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Amazônia
Aventura

Rodovia BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, é rota de quem busca aventura

Para os amigos que escolheram fazer a viagem de bicicleta, a rodovia tem potencial para ser uma rota turística 31/07/2016 às 09:07 - Atualizado em 02/08/2016 às 09:22
Luana Carvalho Manaus (AM)

Seja de ônibus, carro, moto e até bicicleta. Por necessidade ou por aventura.  O trajeto da BR 319, que liga Manaus a Porto Velho, têm atraído cada vez mais viajantes de todo o Brasil. As diferentes percepções denotam uma rodovia fantasma, esburacada, sem investimento e com uma floresta degradada. Porém, no final das contas, todos concluem a rota com a certeza de que cruzar a Amazônia é uma experiência incrível. 

Para o engenheiro florestal Léo de Moura, designer Ulisses Sato e pesquisador Luiz Amaral, que vieram de Curitiba para fazer a  ‘bike trip’ (viagem de bicicleta) pela BR 319, a rodovia tem potencial para ser uma rota turística  na Amazônia, principalmente por possuir quase 900 quilômetros de estrada em linha reta, perfeito para pedaladas, segundo eles.  No entanto, eles acreditam que o local está sendo mal explorado. 

“Está uma bagunça, principalmente na parte de Rondônia, por conta da colonização. Passamos por vários campos desmatados, vimos muito gado. Para o lado do Amazonas esse impacto é um pouco menor. Mas é feio de ver. Com a manutenção que estão fazendo, a estrada virou um canteiro de obras. De 100 pontes que passamos, umas quatro eram banháveis. Os outros igarapés estão sendo assoreados”, relatou Léo. 

Ele se refere aos serviços de manutenção e conservação da BR-319 que estão sendo realizados pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), que já foi alvo de embargo pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama). “Inclusive, iremos fazer uma reclamação formal ao Ibama sobre o que presenciamos”, completa. 

Aventura em duas rodas

Os amigos saíram de Porto Velho (RO) no dia 14 de julho e chegaram em Manaus dez dias depois. Pelo caminho, não viram muitos animais, mas enfrentarem as dificuldades previstas. As bicicletas estavam equipadas e cada um carregou aproximadamente 20 quilos. No bagageiro levaram roupas, alimentos desidratado, caixa de ferramentas, muita água, uma rede e um mosqueteiro.

“Nos preparamos com um mês de antecedência para a viagem. Como já usamos a bicicleta como meio de transporte há muito tempo e  já fizemos uma aventura parecida com esta na Patagônia, já tínhamos uma certa experiência sobre o que levar para a aventura. Mas é claro que foi muito desafiador. O pneu, por exemplo, furou seis vezes”, contou Luiz Amaral. 

Ao contrário das informações que encontraram na internet, o trio se deparou com vilas com restaurantes e até wi-fi. “Não existe muita informação sobre a rota. Mas tivemos sorte porque encontramos pessoas muito gentis, que nos deixavam armar a rede na casa delas para descansarmos. Muitos falam que o trajeto todo não tem comunicação,  por exemplo, mas conseguimos acessar a internet em algumas vilas que pousamos”, disse Ulisses. Eles passaram por Humaitá, Realidade, Igapó-Açú e Careiro Castanho.  

Quatro rodas

O jornalista Carlos Pontilhão cruzou a BR 319 de carro duas vezes neste ano. A primeira, foi com a família. Na segunda vez foi se aventurar com os amigos de um grupo de jeepeiros. “Quando fui em abril para Manicoré, fui com outro amigo do Jeep Clube. A intenção da viagem  foi outra. A estrada estava ruim o suficiente mesmo pra carros 4x4 preparados. Nessa época, a maior parte dos ônibus já nem tentavam passar mais e os que passavam, as vezes passavam dias para fazer a viagem, até que alguém os ajudasse”, relatou. 

Ele destaca que o despreparo de alguns motoristas  pode atrapalhar a viagem. “Voltando de Manaus para Porto velho, em fevereiro, perdemos algumas horas porque um caminhão bem grande engatou em um desvio de ponte. O caminhão nitidamente era grande demais pra estrada e, além disso, entrou na estrada sem saber quanto tempo duraria a viagem, sem combustível extra, sem ferramentas, sem macaco. Nem água o motorista tinha”. 

Blog: Calos Pontilhão, jornalista

"A estrada é 'de época'. Hoje ela está transitável, até onde eu saiba, inclusive por carros pequenos e baixos. Existem várias frentes de obra na estrada. Colabora também a chuva, pois ao menos aqui em Porto Velho, eu não vejo chuva há mais de 40 dias. Porém, vejo muitos problemas com pessoas despreparadas, que metem a cara em um lugar desse com a família toda, em um carro normal, simplesmente porque ouviram falar que a estrada estava boa", declarou.

"Hoje existem grupos no Facebook e Whatsapp de pessoas que trocam informações sobre a estrada o tempo todo e, ainda assim, não dá para confiar plenamente na informação, tem que triar muita coisa. O planejamento para essa viagem ser 'tranquila' precisa ser feito para amanhã, vendo informação diariamente e com a possibilidade de abortar a viagem em cima da hora", acrescentou.

Aventura de moto e até de Fiat UNO

O policial militar aposentado Neivaldo Almeida, 46, topou o convite do amigo Isaías Pond em abril deste ano e também foi se aventurar pela BR 319. Ele conta que o amigo precisava visitar a família em Porto Velho. “Não foi preciso insistir muito para eu aceitar. Me amarro em aventura e ele atiçou meu espírito guerreiro”. 

Neivaldo relata que viveu uma verdadeira aventura. Teve que empurrar a moto por quase 20 quilômetros depois de uma pane. “Ele estava com uma Teneré e eu com uma Brós. A moto deu problema e tivemos que andar muito empurrando. Pernoitamos em uma das antenas da Embratel e encontramos carona com um caminhão que levava castanhas, foi no pau de arara”, relembra. 

Ele recomenda que, quer for viver a experiência, esteja preparado para tudo. “Nós nos equipamos, levamos facões, kits de primeiro socorros, mantimentos, mas ainda assim imprevistos aconcetem. Mas, resumindo, foi uma experiência fantástica. Vivemos a estrada do modo rústico, do jeito que ela é”.

Já Zacarias Felício, presidente da Associação de Moradores e Produtores Rurais e Agroextrativistas do Sul do Amazonas (Aspram), foi mais ousado. Ele e mais três amigos vieram para Manaus, na última semana a bordo de um automóvel modelo Fiat Uno, ano 2000. Eles levaram em média 25 horas para chegar na capital amazonense. “Viemos na cara e na coragem. Conseguir concluir a viagem com 60 litros de gasolina. A estrada está trafegável e com a manutenção está ficando ainda melhor. É muito importante para nós, produtores rurais, que a BR-319 esteja em boas condições, principalmente para escoarmos nossa produção”, revelou.

Viagem de ônibus

 A empresa Aruanã Transportes continua fazendo o trajeto pela BR 319 aos municípios de Humaitá (R$ 216), Manicoré (R$ 120) e Lábrea (R$260), todos no Sul do Amazonas, até Porto Velho (RO), que custa R$ 229. Os ônibus saem da rodoviária de Manaus às 5h e às 18h das segundas, terças, quartas, sextas e sábados. Em média, a viagem dura até 24 horas. “A estrada melhorou muito então o fluxo de passageiros aumentou bastante”, comentou o diretor da Aruanã Transportes, Eduardo Machado.

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