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Amazônia
INCENTIVO

'Superação' dos animais resgatados inspira engenheira a não desistir de ser voluntária

Centenas de animais passaram pela casa de Lenita Alves de Toledo e muitos se tornaram residentes. Espécies chegaram a se reproduzir em cativeiro em plena área urbana 04/06/2017 às 05:00
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Onça parda Josué ‘sobrou’ após o fim de um projeto de reintrodução no Tarumã (Foto: Márcio Silva)
Mônica Prestes e Lorenna Serrão Manaus

Ao longo de 35 anos, centenas de animais passaram pela casa da engenheira ambiental, Lenita Alves de Toledo, mas muitos foram levados para lá e se tornaram residentes, além da quatá Priscila, a pioneira. Algumas espécies chegaram até mesmo a se reproduzir em cativeiro, em plena área urbana, como é o caso das antas que vivem na Reserva Cariuá.

Dandara é uma delas e, por ter passado a vida toda ali, um dos poucos animais que não tem um histórico de trauma. Ela nasceu em 2000, na casa de Lenita, filha de um macho que já morreu e de Lulu, uma anta que a engenheira recebeu do Cigs após o resgate ainda filhote, em 1996, e permanece com ela.

“Ela é um cachorrinho, super dócil”, diz Lenita, enquanto dá um “tapinha” no animal e o repreende por interromper a entrevista, empurrando Lenita com a cabeça. “Ela tá querendo chamar a atenção e pedindo ovo cru, que ela adora”, explica. “Mas você não pode ficar se enchendo de ovo, minha querida”, continua, agora falando com o animal. Além do ovo cru, a dieta é à base de casca de soja, frutas e ração de cavalo.

Projeto abandonado
Entramos em outro recinto, que aparenta estar vazio, e Lenita alerta: “Cuidado que ele é bravo” – antes de chamar “-Josué!”. É como ela batizou uma onça parda que também chegou de passagem e acabou ficando.

Levado até ela pelo Ibama em 1998, com apenas 1 ano, o plano era que o animal ficasse na casa de Lenita temporariamente, para que fosse reintroduzido na Área de Proteção Ambiental (APA) Tarumã, na Zona Oeste, como parte de um programa desenvolvido em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

“Eram dois filhotes, ele e uma fêmea, que morreu no cativeiro. Ele foi mantido isolado por muito tempo, sem contato humano, para não abrandar os instintos. Mas chegou num ponto que o projeto, óbvio, dançou, né? No Tarumã... em expansão, muita gente, como vai inserir uma onça? Acabou o projeto, sobrou ele”.

Bem longe dali, fica outra onça, a pintada. Resgatada há mais de 20 anos, ela teve as presas arrancadas e não pode mais ser reintroduzida na natureza, conta Lenita. “Um predador sem presa não sobrevive na natureza”, explica. Agora com o instinto já abrandado, - ela já permite “carinhos” do tratador - o animal é alimentado com frangos.

Traumas

Nos recintos das aves também não faltam histórias de superação entre os animais. Araras baleadas, gaviões atingidos por linhas de cerol, papagaios com asas cortadas e pernas quebradas, animais cegos, mutilados e deformados por maus tratos agora convivem com outros de suas espécies em recintos construídos para eles. “É incrível a resposta que temos deles quando sentem que estão sendo bem cuidados. Muitos conseguem, com o tempo, superar traumas dos maus tratos. Mas alguns ficam arredios a vida toda”, disse.

E essa não é a única preocupação de um mantenedor, revela Lenita. As dificuldades são muitas, diz ela: falta apoio, estrutura e interesse. “A vontade de desistir eu tenho tido sempre porque a gente se sente meio só, não tem apoio e nem políticas públicas voltadas para a preservação da fauna. Sinto como se estivesse dando murro em ponta de faca. A lei agora é matar e matar. Mas se eu desistir... como ficam eles?”

Em cativeiro

Para Lenita, as antas são uma satisfação à parte  pelo fato de ter conseguido salvá-las e até mesmo reproduzir a espécie em cativeiro - o que ainda não era proibido. Atualmente apenas zoológicos podem reproduzir animais em cativeiro, mantenedores e guardiões, não, segundo o gerente de Fauna do Ipaam, Marcelo Carvalho.

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