Domingo, 22 de Setembro de 2019
Amazônia

Soldados da borracha: seringueiros no esquecimento

Convocados como heróis para extrair látex na selva e alimentar as máquinas da guerra norte-americana, os ‘soldados da borracha’ querem a compensação por terem sido abandonados à própria sorte nas florestas do Amazonas, do Acre e do Pará



1.jpg O ex-seringueiro Francisco Assis Frazão, de 84 anos, que ainda espera receber o auxílio cedido pelo governo federal aos soldados da borracha, mostra um retrato da época em que ele ainda trabalhava nos seringais
08/06/2013 às 18:15

Borracha na Amazônia é quase sempre sinônimo de prosperidade e riqueza graças ao período econômico vivido no início do século passado. Mas em meados desse mesmo século, a história dos “Soldados da Borracha”, atraídos para a Amazônia no início da Segunda Guerra Mundial, tem um enredo que pouco conhecido da sociedade. Da mesma forma como os convocados para o front de guerra na Europa, milhares de nordestinos vieram a servir à pátria enfrentando inimigos como insetos, animais selvagens e as dificuldades de uma floresta inóspita sob promessa de riqueza fácil garantida pelo governo brasileiro, mas que não aconteceu para nenhum dos trabalhadores chamados de “arigós”.

Quem tem detalhes curiosos desses relatos é o professor Frederico Alexandre de Oliveira Lima. Filho de pais nordestinos, ele trabalhava no Exército e sempre recebia pedidos de concessão de benefícios a ex-seringueiros e tinha que negar, por falta de amparo legal, o que o levou a interessar-se em estudar o assunto. Aprovado para o curso de mestrado em História na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ele dedica-se ao tema “Da guerra na Floresta aos escombros da História: O ocaso dos Soldados da Borracha”, quando dá voz aos homens, mais conhecidos como Soldados da Borracha que continuam numa batalha que chega aos dias atuais pelo reconhecimento do seu papel como participantes da guerra, só que em outro campo: a floresta amazônica para onde vieram produzir a borracha, matéria prima para a manutenção das máquinas de guerra americana.

COMBATE

Encravados nas matas, com jornadas de trabalho semelhantes a de escravos, tinham comida, roupa, transporte e remédio controlados pelos patrões. O status de guerreiros, com numeração e nome de guerra dado pelo Governo, não serviu para muita coisa. “Ao fim da guerra, enquanto os ex-combatentes foram indenizados, os soldados da borracha foram esquecidos no meio da selva” , afirmou o pesquisador. Aqueles que não morreram com as doenças e os abusos dos patrões, ficaram sem condições de retornar aos estados de origem e foram entregues a própria sorte. Aos que buscaram emprego nas capitais emprego, restava atividades como braçais porque não tinham qualificação.

Pelos registros de agências governamentais que subsidiaram as passagens de retorno de Soldados da Borracha, reunidos pelo historiador Pedro Martinello, 6.030 imigrantes haviam deixado os seringais entre 1945 e 1947. “De 2.160 migrantes que deixaram os seringais em 1945, 804 pessoas sofriam de malária, enquanto os outros 712 tinham desajuste econômico” , apontou ele, citando que as capitais amazônicas foram obrigadas a absorver o contingente de migrantes que abandonou os seringais. Nem mesmo a compensação financeira dada pelo governo dos Estados Unidos chegou as mãos desses soldados. Acredita-se que este recurso foi usado para a construção de Brasília. O fato foi alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que não chegou a conclusão alguma.

É motivo de queixa também, de acordo com o pesquisador, o fato dos ex-combatentes da Força Expedicionánaria Brasileira (FEB) terem ganho financiamento para a construção da casa própria e preferência em concursos públicos, enquanto a eles restou o abandono e o esquecimento.

Vivendo em sincronia com a mata

De extratores de borracha, mão-de-obra entre a seca do nordeste e a possibilidade da fortuna, os seringueiros passaram a ser uma “população tradicional”, apegada a seu território, vivendo em seu próprio ritmo de sincronia com a floresta, escreve Frederico Lima, na tese para obter o título de mestre, orientada pelo professor doutor Luiz Balkar, da Ufam.

Mais de 40 anos depois, apenas com a morte de Chico Mendes e as discussões da Assembleia Nacional Constituinte, essas vozes passaram a ser ouvidas em âmbito nacional. Um dado interessante é que eles não se viam como homens da agricultura, mas sim como homens da floresta, que tinham a agricultura como atividade secundária, observa o pesquisador.

“Por isso, a luta deles não era por uma simples indenização em dinheiro, mas pelo reconhecimento como soldado da borracha, como homem da floresta”, explica Frederico, ao lembrar que esses homens dedicaram suas vidas ao esforço de extração do latex, não só para movimentar a máquina de guerra, mas também para preservar a floresta em pé e manter o seu modo tradicional de vida.

Desigualdade que perdura

Hoje, os seringueiros sobreviventes, sua maioria, não ganham mais que um salário mínino e meio de pensão, enquanto os ex-combatentes tem esse vencimento no valor de R$ 5 mil, além de assistência médica e social. Seu Francisco Assis Frazão, 84, que é natural de Tefé (a 525 quilômetros de Manaus), trabalhou em seringais tanto em Tefé quanto no município de Coari, no tempo da Segunda Guerra.

“Cada um tem uma história”, lembra ele, falando das humilhações sofridas dos patrões por conta das dívidas. “A gente trocava borracha por mercadoria, mas sempre devia para o patrão. Nossa produção nunca chegava”, contou ele, que por mais de 15 anos viveu a rotina de trabalhar desde as três da madrugada até o final da tarde, que depois de mais de 15 anos nos seringais.

Francisco, que é pai nove filhos, todos já adultos e encaminhados na vida, só aprendeu a assinar o nome, recebe o valor de um salário mínimo e meio como aposentadoria e vê como sonho, o reconhecimento pelo que preservaram a floresta nos tempos em que passavam nela maior parte da vida. Para ele, seria uma surpresa muito boa se ganhasse o direito de receber a pensão.



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