aguilar Abecassis
Silane Souza Manaus (AM)

Eles vivem com a maioria das facilidades da vida moderna, advindas da energia elétrica e telefonia móvel, mas em um cenário bem diferente: em meio a rios e florestas. Estamos falando dos empreendedores ribeirinhos da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, que encontraram nessa paisagem única da região a oportunidade de melhorar a qualidade de vida de suas famílias, promovendo o desenvolvimento local, respeitando e preservando, culturas, tradições e o meio ambiente em que vivem.

O casal Carlos Alves da Costa Júnior, 33, e Adriana Brito de Mendonça, 29, morador da comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no lago do Acajatuba, é um exemplo desse “time” de ribeirinhos empreendedores. Há três anos eles começaram a pensar em abrir um restaurante e há dois o empreendimento é realidade. “A ideia veio da necessidade: a comunidade recebia muitos turistas e não tinha um restaurante. E vem dando certo”, contou Adriana. 

Restaurante Vista do Lago faz jus ao nome

O negócio caminha tão bem que o casal está expandindo as atividades, que incluem ainda passeios regionais. Eles pretendem oferecer hospedagem em chalés a partir de setembro deste ano. Atualmente, esse serviço é ofertado apenas em redes. “É mais uma forma de complementar a renda e poder disponibilizar um atrativo a mais para os turistas que queiram passar mais de um dia na comunidade”, disse.

Carlos revela que a busca para oferecer um serviço diferenciado aos turistas é constante. “Hospedagem, alimentação, café da manhã e passeios são cobrados separados, conforme a demanda do cliente. Caso ele queira pagar só a hospedagem, pode trazer produtos de casa e fazer sua comida aqui, sem problema. Essa é uma novidade que tem agradado e estamos investindo nesse público”, afirmou.

Passeios possibilitam contato direto com a natureza

Frutos para todos

Nos dois anos de funcionamento, o restaurante tem trazido resultados positivos para toda a comunidade, haja vista que gera emprego e renda para outras pessoas. “É um empreendimento familiar porque compramos o pão de um parente, a verdura de outro, a farinha de outro, e assim por diante. E quando vem muito turista pagamos diárias para algumas mães de família que nos ajudam”, evidenciou Adriana.

Na comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro moram 62 famílias. A localidade ficou conhecida nacionalmente como “Parazinho”, uma das locações de gravação da novela “A Força do Querer”, escrita por Glória Peres. Os moradores esperam que o fato atraia mais turistas, o que ainda ocorre de forma tímida.

Vista da comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

Pousadas envolvem toda a comunidade

Na comunidade São Thomé, também no lago do Acajatuba, há duas pousadas e restaurantes. A mais antiga é a pousada do Jacaré, que em 2010 foi reformada junto com toda a comunidade no programa Caldeirão do Huck, da rede Globo. “O número de turistas aumentou muito e nós ampliamos a pousada. Mas depois da Copa de 2014, o movimento diminuiu”, relatou a dona do empreendimento, Nair Alves da Costa, 66. 

Nair e o esposo foram os primeiros a investir numa pousada na comunidade São Thomé

Mas isso não desanima os empreendedores, que além da hospedagem oferecem alimentação à base de produtos regionais e diversos serviços turísticos, como pesca de piranha, focagem de jacaré, trilhas, entre outros. “Trabalhar com turismo é assim mesmo e a concorrência vem aumentando. Mas a nossa maior dificuldade é a comunicação: celular só pega sinal em alguns pontos da comunidade”, destacou Nair. 

Por conta da grande demanda de turistas, em 2012 começou a funcionar o restaurante e pousada São Thomé, comandado pelo casal de empreendedores ribeirinhos Paulo Moraes da Silva, 47, e Vânia Maria Costa Mendes, 47. Hoje, além da hospedagem e alimentação, eles trabalham ainda com artesanato e passeios turísticos, agregando, assim, maior valor ao negócio. Tudo feito por eles mesmos. 

Demanda de turistas fez o casal Paulo e Vânia apostar no empreendedorismo

Para o casal, fazer empreendedorismo não é fácil, principalmente por conta dos problemas logísticos e de comunicação, mas desistir é pior, apontam eles. Pelo contrário, é preciso persistir e investir ainda mais. “O conhecimento que adquirimos com as pessoas que vêm aqui e com os cursos que fazemos ajuda a melhorarmos os nossos serviços e atrair mais pessoas para conhecer nossos atrativos”, apontou Vânia. 

Personagem: 

Elias é o contador de histórias oficial da comunidade São Thomé

O morador da comunidade São Thomé Elias Pereira Leite, 71, começou a trabalhar aos nove anos de idade. Na época, ele ajudava o pai na extração da borracha. Hoje ganha a vida fazendo representações e explicações sobre como esse trabalho era feito. “A nossa escola naquele tempo era ajudar o pai a comprar coisas para casa. Hoje mostro como a gente fazia isso e também relato toda a história da seringueira”, contou.

Elias ressalta que, antes de 2010, a comunidade não tinha energia elétrica. O gerador era ligado apenas quatro horas por noite. A chegada da eletricidade definitiva nas casas dos ribeirinhos trouxe muitas melhorias. “Apareceu mais turista e a gente espera que venha ainda mais para a gente não deflorar a floresta tropical que temos. O turismo é muito importante para nós e precisa ser incentivado”.

