Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
veneno

Amazonas registra dois mil casos de acidentes com serpentes por ano

Em nove anos, 91 pessoas morreram no Estado. Visando a redução de sequelas causadas por picadas de serpentes, a FMT-HVD está desenvolvendo uma série de pesquisas na área da assistência



Capturar_c.JPG A taxa de incidência com serpentes na Amazônia, especialmente com jararaca (foto), é maior do que em qualquer outras partes do Brasil, afirma o pesquisador Wuelton Monteiro (Divulgação)
08/08/2016 às 21:22

O Amazonas registra em torno de dois mil casos de acidentes com serpentes por ano. 90% do total são causados por jararacas e os municípios com a maior taxa de incidência são Manaus, São Gabriel da Cachoeira, Borba e Alvarães. De acordo com o coordenador das pesquisas nessa área, na Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), Wuelton Monteiro, de 2007 a 2015, foram notificados 14.232 casos no Estado e, desses, 91 foram a óbito.

Monteiro explica que o veneno injetado pela cobra durante a picada, além de dor, inchaço e infecção no local, pode evoluir para necrose do tecido e causar perda da função do membro atingido e até amputação ou complicações sistêmicas, como hemorragias em órgão vitais, incluindo acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência renal. Diante disso, é importante que as pessoas que sofrerem acidente com serpentes procurem imediatamente o serviço de saúde para ter acesso ao soro antiofídico.

Em Manaus, a FMT-HVD é a unidade de referência para o atendimento desse tipo de ocorrência. No interior, os hospitais realizam o tratamento. “Só tem soro antiofídico na área urbana e em hospitais. Ele é prescrito por um médico e aplicado no ambiente hospitalar porque pode causar muitos efeitos colaterais”, destacou o pesquisador. “A pessoa tem que buscar atendimento nas primeiras duas ou três horas após ser picada, a partir disso terá mais chances de ficar com sequelas ou ir a óbito”, salientou.

Ele evidenciou que as pessoas devem lavar o local da picada com água e sabão e não aplicar nenhum produto no local. “No interior, é comum colocarem fumo, urina e medicamentos caseiros no local da picada. Isso é perigoso, pois as chances de infecção aumentam consideravelmente”, alertou. “Alguns cuidados podem evitar acidentes com ofídios, dentre eles, não andar descalço e nunca colocar as mãos em tocas ou buracos na terra, ocos de árvores e cupinzeiros”, completou.

Wuelton Monteiro frisou que há quatro serpentes muito perigosas – jararaca, surucucu, cascavel e coral. As demais não são venenosas, no entanto, podem causar algumas lesões no local da picada. O aparecimento delas na área urbana é associado às alterações ambientais. “Manaus é uma cidade grande que produz muito lixo e tem uma área urbana desorganizada. Isso atrai roedores e, consequentemente, as cobras que se alimentam desses animais, por isso há registro de muitos casos na capital”.

Saiba mais

A diretora-presidente da FMT-HVD, Graça Alecrim, diz que a instituição também tem trabalhado em pesquisas com acidentes causados por outros animais peçonhentos, como por exemplo, o escorpião e a aranha. No Amazonas, os acidentes com esses animais são bastante comuns. Depois das cobras, os escorpiões ocupam o segundo lugar em número de registros de casos (2.472, de 2007 a 2015), seguido das aranhas (1.396, nesse mesmo período).

Pesquisas

Visando a redução, nos pacientes, de sequelas causadas por picadas de serpentes, a FMT-HVD, que é vinculada à Secretaria Estadual de Saúde (Susam), está desenvolvendo uma série de pesquisas na área da assistência. Wuelton Monteiro, que coordena os estudos nessa área, explica que as pesquisas desenvolvidas, atualmente, têm o objetivo de melhorar o cuidado com o paciente que sofre esse tipo de acidente e reduzir as chances de complicações.

Uma das pesquisas em andamento na Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) pretende identificar os antibióticos mais eficientes para evitar que o paciente desenvolva uma infecção no local da picada. “Os estudos procuram saber se, além do soro antiofídico que o paciente deve tomar imediatamente após a picada, é necessário também que ele seja tratado com antibiótico, para evitar a infecção local”, disse o pesquisador.

Outras pesquisas em andamento, conforme ele, são para identificar o perfil imunológico das pessoas que desenvolvem infecção após a picada da cobra e quantas adquirem insuficiência renal e se são predominantemente crianças ou idosos. “A partir desses estudos, vamos poder, no futuro, agir precocemente e de forma mais direcionada, no tratamento dos pacientes que sofrem acidentes por picada de cobra”, ressaltou.

O pesquisador revelou que outro estudo que está sendo realizado é para identificar quais os fatores do sangue são alterados nos pacientes levando a desenvolver hemorragia. “O sangue possui vários componentes que podem ser afetados e causar a hemorragia. Esse trabalho quer identificar quais os componentes estão sendo afetados pelo veneno da cobra e saber se o soro antiofídico usado no tratamento está neutralizando essa ação”, detalhou.

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