Segunda-feira, 17 de Junho de 2019
Amazônia

Tensão e medo durante reintegração

Em clima de tensão, mais de 400 policiais militares começaram a cumprir mandato que ordena o fim da invasão no km 6 da rodovia Manoel Urbano. Ação começou com o isolamento das entradas segunda-feira (23) e quarta-feira (25) avançou com sucesso parcial



1.jpg Preparados para uma suposta “guerra” invasores pintados de indígenas assistem a chegada das forças de segurança formada por militares e agentes federais
26/09/2013 às 07:42

Sem água e alguns sem alimentação, invasores do terreno de 50 mil metros quadrados localizado no km 6 da rodovia Manoel Urbano (AM-070), no Município de Iranduba (a 27 quilômetros de Manaus), foram retirados do local, sem resistência, em cumprimento a um mandado de reintegração de posse, ontem. Nesta quinta-feira (26) o trabalho deverá ser concluído no terreno que é da União.

Às 6h, os homens e mulheres observavam de dentro da invasão toda a movimentação das Polícias Militar e Federal do lado de fora. Eles se preparavam para cumprir ao mandado de reintegração. Por volta de 6h20, alguns ocupantes se retiravam do local temendo confrontos.

Logo depois, o helicóptero da Polícia Militar começou a sobrevoar a área invadida para monitorar os invasores. Às 6h48, homens do Batalhão de Choque, da Ronda Ostensiva Cândido Mariano (Rocam) e do Grupo de Pronta Intervenção (GPI) da Polícia Federal se posicionaram, formando um paredão, em frente à entrada principal usada pelos invasores e em seguida entraram no terreno.

Antes da chegada das máquinas para derrubar os barracos e das caçambas para o transporte dos pertences dos invasores, o oficial de Justiça da Comarca de Iranduba, Luis Alan Lorenzoni, acompanhado do comandante de Policiamento Especial da PM, Aroldo Ribeiro e de representantes da Polícia Federal, da Fundação Nacional do Índio (Funai), da Secretaria de Estado para os Povos Indígenas (Seind), tentava negociar a saída pacífica dos invasores com o cacique Sabá Castilho Kokama. Depois de mais de 20 minutos de conversa, as máquinas começaram a derrubar os barracos por volta de 7h30.

Muitos invasores, entre eles supostos índios de diversas etnias, alegavam não ter para onde ir se saíssem. Mesmo assim abandonavam os barracos à medida que as máquinas avançavam. Uma hora depois, um dos filhos do cacique Sabá Kokama, Diego Franco Castilho, foi algemado por homens do GPI da Polícia Federal por desacato, mas conseguiu fugir com as algemas nas mãos. Uma mulher chegou a ser detida também por desacato ao tentar entrar no terreno. Ela foi levada para uma delegacia móvel montada na Escola Procópio Maranhão, em Iranduba.

Às 10h, as máquinas já tinham derrubado todos os barracos erguidos no terreno que pertence à Orciney Alencar de Oliveira. Para retirar os invasores do terreno de propriedade da Assembleia de Deus, no km 4, foi preciso aguardar por duas horas a juíza expedir o mandado de reintegração. No local, uma mulher, grávida de oito meses, entrou em trabalho de parto e foi levada às pressas para o hospital de Iranduba.

Frente a Frente

CACIQUEETNIA KOKAMA

Sabá Castilho

“Queremos moradia”

“Estamos aqui à procura de melhorias para nosso povo. Estes índios que estão aqui clamam por um pedaço de terra. A ideia é de que tudo ocorra pacificamente. Mas quando vieram aqui outra vez chegaram a me ameaçar de morte. Nós temos centenas de índios aqui, apesar de falarem que os índios são minoria. Queremos um posicionamento da Funai, porque queremos os nossos direitos garantidos. Não precisava algemar gente do nosso povo com o uso da força. Aqui só queremos ter uma moradia digna. Ninguém está matando aqui. Mas parece que o governo se esqueceu de nós e estamos cobrando dele o que é direito nosso. Falam que causamos degradação ambiental, mas não falam da destruição que cometem para construírem estradas. Não falam da degradação dos nossos rios e da nossas florestas para aquilo que é de interesse desses governantes”.

COMANDANTEDO CPE

Aroldo Ribeiro

“É ordem da Justiça”“Foi explicado para eles que existe uma determinação judicial e todos nós aqui temos que cumprir essa ordem judicial. Já foi coletada todas as informações com as lideranças que estão aqui nessa invasão e vamos dar início, sim, ao cumprimento da reintegração de posse. Há uma resistência por parte dos índios porque eles estão questionando algumas situações com relação à comunidade indígena, mas foi garantido que todos os direitos serão respeitados e mantidos durante a reintegração. Todos eles estão cientes que devem sair. A negociação no início teve um pouco de tensão até porque existe questionamento da outra parte, mas nada que não possa ser resolvido. O argumento deles é de que querem justiça social, mas estamos aqui para cumprir essa ordem judicial. Sobre a previsão de quando nós deveremos terminar a reintegração, só digo que não temos pressa”.

Invasão começou no mês de julho

A invasão no km 6 teve início no dia 26 de julho quando um grupo de aproximadamente 400 pessoas se instalou no local. A juíza Luciana Eira Nasser, da 2ª Vara Cível da comarca de Iranduba decretou a reintegração de posse no dia 31 de julho. Os ocupantes tinham um prazo de sete dias para sair do local.No dia 8 de agosto, o mandado foi suspenso pela juíza porque o Ministério Público Federal no Amazonas (MPF/AM) pediu que a Funai se manifestasse. No dia 30 de agosto, mais de mil invasores tentaram bloquear a AM-070 por alguns minutos para pedir a posse da terra.Um novo mandado de reintegração de posse foi expedido no dia 30 de agosto, mas a desapropriação foi adiada pela PM. No dia 19 de setembro, mais de 600 índios ocuparam por quatro horas a sede da Funai, em Manaus, em protesto contra a falta de apoio da Fundação na consolidação do assentamento entre os quilômetros 4 e 6 .

Bernardino alerta para novos focos

“Se o Amazonas é o pulmão do mundo, Iranduba e o pulmão de Manaus”. Atuando há mais de 10 anos no km 48 da AM-070 por conta do hotel Ariaú Tower, de propriedade do pai, o empresário Ritta Bernardino Junior, que é especialista em turismo e direito ambiental alerta para o processo de desertificação causado pelas sistemáticas invasões que ocorrem na região e a exploração de olarias. “Se isso continuar, daqui a dez anos Manaus terá um aumento considerável na temperatura por conta da devastação de floresta em Iranduba”, disse. No último sábado, aproximadamente 300 pessoas lideradas pelo pastor Edilson Bentes de Freitas, da Assembleia de Deus Tradicional, derrubaram árvores da reserva do entorno do hotel de selva. Ritta Junior sugere ainda que a Cidade Universitária seja construída onde já foi devastado, no terreno que foi reintegrado nessa quarta-feira (25). “Seria uma resposta para o mundo”.


*Colaborou: Steffanie Schmidt


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