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Amazônia
SEDE DE ESTUDAR

Subida e descida dos rios ditam as regras dos estudantes no Amazonas

A vida escolar de pelo menos três mil alunos do município do Careiro da Várzea, a 25 quilômetros de Manaus, é determinada pela subida e descida do rio Solimões 08/11/2015 às 05:20 - Atualizado em 26/05/2016 às 11:32
Luana Carvalho Careiro da Várzea (AM)

O olhar sofrido de Gabriel Vasconcellos (foto), que aos 15 anos cursa o 4º ano do ensino fundamental, não esconde a determinação dele ao responder o que quer ser quando crescer. “Sonho em ser capitão da Marinha. Um dia eu chego lá”. E do assunto o garoto entende.

Gabriel vence as dificuldades e sonha em ser capitãoA vida escolar de pelo menos três mil alunos do Município  do Careiro da Várzea (distante 25 quilômetros de Manaus) é determinada pela subida e descida do rio Solimões. Gabriel, por exemplo, mora no lago do Capitari com a avó e o pai, que trabalham na roça, e para poder estudar acorda todos os dias na madrugada, às 3h.

Ele embarca numa canoa para atravessar o lago e depois pega outra embarcação até a comunidade de Curuçá, onde está localizada a Escola Municipal Aldeney dos Santos. “Eu mesmo faço meu café e quando dá umas 4h30 saio de casa para esperar o motor”, conta, referindo-se ao barco escolar regional, que apanha os alunos moradores de comunidades distantes.

No período da seca do rio, a rotina sofre mudanças, mas não é para melhor. Além de quase três horas de trajeto fluvial, os estudantes andam pelo menos um quilômetro em meio à lama e às plantações de milho e melancia. “Quando o rio seca fica muito pior porque o barco não tem como encostar na escola”, relata.

E justamente no período em que o rio começa a encher, o caminho se torna ainda mais perigoso. “A gente chega na escola sujo de lama, porque fica muito escorregadio e muitos caem”.

Na porta da escola há três caixas d’água para que os alunos lavem os pés, as mãos e as mochilas, que acabam ficando sujas quando eles escorregam.  O colégio também recebe alunos das comunidades do Curari, do lago do Boto e da Boca do Janauacá. Todos, sem exceção, enfrentam dificuldades para chegar a escola.

Com isso, a evasão escolar  por conta dos fenômenos da cheia e da seca é grande e refletida, claramente, no  Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb): 3,3 para as séries iniciais e 3,4 para as finais. Só da educação infantil, 325 alunos do município pararam de estudar na seca deste ano.

Embora muitos alunos desistam de estudar por causa da realidade diferenciada, Gabriel conta, orgulhoso, que só falta aula quando está doente. “Eu lamento por ter começado a estudar só com 10 anos, muito tarde. E por isso não perco um dia de aula, seja na cheia ou na seca”.

Desigualdades aumentam a luta cotidiana

Na região amazônica, onde a realidade dos alunos é diferente de outras partes do Brasil, as dificuldades de logística afetam até a distribuição de merenda escolar.

As lanchas não chegam aos portos das escolas no período da vazante por conta das imensas praias que surgem nas margens dos rios.

“Nós nos deparamos com uma situação difícil até para programar um calendário especial. Temos dois fenômenos que nos atinge. Na cheia, a rotina ainda funciona melhor porque o acesso fica fácil. Só suspendemos as aulas quando as águas invadem as escolas. Mas na seca tudo fica mais difícil e a evasão dos alunos é um dos piores problemas que enfrentamos”, relata a Secretária Municipal de Educação do Careiro da Várzea, Marly Braga Ricardo.

O município conta com apenas 5% de terra firme, o restante da área é várzea. “Nos municípios do Amazonas vivemos situações atípicas demais, mas aqui é ainda pior porque 95% da área do município é várzea”, comenta .

E mesmo na escola pública do interior, há muitos alunos que se destacam. A professora Itelvina Silva conta que seus dois filhos estudaram até o ensino médio no município e hoje todos possuem curso superior. “Passaram por mim muitos outros alunos que conseguiram vencer na vida e hoje são médicos, outros advogados”, conta.

O estudante Gean Nice, 10, é uma das apostas da professora. “Eu gosto muito de estudar e quero ser policial quando crescer”, conta o pequeno, que acorda às 5h e enfrenta os mesmos desafios que os outros colegas para chegar à escola.

‘Região diferenciada’

Os recursos do Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) são distribuídos de forma automática e periódica, com base no número de alunos da educação básica pública.

No entanto, o coordenador da Campanha Nacional pelo Direito a Educação, Daniel Cara, afirma que o governo federal deveria complementar R$ 1,5 bilhão para viabilizar o Custo Aluno Qualidade (CAQ), incorporado ao novo Plano Nacional de Educação (PNE), no Amazonas.

“Todos devem receber recursos para garantir o CAQi, que é o padrão mínimo de qualidade. Porém alguns precisam de um pouco mais do que esse padrão mínimo, por questões inúmeras. É o caso do Amazonas”, ressalta. De acordo com o especialista, os estados do Amazonas e Pará são os que mais necessitam do aporte de complementação na região norte por incluírem de forma expressiva mais alunos na rede pública e por terem suas peculiaridades.

Após vencerem a correnteza do rio, estudantes do Careiro da Várzea botam o pé na lama até chegarem na escola.

Em números: 3.665

É o número de alunos do ensino fundamental e médio na rede municipal de educação do Município de Careiro da Várzea. No período da vazante do rio, pelo menos metade dos alunos deixam de frequentar as aulas diariamente.

Imagens: Márcio Silva

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