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Sistema de criação dos filhotes envolve todo o grupo

Entre as características do sauim-de-coleira estão seu pequeno porte, a coloração da pelagem e a emissão de assobios longos e agudos 31/03/2013 às 13:42
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Sauins vivem em grupos, com uma fêmea dominante em cada um. Isso dá o direito de somente ela se reproduzir, podendo ter cria até duas vezes por ano
Marcelo Gordo* Manaus

O sauim-de-coleira, cujo nome científico é Saguinus bicolor, é um macaquinho da família dos micos, assim como o mico-leão-dourado e o mico-estrela. É um animal pequeno, com cerca de 500 gramas quando adultos, medindo, aproximadamente, 28 centímetros de corpo com uma cauda com quase 40 centímetros.

Destaca-se dos demais primatas pela coloração branca na parte superior do corpo, que provavelmente deu origem ao seu nome, e também pela cabeça nua com uma pele negra.

Normalmente vive em grupos que podem variar entre dois e 12 animais, compostos por machos, fêmeas e filhotes, geralmente com um grau elevado de parentesco. Em cada grupo existe uma fêmea dominante, onde apenas ela reproduz, podendo ter cria até duas vezes por ano e em cada uma podendo nascer um filhote ou gêmeos.

É muito interessante o sistema de cuidado dos filhotes, onde todos os membros do grupo ajudam, inclusive carregando os pequeninos nas costas nos primeiros meses. Os filhotes crescem bem rápido, chegando à idade adulta em mais ou menos dois anos. Mas a mortalidade dos filhotes é muito grande. Na natureza, acreditamos que os sauins consigam viver de 10 a 12 anos.

Frutas e insetos

Os sauins emitem sons parecidos com assovios longos e agudos bem como outros sons mais complexos, que são a forma de se comunicarem e também de demarcarem seus territórios. Que, aliás, defendem de outros sauins “invasores” com garras e dentes, literalmente. São ativos apenas durante o dia.

São animais que dependem da existência das florestas, apesar de tolerarem viver em florestas degradadas, mas que devem ter condições mínimas de área, tipos de árvores, abrigo e conexão com outras florestas para garantir a sobrevivência do grupo de sauins de forma saudável e segura.

Nas florestas eles encontram uma variedade de frutas e insetos que servem de alimento, mas também podem comer goma e néctar de algumas espécies de plantas, pequenos animais vertebrados como sapinhos, osgas e calangos, bem como ovos e filhotes de passarinhos.

Estão quase sempre nos ramos e troncos das árvores, mas eventualmente descem ao chão para capturar insetos, recolher frutos ou atravessar um trecho sem árvores. E é aí que mora o perigo, pois podem ser atacados por cães ou serem atropelados.

Área restrita

Ao contrário do que muita gente pensa, o sauim-de-coleira, também conhecido mais recentemente como sauim-de-Manaus, não ocorre apenas na capital do Amazonas. Sua distribuição geográfica, ou seja, a área onde pode ser encontrado, engloba apenas parte dos municípios de Manaus, Rio Preto da Eva e Itacoatiara.

Apesar de ser bem maior do que a Zona Urbana da capital, ainda assim é uma área muito restrita, se tratando de uma espécie Amazônica (cerca de 7.000 km2). Por só ocorrer nessa região é considerado uma espécie endêmica. Ao sul sua ocorrência está limitada pelos rios Negro e Amazonas, a oeste pelos rios Negro e Cuieras, ao leste pelo rio Urubu e, ao norte, não há uma barreira física definida, mas chega na altura do Km 30 da BR-174, aproximadamente.

E para agravar a situação, sua distribuição geográfica coincide com as áreas de maior crescimento urbano da Amazônia e grandes mudanças na área rural influenciadas pelo desenvolvimento econômico da Zona Franca e polo industrial. Com isso, a perda das florestas onde vive, entre outros fatores, colocou o sauim-de-coleira em risco de extinção.

Principais Ameaças

O desmatamento é a principal ameaça, deixando os grupos de sauins sem ter onde morar e sem alimento. Com o desmatamento muitas vezes ocorre a fragmentação da floresta que antes era toda conectada, formando pequenas “ilhas” de mata cercadas de cidade por todos os lados.

Isso também é uma grande ameaça. Tanto por isolar os grupos de sauins dos demais grupos de sua espécie, podendo acarretar problemas de consanguinidade (cruzamento entre parentes), como por expor mais os macaquinhos aos perigos do meio urbano, como ataques de cães e gatos, atropelamentos, choques em redes elétricas, maus tratos (tiros e pedradas), captura e até mesmo doenças.

Além de sofrerem com a alta degradação dessas matas pelos moradores do entorno, que retiram frutos, cortam árvores, jogam lixo e invadem áreas verdes. Nesse contexto, as invasões em áreas florestadas, que sempre foram recorrentes em Manaus, e nos últimos anos a explosão de construção de dezenas de condomínios e conjuntos habitacionais, vem reduzindo drasticamente as populações de sauins na cidade de Manaus e seus arredores. E deixando as populações restantes em condições de isolamento total.

Entretanto, há a hipótese de um outro perigo que vem pelas bordas de sua distribuição, na zona rural. É uma outra espécie de mico, o sauim-de-mão-douradas (Saguinus midas), de mesmo tamanho, cor preta com patinhas douradas e hábitos muito parecidos. Pesquisadores acreditam que esta espécie esteja competindo com o sauim-de-coleira e esteja ocupando seu espaço, ganhando a competição, sobrando apenas o sauim-de-mão-douradas.

Pesquisas

Há mais de 10 anos a equipe do Projeto Sauim-de-Coleira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), vem pesquisando essa espécie, com a colaboração de outros pesquisadores, com o intuito de obter informações diversas sobre a sua biologia e ecologia (reprodução, crescimento, principais causas de mortes, genética, comportamento, estimativas de quantidades, doenças, entre outras coisas) que sirvam para orientar ações adequadas de preservação. Antes disso pouco se conhecia sobre a espécie, se tratando de pesquisas científicas.

Para se obter muitas das informações relevantes, alguns animais devem ser capturados para marcação e retirada de amostras de sangue, fezes e DNA, além de serem realizadas avaliações do estado geral de saúde do exemplar.

Essas capturas requerem técnicas e armadilhas especiais e muita paciência, tanto para ter eficiência quanto para garantir a segurança dos animais, que são soltos no dia seguinte, no mesmo local.

Depois de capturados, os sauins são marcados com microchips e alguns podem receber coleiras com bolinhas coloridas ou rádio colares (transmissores) para serem reconhecidos a distância. Esses rádio colares emitem um sinal que pode ser captado com um aparelho receptor, usado pelo pesquisador, facilitando o rastreamento do animal marcado mesmo quando ele se esconde na mata.


* Professor da Ufam, biólogo com mestrado em Ecologia e doutorado em Zoologia. Coordena o Projeto Sauim-de-Coleira da Ufam.  Trabalha com o sauim-de-coleira desde 1999 e foi o foco de seu doutorado. Coordena o Projeto Sauim-de-Coleira, que vem monitorando diversos grupos de sauins em vários fragmentos florestais de Manaus e na zona rural. Durante esses anos teve apoio do Ministério do Meio Ambiente (PROBIO e FNMA) e diversos zoológicos da Europa e Estados Unidos e ONGs internacionais.


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