Domingo, 15 de Setembro de 2019
Expostos ao calor

Quem trabalha nas ruas reforça a tese de ambientalistas sobre alterações climáticas

Na Semana Mundial do Meio Ambiente, A Crítica foi às ruas e entrevistou trabalhadores que, apenas com o conhecimento popular, notaram que o clima está mudando



1.JPG Cientistas comprovam que poluição afeta formação de nuvens no entorno de Manaus (Foto: Antônio Lima)
31/05/2016 às 21:11

Não é preciso ir para os extremos da terra presenciar o derretimento das calotas polares para sentir os efeitos das mudanças climáticas na pele. Nesta Semana Mundial do Meio Ambiente, A Crítica foi às ruas e entrevistou trabalhadores que, apenas com o conhecimento popular, notaram que o clima está mudando. E não é para melhor. 

“O clima endoidou. Com certeza está mais quente, e essa mudança a gente pode perceber agora. Neste período já era para estarmos nos preparando para o verão, mas sequer choveu tudo o que tinha pra chover no inverno”, comentou o motorista Augusto Cézar Benalber, 56.  

As alterações climáticas também são evidentes para o vendedor ambulante Manoel Moraes, 61, que trabalha no Terminal 1, no Centro de Manaus, respirando todos os dias a poluição da frota de quase 700 mil veículos que existem atualmente em Manaus. Natural de Anamã, distante 165 quilômetros de Manaus, ele também afirma que as mudanças são claramente  perceptíveis. 

Manoel Moraes sente na pele os efeitos da poluição em Manaus (Foto: Euzivaldo Queiroz)

“A gente sente que mudou, só é parar para lembrar de 20 anos atrás, quando mudei pra Manaus. Hoje sentimos um calor muito maior até dentro de casa, pois nem o ar-condicionado dá jeito. Sem contar com essa  poluição, que para quem trabalha na rua, como eu, é um perigo. Constantemente fico com a garganta irritada ou com algum problema respiratório”, contou.
 
Menos chuvas?

O déficit de precipitação relatado por Augusto e Manoel  pode ser observado na própria linha que mede o rio Negro.  Ontem, a cota estava marcando 26,97cm, enquanto que no ano passado, neste mesmo dia, estava atingindo 29,36. “A condição está razoável, mas existe a possibilidade, mais para o final do trimestre, de ter uma condição de seca importante, principalmente no sul do Amazonas”, explicou  o chefe da Divisão de Meteorologia do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), Ricardo Dallarosa. 

O fenômeno ‘El Nino’ deste ano foi considerado forte e, por conta da intensidade, produziu grandes déficits de precipitação na região da Amazônia brasileira, conforme  ressaltou Dallarosa. Ele explica ainda que choveu bastante no sul da Colômbia, Equador e na região do Leste dos Andes, mantendo os rios da Amazônia brasileira nos níveis normais, “mesmo com quase nada de chuva durante esta estação”. 

Qual a causa?

Partindo do conhecimento popular para o científico, pesquisadores defendem que o desmatamento tem efeito sob o regime de chuvas. É o caso da tese do físico Luiz Gustavo Teixeira, mestre em Clima e Ambiente pela Universidade do Estado Amazonas (UEA) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que aponta uma redução de 35% no volume de chuvas da Amazônia e um aumento de 4,5ºC na temperatura da bacia amazônica em 2100, caso o desmatamento continue avançando.

O superintendente regional do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Marco Antônio de Oliveira, no entanto, não acredita que a tendência é de “menos chuvas”. “Em um cenário de mudança climática para um planeta mais quente, é de se esperar que mais água seja evaporada do oceano Atlântico, sendo levada continuamente para o interior da Amazônia, devido à direção dos ventos de leste para oeste, e capturada por um grande anteparo rochoso formado pela Cordilheira dos Andes. Estas condições estruturais não irão se modificar nos próximos milênios e, portanto, se mais umidade chegar do oceano, mais úmida será a Amazônia”. 

Superintendente regional do CPRM, Marco Antônio, diz que não haverá escassez de chuvas nos próximos milênios (Foto: Euzivaldo Queiroz)

O físico e membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) Paulo Artaxo explica que existem inúmeros estudos sobre os fenômenos que afetam o clima na Amazônia. Mas a razão exata das mudanças ainda são estudadas. “Existem inúmeros fenômenos, alguns deles em grande escala que afetam todo o continente sul-americano, e outros efeitos de micro-escala, como o entorno de uma pluma de queimada.  Mas o que  estamos observando é um aumento na frequência e na intensidade dos climas extremos na Amazônia”. 

Ou seja, muita chuva um ano, pouca chuva em outro ano, explica. “As secas de 2005 e 2010 são exemplos  claros de que a frequência destas secas estão aumentando”, completou Artaxo.

Poluição afeta formação de nuvens

Recentemente, o cientista Paulo Artaxo publicou um estudo que comprova que os efeitos da urbanização e poluição de veículos, indústrias e usinas termelétricas têm reduzido a formação de nuvens no entorno de Manaus por causa do óxido de nitrogênio (gás poluente expelido por reações de combustão).

O estudo mostra que a poluição altera os mecanismos de oxidação do isopreno, principal gás emitido no metabolismo das plantas da floresta amazônica que sofre uma oxidação natural, produzindo partículas de nuvens.

“Observamos profundas alterações nas nuvens e profundas alterações na químicas da atmosfera pela produção de aerosóis orgânicos. O tamanho das gotas de nuvens são menores nas nuvens já influenciadas pela pluma de Manaus, em um raio de 200 quilômetros em volta da cidade”, explica. 


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