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Amazônia
Reaproveitamento

Pesquisas revelam que partes descartadas do pirarucu podem ser reaproveitadas

Duas pesquisas apresentadas em Congresso de Iniciação do Inpa, apontam que partes descartadas do peixe, como carcaça e nadadeiras, podem ser transformadas em ração ou adubo orgânico 23/07/2016 às 06:00
Show peixe
Pirarucu manejado dos lagos de Maraã tem 70% do corpo transformado, pelo processo de salga, no Bacalhau da Amazônia, sendo os 30% restantes desprezados (Foto: Arquivo/AC)
Silane Souza Manaus (AM)

Para fazer o beneficiamento do pirarucu são utilizadas apenas as mantas do pescado, o restante como carcaças, vísceras, nadadeiras, escamas e couro são tratados como resíduos descartados. Mas, parte deles pode ser aproveitada para gerar novos produtos. Neste caso: silagem para alimentação de animais e adubos orgânicos para produção de hortaliças. O resultado faz parte de pesquisas realizadas no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/ MCTIC).

Os estudos integram o projeto “Inovações Tecnológicas no Tratamento de Resíduos da Indústria de Beneficiamento de Pescado de Maraã”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam), por meio do programa Pro Estado, que tem como objetivo estudar o processo produtivo da silagem e de composto orgânico produzidos a partir dos resíduos de pescados na Unidade de Beneficiamento de Pescado (UBP) em Maraã (a 634 quilômetros de Manaus).

O projeto é coordenado pela pesquisadora do Inpa, Sonia Alfaia. Ela explica que o projeto Bacalhau da Amazônia proporcionou a construção da UBP em Maraã para a produção de pescado salgado seco utilizando principalmente a espécie pirarucu (Arapaima gigas). No entanto, a implantação deste projeto numa região longínqua da Amazônia ainda apresenta alguns gargalos produtivos, com destaque para a falta de uma estação de tratamento de resíduos.

Conforme ela, dentre os vários estudos realizados para atender a demanda encontram-se os trabalhos apresentado no V Congresso de Iniciação Científica do Inpa (Conic), pelos estudantes Earle Silva Araújo Junior, sobre a caracterização química de compostos produzidos com vísceras de pirarucu e outras fontes orgânicas, e Tainah Gomes dos Santos, sobre a produção de composto orgânico provenientes de resíduos de pescado e outras fontes.

Sonia destaca que devido a problemas ocorridos durante o período de vigência do projeto, o que atrasou a implantação de alguns experimentos, nem todos os estudos encontram-se concluído e outros ainda estão em processo de análise. Espera-se até o final de 2016 ter resultados mais conclusivos sobre esses estudos

“Mas de maneira em geral, os resultados mostraram que a compostagem pode se constituir numa alternativa promissora a reciclagem de resíduo de pescado, podendo resultar num composto de alta qualidade nutricional, com potencial para fornecimento de cálcio e nitrogênio, nutrientes bastante deficientes nos solos do Amazonas. Os compostos produzidos apresentaram-se também altamente benéfico para o cultivo de alface e na melhoria da fertilidade do solo mesmo quando estes foram comparados com os solos adubados quimicamente”, relatou a pesquisadora.

Frase

“Os resíduos gerados a partir do processamento do pirarucu na UBP de Maraã, assim como os peixes de baixo valor comercial poderão ser aproveitados e direcionados para a produção de silagem e adubos orgânicos, agregando assim valor econômico a esse produto, que normalmente vem sendo descartado no meio ambiente”. Sonia Alfaia – pesquisadora do Inpa e coordenadora do projeto “Inovações Tecnológicas no Tratamento de Resíduos da Indústria de Beneficiamento de Pescado de Maraã”

Destaque

Em 2014, por exemplo, foram processados na UBP de Maraã 2.490 unidades, gerando um total de aproximadamente 155 toneladas de pirarucu in natura, dos quais aproximadamente 30% foram tratados como resíduos. Este fato impõe aos gestores das UBP ́s de Maraã a necessidade de implantação de sistema de tratamento de resíduos que garanta a obtenção de novos produtos a partir desta matéria prima que atualmente é descartada no meio ambiente.

Saiba mais

A pesquisadora do Inpa, Sonia Alfaia, disse que, atualmente muitos agricultores no Amazonas tem demonstrado interesse em trabalhar com produtos orgânicos e vêm passando por um processo de transição. “É necessário conhecer produtos ricos em nutrientes, como os resíduos de pescados, que possam fazer parte do processo de compostagem para uso na agricultura orgânica”, pontuou.

Para isso, uma oficina de capacitação em produção de adubos orgânico feitos a partir de resíduo de pescado para produção de hortaliças foi realizada nos dias 26 e 27 de novembro de 2015, em Maraã, da qual participaram 22 produtores e produtoras rurais, além de técnicos do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas (Idam) e da prefeitura. “Na referida oficina foram repassados as informações e os dados sobre a produção de adubos orgânicos feitos a partir do resíduo de pescado”, disse Sonia.

Box

Conforme a pesquisador do Inpa, Sonia Alfaia, a pesquisa sobre silagem ácida de resíduos obtidos a partir de carcaças de pirarucu encontra-se ainda em andamento. Trata-se de uma dissertação de mestrado ainda não concluída do Curso de Pós-graduação em Agricultura no Trópico Úmido do INPA. “Os resultados preliminares mostram que a mesma apresentou alto teor de proteína bruta 54,45%, e valores elevados de Cálcio e Fósforo, podendo-se constituir numa boa fonte desse nutriente”.

Ela destacou que a silagem elaborada esta sendo testada como ração de poedeiras comerciais no setor de Avicultura da Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) sob a orientação do professor Frank Cruz. “Espera-se que a silagem feita a partir de resíduos de carcaça de pirarucu possa servir como ingrediente alternativo na composição da ração de poedeiras comerciais, e dessa forma trazer benefícios econômicos para os sistemas de criação de aves, uma vez que, a alimentação, desses animais, representa cerca de 70% dos custos de produção em sistemas intensivos de criação”.

Sonia salientou que a expectativa é que conclusão desse projeto contribua para geração de novas tecnologias para tratamento de resíduo de pescado na região, assim como o desenvolvimento de novos produtos, como ração animal e fertilizante orgânico, além da formação recursos humanos e dessa forma, contribuir para a preservação ambiental, evitando o descarte de resíduos no meio ambiente.

 

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