Personagem:

Família de Davi chama a atenção para a preservação e valorização dos botos da Amazônia

Proporcionar uma das experiências mais conhecidas e atrativa do Amazonas: a interação com botos vermelhos. Esse é o trabalho da família de Davi Coelho de Souza, 49, há seis anos. Tudo começou, de acordo com ele, com a esposa. “Como a gente fazia tudo na beira do rio, o pitiú dos peixes atraiu os botos, inclusive os do Ariaú,  (hotel de selva) que eram mansos. E ela viu nisso uma oportunidade”, relatou.

O Flutuante Amigo do Boto-Vermelho, como é conhecido, foi cenário de vários momentos importantes. Em 2016, recebeu a passagem da “Tocha Olímpica”, além da equipe da novela “A Força do Querer” para gravação de algumas cenas da novela em que a personagem principal nada com os botos. Este ano, profissionais da BBC estiveram no lugar, que chama a atenção para a preservação e valorização dos botos. 

‘Laboratório’ testa serviços na prática

Este mês, a Fundação Amazonas Sustentável (FAS) promoveu a segunda edição do Laboratório de Turismo, com os empreendedores ribeirinhos das comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, nas comunidades São Thomé e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A ação aconteceu nos últimos dias 12 e 13.

Empreendimentos oferecem café da manhã regional

A ação envolveu três empreendimentos: restaurante e pousada São Thomé, pousada do Jacaré e restaurante Vista do Lago, e dez turistas convidados de diferentes perfis. Nos dois dias de convívio, foram testados na prática os atrativos turísticos, gastronomia e hospedagem em uma experiência única de jogos de negócios.

De acordo com o coordenador de empreendedorismo da FAS, Wildney Mourão, o Laboratório de Turismo é uma nova estratégia para alavancar o turismo de base comunitária (TBC) na Amazônia. “A atividade proporciona um aprendizado prático para os empreendedores internalizarem o conhecimento de modo mais efetivo”, disse. 

Wildney Mourão defende ações para o fortalecimento da atividade turística na RDS do Rio Negro

Nessa edição também foi realizado o Clube do Turismo, iniciativa que une empreendedores ribeirinhos apoiados pela FAS, parceiros de negócios e agências que estão construindo uma trajetória de sucesso para o turismo na região. O objetivo é fortalecer a atividade turística na RDS do Rio Negro. 

Conforme Wildney Mourão, o clube tem três grandes pilares: as pessoas, o plano de desenvolvimento dos empreendedores e a troca de experiência. “Nosso objetivo é conectar pessoas, desenvolver empreendedores e acessar novos mercados por meio de novas plataformas”, afirmou o coordenador de empreendedorismo da FAS.

Blog: Olinda Marinho, professora universitária

Olinda Marinho diz que as comunidades estão preparadas para receber o turista de base comunitária

"Essas comunidades estão preparadas para o turismo de base comunitária (TBC). Lógico que elas ainda precisam de melhorias, mas isso vai se adequando de acordo com o tempo e com a capacitação que a Fundação Amazonas Sustentável (FAS) promove. Mas observo que a mudança está sendo implantada, principalmente do empreendedorismo voltado a TBC. Acredito que criar um conselho consultivo seria uma boa ideia para que a qualificação com gestão, que é passada de geração em geração nesses empreendimentos, se torne uma coisa perene. É interessante também que esses empreendedores pesquisem sobre os tipos de incentivos concedidos para projetos empreendedores e inovadores dentro desse tipo de turismo e da região. O TBC preserva nossa floresta e nossa cultura. Além disso, é uma experiência que tem um valor altíssimo”.

Território abrange três municípios da RMM

A RDS do Rio Negro fica localizada entre os municípios de Iranduba, Manacapuru e Novo Airão, na Região Metropolitana de Manaus (RMM), e conta com 19 comunidades, sete delas apenas na região do lago do Acajatuba, onde a presença de turistas caiu drasticamente com a falência do Ariaú Amazon Towers.

Até mesmo a falência do Ariaú Amazon Towers, que está em ruínas, rende passeios com os visitantes das comunidades

Turismo com a visão do ‘nativo’

O turismo em comunidades ribeirinhas da RDS do Rio Negro leva o espectador a perceber a Amazônia do ponto de vista dos moradores da região. Dormir em rede, tomar banho no rio, nadar com botos, pescar, visitar a casa de farinha, são algumas das atividades que essas localidades oferecem aos turistas. O preço dos passeios varia de R$ 20 a R$ 30. A hospedagem custa em média R$ 69 a diária e a alimentação custa até R$ 35 por pessoa. Os empreendedores também disponibilizam pacotes de R$ 150 a R$ 250, por pessoa, incluindo ou não os passeios, dependendo do lugar.

Serviço:

Restaurante e pousada São Thomé Tel.: (92) 98172-1275

Pousada do Jacaré  Tel.: (92) 98450-2001/98430-8855

Restaurante Vista do Lago Tel.: (92) 98422-4368

Flutuante Amigo do Boto-Vermelho:  Tel.: (92) 99205-4840

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